Sabrina Noivas 107 - The Impatient Groom

Cinderelas existem? Em 1 curto espao de tempo, a vida de Sophia Charlton muda da gua para o vinho: alm de descobrir que  descendente de 1 conde italiano e herdeira de 1 considervel fortuna,  pedida em casamento pelo prncipe Rozzano di Barsini, um homem atraente e sedutor. E o desejo dele  que a cerimnia se realize dentro de 4 semanas! Aps a surpresa e o choque iniciais, porm, Sophia comea a questionar o motivo da impacincia de Rozzano. Segundo os rumores, ele precisa urgentemente de 1 herdeiro. E agora?... Ela est prestes a se tornar a amada esposa do prncipe, ou apenas a me de seus filhos ?


Digitalizao e correo: Nina

Dados da Edio: Editora Nova Cultural 2000
Publicao original: 1999. Estado da Obra: Corrigida
Gnero: Romance contemporneo
Srie Society Weddings
Autor	Ttulo	Ebook	Data
Lee, Miranda	The Wedding-Night Affair
	Aug-1999

Wood, Sara	The Impatient Groom
Sabrina Noivas 107 -
O Noivo Impaciente	Sep-1999

Reid, Michelle	The Mistress Bride
	Oct-1999

Lyons, Mary	The Society Groom
	Nov-1999

Bianchin, Helen	A Convenient Bridegroom
Sabrina Noivas 111 - 
Antes do Sim	Dec-1999

Kendrick, Sharon	Society Weddings: Promised to the Sheikh
	Aug-2002

Walker, Kate	Society Weddings: The Duke's Secret Wife
	Aug-2002



    
















CAPITULO I

Das sombras da galeria dos msicos, Rozzano observava as comemoraes do aniversrio de sua cunhada e travava uma batalha perdida contra o inevitvel. Ele simplesmente tinha que se casar. Era uma ideia terrvel... mas no restava escolha. Uma dor quase fsica contraiu-lhe o estmago.
No belo salo de baile abaixo, que datava do sculo dezoito, concubinas de luxo flertavam com seus amantes e beldades estonteantes ronronavam nos braos de velhos magnatas. Vrios convidados circulavam pelo salo e tocavam maliciosamente as antiguidades, tentando avali-las.
Ele soltou um suspiro tenso, zangado. Aqueles eram seus pertences, seu palcio... e aquelas pessoas os estavam profanando. Desprezava a roda de amigos d seu irmo. No passavam de um bando de gente de mau gosto.
E em meio s conversas eufricas e vazias, seu irmo, um tipo mentiroso, trapaceiro e avesso ao trabalho, andava feito um pavo, exibindo a si e a riqueza dos Barsini enquanto a aniversariante ia se mantendo no centro das atenes e os filhos mimados dela gritavam, esperneavam e se empanturra-vam com caras iguarias.
O prncipe Rozzano Alessandro di Barsini permitiu-se o raro luxo de uma careta desgostosa. Tinha a reputao de ser um cavalheiro perfeito, impecvel. As pessoas ficariam perplexas se o vissem agindo de outra maneira. Mas as emoes dos Barsini no deviam ser manifestadas em pblico.
 Tenha emoes se for inevitvel!  dissera o pai numa certa ocasio.  Mas tenha a decncia de guard-las para si mesmo!
Assim, todo o dio e fria que sentia contra seus parentes tinham ficado totalmente em segredo... mas, cus, era bom deixar a mscara cair por alguns momentos!
Naquela noite, ter sido polido com todos durante a hora anterior esgotara sua pacincia. E estava achando cada vez mais difcil se conter diante dos excessos do irmo. Quando criana, passara longas e dolorosas horas em isolamento, reprimindo suas paixes de maneira a contentar seu rigoroso pai. Aps trinta e quatro anos de autodisciplina, aprendera bem a lio.
Havia suportado direcionando toda a sua energia ao perigo, a esportes arriscados que exigiam que desse o mximo de si. Mas havia vezes em que Enrico ia longe demais e o controle de Rozzano era colocado  prova.
O desprezo o fez torcer os lbios sensuais. Achava o irmo repulsivo, vulgar e imoral. At mesmo ali, Enrico estava acariciando as costas de uma mulher. Era casada e tinha dois filhos... uma das muitas amantes que Enrico sustentava. Uma raiva impotente dominou-o com o fato de o irmo ter levado aquela mulher ao palazzo da famlia.
Pensou no dia em que Enrico nascera e em como o pequenino beb de cabelos negros derretera seu corao. Enrico parecera-lhe um milagre. Mas ele prprio tinha quatro anos de idade na poca e nem pudera imaginar que o beb inocente iria sis- "\ tematicamente envenenar a vida de quem entrasse em contato com ele... apenas pelo puro prazer de faz-lo.
Rozzano empalideceu. O veneno estava nele tambm. Levava-o a sentir tamanha raiva e revolta por algum de seu prprio sangue... mas jamais poderia perdoar Enrico pelo que fizera. Jamais.
Enrijeceu o maxilar com determinao, sabendo que no tinha escolha a no ser tomar uma atitude drstica. Do contrrio, no sabia o que, afinal, iria fazer a respeito de Enrico... como refre-lo, ajud-lo e assegurar que no causasse mais mal aos desavisados.
Ainda no dia anterior, tentara faz-lo enxergar o bom senso. Enrico rira e dissera que a vida era para ser vivida. Quem exceto um tolo iria querer trabalhar num escritrio o dia todo?, perguntara-lhe. Rozzano ficou furioso com a lembrana. O irmo imaginava que um imprio do ramo editorial se dirigia sozinho?
Desviando o olhar com raiva quando alguns convidados embriagados derrubaram um valioso candelabro medieval, Rozzano endureceu seu corao.
Como o filho mais velho de uma das mais antigas e nobres famlias venezianas, ele tinha o dever de proteger a honra... e a sobrevivncia do nome Barsini. Enrico e seus detestveis filhos no deveriam ficar com seu ttulo na eventualidade de sua morte.
Precisava de um herdeiro. No havia escapatria. Tinha que arranjar uma esposa. Rozzano respirou fundo, abalado pelo ar definitivo da deciso que tomara.
Curvou os dedos longos e bem-feitos devagar, cerrando os punhos com fora. O que havia feito por aquela famlia!
Emoes turbulentas travaram uma batalha em sua mente e corao. Jurara que nunca mais tornaria a se envolver com uma mulher. Quatro anos, trs meses e quatro dias antes, para ser preciso. Lembrava-se do momento da morte de sua esposa com exatido. Mordeu o lbio inferior com fora enquanto se esforava para manter o controle.
Seu olhar escureceu enquanto era tomado por amargo ressentimento. Por causa da participao que Enrico tivera na morte de sua esposa, ele se veria obrigado a se casar novamente. Seria forado a escolher uma mulher a quem no amasse... no poderia amar... e teria que fazer o papel de marido devotado pelo resto de sua vida. Que terrvel sentena!
Com uma expresso fechada no rosto, pensou nas mulheres que conhecia, as que o adoravam, as muitas que flertavam e estavam mais do que dispostas a carem em seus braos. No colocaria nenhuma debaixo de seu teto.
 Maldito Enrico!  exclamou por entre os dentes. A felicidade continuaria sendo algo inatingvel. Tinha tudo... e ao mesmo tempo no tinha nada. Exceto a afeio paternal de um velho amigo.
D'Antiga!, pensou de repente. Havia quase esquecido!
O relgio de parede anunciou a hora e ele examinou seu Cartier com uma exclamao aturdida. Precisava sair.
Em algum lugar no sul da Inglaterra, um advogado aguardava com notcias relacionadas  fortuna da famlia D'Antiga... e apenas aquilo seria o bastante para faz-lo viajar por metade da Europa. Talvez tivessem encontrado a filha de Alberto D'An-tiga, que fugira no passado! Se fosse o caso, ele prprio no seria mais obrigado a cuidar dos negcios dos D'Antiga como favor ao amigo de seu falecido pai.
A expresso em seu rosto tornou-se imperturbvel e implacvel mais uma vez. Sua ira foi impiedosamente reprimida. Pensativo, comeou a descer as escadas reluzentes. Talvez pudesse retomar as rdeas das empresas de publicaes dos Barsini das mos de seu irmo e dirigi-las adequadamente outra vez!
Eufrico com a perspectiva, encaminhou-se at o ancoradouro do palcio. Com um meneio de cabea, atraiu a ateno dos criados de prontido, um apressando-se para alertar o piloto da lancha, outro entregando-lhe o sobretudo de l, pasta de couro e luvas.
Como de costume, as pessoas facilitaram-lhe as coisas ao longo de sua entediante jornada. Quando deixou seu palazzo, seguiu de lancha at o aeroporto de Veneza para o vo a Londres. Depois de ter passado a noite na sua sute no Dorchester, um carro com chofer conduziu-o ao avio particular, que o levou at um aeroporto na costa sul da Inglaterra. Dali seguiu de carro at um pequeno vilarejo em Dorset, chamado Barley Magma.
O prncipe Rozzano Alessandro di Barsini II desceu do carro alugado parecendo distinto e impecvel como se tivesse acabado de se levantar e de se vestir.
Mas ainda antes do caf da manh j lidara com mais uma crise causada por Enrico, conversara longamente com seu corretor e atendera vrios telefonemas das filiais de suas empresas ao redor do mundo. No carro, lidara com uma papelada urgente, desviando os pensamentos com eficcia de seus prprios assuntos para os negcios dos D'Antiga, tradicionais no ramo da perfumaria.
	Sim, chegamos  encorajou-o o motorista do carro alugado quando ele hesitou.
Haviam parado diante de uma pequena mercearia ao final de um grupo de casas de pedras douradas que brilhavam suavemente sob o sol de setembro. Uma ruga de perplexidade marcou ligeiramente a fronte lisa de Rozzano, a irritao endurecendo-lhe o maxilar. Uma misso sem importncia. Um equvoco. Sentiu um profundo desapontamento.
Abruptamente, virou-se de volta para o carro.
	No tenho nenhum assunto com um dono de mercearia.
	No, no. O advogado aluga salas no andar acima explicou-lhe o motorista, num tom jovial. Sabia reconhecer um homem rico quando via um e esperava uma generosa gorjeta.  Bata na porta ao final do corredor.
Apesar de ainda duvidoso, Rozzano agradeceu-o polidamente. A situao no parecia promissora.
	Volte para me buscar, por favor. Digamos... dentro uma hora?
Achava que sairia antes disso, mas, de qualquer modo, poderia sentar-se diante do grande carvalho que havia adiante e trabalhar em sua papelada. Rapidamente, caminhou at a porta aberta na lateral do pequeno prdio. A expresso em seu rosto no lhe traa os pensamentos, mas ainda achava que houvera algum engano.
De que forma um simples advogado de um pacato vilarejo poderia ter alguma ligao com a aristocracia veneziana?, perguntou-se, enquanto subia a escadaria de pedra. Quanto mais resolver um mistrio que j durava trinta e trs anos!
Com suas esperanas esmorecendo, entrou no modesto escritrio. Uma jovem atrs de uma mesa parecia tentar dati-lografar e falar ao telefone simultaneamente. Sem erguer o olhar, ela tapou o fone.
	Pois no?
Rozzano estreitou os olhos negros, mas seu tom permaneceu brando e talvez at um tanto soturno ao se aproximar da mesa.
	Bom dia. Tenho uma reunio marcada. Rozzano Barsini...
	Oh! O prncipe!  A jovem colocou o telefone no gancho, chocada, o rosto muito vermelho, e derrubou uma pilha de pastas de arquivo e uma caneca de caf, fazendo Rozzano recuar depressa antes que seu terno sob medida fosse arruinado.  Maldio! Oh, eu sinto muito, sua... h... Alteza!  Em grande confuso, a jovem tentou limpar a mesa, desculpar-se e olhar respeitosamente ao mesmo tempo.
Ele entregou-lhe um leno de linho, esperando que ela no resolvesse curvar-se numa mesura, algo que parecia quase prestes a fazer.
	Por favor, acalme-se  disse-lhe, cansado com o efeito que seu nome invariavelmente produzia.
A contragosto tornara-se uma celebridade. Desde a morte de sua esposa, a imprensa tornara-se obcecada com sua vida, discorrendo sobre cada pequeno detalhe... em especial as extravagncias de seu irmo. Ele conteve a urgncia de fazer um comentrio rspido sobre o fato de algumas linhas na coluna de um jornal no tornarem ningum um deus.
	Esperarei at que esteja pronta para me anunciar  acabou dizendo, esforando-se para ocultar a exasperao.
A secretria arrumou a mesa depressa e adiantou-se at um escritrio de onde ele logo pde ouvir uma conversa animada.
Contendo um suspiro, Rozzano lanou um olhar duvidoso a um sof um tanto gasto e optou por sentar-se numa cadeira ao lado. Desejando no ter desperdiado seu tempo precioso, pegou seu telefone celular do bolso para fazer algumas ligaes.
Somente ento notou a mulher sentada perto da janela.
	Perdoe-me! Pensei estar sozinho. Bom dia  disse polidamente, tornando a guardar o telefone celular.
Ela cumprimentou-o com um sorriso que lhe suavizou os srios olhos cinzentos.
	Bom dia.
A voz era to meldica e calorosa que teve o efeito imediato de amenizar a irritao de Rozzano.
A mulher devia ter-se dado conta de quem ele era, pois a secretria anunciara aquilo aos quatro ventos, mas parecia tranquila e nem um pouco impressionada. Era uma agradvel mudana. Ele desviou os olhos por puro hbito, pois at ento estivera evitando possveis envolvimentos romnticos, mas a reao dela fora to surpreendente que lhe lanou um segundo olhar.
Um sorriso divertido curvou-lhe os lbios msculos e sensuais, suavizando-lhe os traos severos do rosto. Mas ele j fora esquecido... ou descartado! Era-lhe algo to novo que se sentiu intrigado e encantado.
A mulher olhava para a rua, a expresso alegre sugerindo que estava sonhando acordada com algo bastante agradvel. Com algum pesar, Rozzano lembrou-se de suas boas maneiras e tornou a desviar o olhar, mas no antes de observar-lhe atentamente a serenidade do rosto e corpo.
Ao contrrio das mulheres pequenas e esguias demais que conhecia, ela era alta e cheia de curvas. E ainda assim...
Fingindo folhear uma revista antiga, Rozzano tentou compreender o que o estava intrigando. As roupas dela, talvez?
Ele notou ligeiramente um vestido simples de jrsei e um cardig marrom-claro de estilo e idade incertos. No deixara de notar aquelas incrveis pernas, porm... longas, bem torneadas e bronzeadas, donas de tornozelos to bem-feitos que pde se imaginar percorrendo-os com suas mos. Por outro lado, usava sapatos ultrapassados e baratos... embora estivessem bem engraxados. Os sedosos cabelos castanhos tinham sido presos numa trana espessa e severa, como se ela no aprovasse frivolidades.
Nada ali, ento, alm daquelas belas pernas, para fazer o corao bater mais depressa. Naquele caso o que prendera a ateno dele, o que era to fascinante?
De repente, Rozzano soube o que era. Um brilho de euforia surgiu em seus olhos. Contraditoriamente, um ar de refinamento emanava do corpo inteiro dela. Revelava-se na postura perfeita... nas costas retas, na cabea erguida com graciosidade, nos traos delicados, quase frgeis, do rosto e no recato com que cruzava as sensacionais pernas.
Interessante. Talvez devesse iniciar uma conversa, pensou ele, com inevitvel curiosidade.
	O sr. Luscombe est  sua espera, Sua Alteza!  anunciou a secretria numa voz alta demais, os olhos brilhando com entusiasmo.
	Obrigado.
Surpreso com o fato de se sentir aborrecido por no ter tido chance de conversar com a bonita mulher sentada diante da janela, Rozzano tratou de manter seu interesse sob controle, levantou-se e adiantou-se com seu costumeiro andar confiante at o escritrio de Luscombe. Enquanto o velho advogado o saudava, ouviu a secretria acrescentando num tom desdenhoso:
 Oh, e deve entrar tambm, srta. Charlton.
Rozzano girou nos calcanhares, perplexo. A mulher serena e de ar sonhador realmente o seguira ao interior do escritrio! O que afinal teria a ver com os milhes dos D'Antiga?
	Gostaria de um caf, Sua Alteza?  ofereceu a secretria, num desagradvel tom solcito.
Ele lanou-lhe um olhar duro.
	No meu pas  comeou, numa voz mansa, aborrecido em ter que fazer o comentrio , as damas vm em primeiro lugar.
	Sim, Jean, traga caf para todos!  O olhar faiscante do advogado para sua secretria disse tudo.
Luscombe, ento, desviou a ateno para a mulher que havia entrado em seu escritrio. Enquanto a fazia se aproximar e a cumprimentava, a raiva dissipou-se em seu rosto e logo ele era todo sorrisos.
Rozzano tambm ficou sorridente, embora no tivesse certeza do porqu. Sorrisos no tinham estado no seu repertrio de expresses faciais havia um longo tempo, mas quando olhou para interessante mulher aquilo foi algo espontneo. Enquanto a observava apertando a mo do advogado solenemente, refletiu que a simples presena dela parecia ter um efeito balsmico sobre sua mente agitada.
Enquanto Frank Luscombe fazia as apresentaes, Rozzano pegou a mo graciosa de Sophia Charlton e, num impulso totalmente atpico e cavalheiresco, inclinou-se para beij-la.
O homem tinha uma aparncia e um perfume maravilhosos, pensou Sophia, olhando para os cabelos pretos dele e tentando se recordar de onde ouvira seu nome antes. Como se tratava de um prncipe, supunha que devia ter lido a seu respeito quando fora convidado para alguma festa da alta sociedade ou concorrida estreia de filme. Que glamouroso!
To logo beijou sua mo, ele ergueu os olhos para fit-la... eram calorosos, negros como a noite e cheios de magnetismo. Ela ficou perplexa. Aquele no era nenhum playboy. Era um homem que tinha contedo. Inteligncia.
Uma onda de satisfao a fez relaxar, a mesma espcie de satisfao ntima que experimentara quando o vira entrando na sala de espera e ouvira sua voz mscula e aveludada com o interessante sotaque.
A chegada dele a levara a sonhar em conhecer o seu prncipe um dia, apaixonar-se e ter seus filhos. Mesmo que aquele "prncipe" acabasse sendo um empregado de fazenda ou um corretor imobilirio, seria um prncipe para elal
E teriam filhos. Quatro seria um nmero perfeito. Sophia soltou um suspiro. Ansiava por um beb. Tal desejo tornara-se mais e mais urgente com o avanar dos anos. Embora sempre tivesse vivido cada situao em que j se encontrara da melhor maneira que pudera, uma famlia tornaria sua vida completa.
O humor e o bom senso levaram-na de volta  realidade.
Ali naquele pacato vilarejo, cavalos brancos portando prncipes solteiros, ou at empregados de fazendas ou corretores, eram algo bastante improvvel. Especialmente aqueles que se apaixonariam perdidamente por uma solteirona de trinta e dois anos usando um sofrvel cardig marrom!
Divertida, imaginou o prncipe Rozzano inclinando-se de seu garanho branco e apanhando-a do cho para coloc-la  sua frente na sela. Ele desabotoaria seu recatado cardig e o atiraria longe num gesto de paixo desenfreada.
Contendo um riso, prestou ateno, a expresso em seu rosto to sria quanto lhe foi possvel.
	Por favor, sente-se. E devo pedir desculpas por Jean  dizia Frank.   uma temporria. A minha secretria est de licena maternidade.
	Que adorvel!  exclamou ela, contendo sua inveja.  Mas tenho certeza de que deve estar sendo difcil para voc  acrescentou, num tom de simpatia.
Sentando-se, tentou fazer com que a saia curta demais lhe cobrisse melhor as pernas. Notara que o prncipe j lhes lanara alguns olhares. Infelizmente, no sabia dizer se ele gostara ou no do que vira.
A secretria bateu  porta e colocou uma bandeja na mesa do advogado. Serviu o prncipe um tanto desajeitadamente e retirou-se, deixando que Sophia e Frank se servissem sozinhos.
	Eu desisto!  exclamou o advogado, fingindo desespero, o que fez um brilho divertido passar pelos olhos de Sophia.
	Se voc estiver em apuros algum dia, posso aparecer e lhe dar uma mo  ofereceu.  Eu costumava datilografar para o meu pai e fazer sua contabilidade.
	Voc no tomava conta de uma creche antes de ter parado de trabalhar para cuidar dele?
O rosto dela se suavizou com as lembranas felizes daqueles dias.
	Sim, de fato. E eu adorava meu trabalho  admitiu.  Mas eu ajudava papai no meu tempo livre. Francamente, faria qualquer coisa agora... desde que no fosse algo que envolvesse roubo, drogas ou...  Interrompeu-se, percebendo que se estendera demais, esquecendo seu costumeiro jeito comedido. Aquele decididamente no era o lugar para se mencionar prostituio!
	Ou?  indagou o prncipe.
	Qualquer coisa ilegal.  Sophia fez as palavras soarem com o mximo de severidade.
	Ah.
Pela expresso nos olhos dele, ficou claro que sabia exatamente o que ela quisera dizer! Com simplicidade, Sophia prosseguiu:
- Exceto pelo servio voluntrio que fao na escola, estou sem trabalho desde que meu pai morreu.  Fez uma careta.  Voc sabe como  difcil encontrar um emprego aqui, Frank. Se eu morasse numa cidade, seria mais fcil, mas no tenho condies de me mudar.
Um riso baixo escapou-lhe quando se lembrou da mais recente tentativa de encontrar um emprego.
	Divida conoso, por favor, srta. Charlton  murmurou o prncipe, a expresso nos olhos velada por clios negros e espessos.
Ambos os homens pareciam interessados e, portanto, Sophia deu de ombros e lhes contou:
	Eu estava desesperada para arranjar qualquer tipo de trabalho  explicou, num tom srio , assim, na semana passada, eu me candidatei a um emprego de coletora de lixo.
A nica reao do prncipe foi arquear uma sobrancelha ligeiramente. No era um homem que demonstrasse seu humor, ento. Ela sentiu vontade de choc-lo ou for-lo a sorrir, algo que mexesse com aquela inabalvel compostura.
Frank foi mais receptivo:
	E ento?  perguntou, abrindo um largo sorriso.
	Levando em conta a pouca competio, eu cheguei a achar que a vaga seria minha  explicou ela, mantendo uma expresso neutra no rosto.  Ento, apareceu um sujeito com a cabea raspada, tatuagens e um colete de couro, quase estourando nas costuras por causa de seus msculos hercleos, e eu soube que no teria mais a menor chance.
Frank riu. Ela achou que o prncipe estivesse sorrindo, mas evitou fit-lo. Por alguma razo, o homem a estava deixando nervosa. O que poderiam ter a ver um com o outro?
	Eu acho  prosseguiu Frank, ainda rindo  que logo voc ter melhores coisas a fazer do que recolher o lixo de outras pessoas.
O prncipe inclinou-se para a frente ligeiramente. Sophia permitiu-se um rpido olhar. Apesar do gesto quase imperceptvel, pela maneira como erguia os ombros parecia estar tenso, embora no deixasse transparecer nenhuma emoo no rosto bronzeado.
Mas como a filha de um proco, ela adquirira prtica em interpretar pequenos gestos. A percepo era algo que tambm se desenvolvia. Do contrrio como teria sabido quando um vivo estivera exibindo uma fachada corajosa mas no fundo quisera conversar e chorar sua perda? Ou que o pote de gelia caseira, que uma das paroquianas levara, fora apenas um pretexto para uma conversa sobre uma filha rebelde?
Ela deixou as divagaes de lado, concentrando-se na situao atual. E, de repente, estava tensa tambm, perguntando-se como um nobre italiano se encaixava no telefonema misterioso de Frank, que lhe prometera que iria ouvir algo que lhe seria vantajoso.
	Algo como... a oferta de um emprego como bab de uma creche?  perguntara-lhe, esperanosa.
	Algo muito melhor  Frank lhe dissera ao telefone.
Mas aquilo era o que Sophia queria... retornar ao trabalho que adorara, ficar rodeada de crianas, amando-as, cuidando delas.
	Sophia?
Ela levou a mo aos lbios um tanto sobressaltada e, ento, soltou um pequeno riso de desculpas, acostumada a perder o rumo da conversa quando mergulhava em seu mundo de fantasias.
	Sinto muito! Tenho o hbito terrvel de divagar  disse, num tom amistoso.
	Pensando em Hrcules e seu colete?  sugeriu o prncipe.
Os olhos dela cintilaram. Ento, por trs de toda aquela
compostura havia um razovel senso de humor! Sentiu-se irracionalmente satisfeita.
	Eu estava pensando em crianas - contou-lhe com inconsciente ternura.  Eu gostaria de poder arranjar trabalho relacionado a elas.
Frank tossiu significativamente, mas os olhos sorriam-lhe com um ar bondoso. Relutante, ela afastou as lembranas dos tempos felizes que passara com as crianas as seus cuidados.
	Sim, estou ouvindo!  Manteve uma expresso atenta, as mos repousando calmamente no colo.  V em frente.
O advogado ajeitou uma pilha de papis  sua frente.
	Vejamos... Por onde comear?
Sophia notou que o prncipe ficou quieto demais. Lanou-lhe um olhar. Tinha um perfil firme, forte, o que sugeria uma determinao implacvel.
A seu ver, achou que ele fosse implacvel consigo mesmo tambm. O contorno dos cabelos na altura da nuca era meticuloso, o colarinho arrumado demais, o alinhamento da gravata to exato que poderia ter sido colocada no lugar com ajuda de uma rgua. Aquele homem era to impecvel, to perfeito, que poderia ter sido esculpido em mrmore... roupas e tudo!
Rozzano encontrou seu olhar naquele momento. Os lbios abriram-se num largo sorriso em retribuio ao dela, deliciando-a. Ficou totalmente desarmada, como se tivesse recebido um raro privilgio.
Sentiu uma estranha urgncia em desarrumar-lhe os cabelos        j pretos. Seria maravilhoso v-los esvoaando ao vento. Podia         ' quase v-lo numa colina do vilarejo, o sol iluminando-lhe o rosto incrivelmente msculo e bonito.
- Voc est to impaciente quanto eu para saber que estranho capricho do destino nos colocou juntos neste escritrio?  perguntou-lhe ele.
Ela apreciou ouvir-lhe a voz culta e aveludada e desfrutou a sensao enquanto fingia estar considerando a pergunta. Era uma raridade ter um prncipe fazendo-a derreter-se por dentro e pretendia saborear cada instante.
	No estou impaciente. Tenho certeza de que Frank nos contar a seu devido tempo  respondeu bem-humorada. Qualquer um que tivesse se sentado para o ch da tarde com velhos paroquianos conhecia o sentido da palavra pacincia.  Mas de fato parece algo extraordinrio.
	Eu estava pensando a mesma coisa.
Era mais do que extraordinrio, pensou Sophia. Improvvel! Eram pessoas de mundos diferentes. As roupas dele certamente no eram provincianas. Adornavam-lhe o corpo forte, de porte atltico, to bem que, sem dvida, teriam sido feitas sob medida. A linha reta de seus ombros largos era uma obra de arte por si s. Os cabelos meticulosamente cortados e as unhas polidas sugeriam um homem que dispunha de tempo para cuidar de si mesmo.... ou que pagava outras pessoas para cuidarem de sua aparncia. Alm de tudo aquilo, ainda havia um ttulo de nobreza. E era apenas o comeo entre as diferenas entre ambos.
Sophia inclinou-se para a frente e sussurrou num impulso:
	Acho que Frank andou misturando suas pastas de arquivo, para ser sincera.
O prncipe sorriu, os olhos suavizando-se de uma maneira que a fez conter o flego.
	Isso j me ocorreu.
	No demorarei  disse o advogado, concentrado em seus papis.  S estou procurando uma coisa...
Parecia eufrico. Sophia franziu o cenho. Quando acontecia de advogados perderem a fria compostura daquele jeito? A tenso de Frank pareceu transmitir-se para ela e um sbito nervosismo a fez preencher o penoso silncio, dizendo ao prncipe: .  Voc acha que eu posso ser uma irm sua, desaparecida de longa data?
Ele a observou de alto a baixo, e Sophia sentiu uma onda de calor percorrendo seu corpo diante daquele olhar penetrante.
	Acho que isso  improvvel, no acha?  murmurou, examinando-lhe os tornozelos demoradamente.
	Foi uma brincadeira  disse Sophia, desconcertada com o que estava lhe acontecendo e por ser evidente que no havia uma nica gota de sangue aristocrtico em suas veias.
Os olhos negros fitaram-lhe os cinzentos languidamente.
	Eu sei.
Ele continuou estudando-a com intensidade, franzindo o cenho, examinando-lhe o rosto e os lbios em detalhes. Soltou um suspiro, ento, e sentou-se na beirada da cadeira como se algo surpreendente tivesse lhe ocorrido de repente.
	Sr. Luscombe!  exclamou, num tom abrupto, todo o charme de prncipe desaparecendo com incrvel rapidez.  Contou-me ao telefone que tinha notcias que dizem respeito ao amigo do meu pai, o sr. D'Antiga, no foi? Estamos falando sobre a filha dele?
	De certa maneira  respondeu Frank, corando.  Mas...
	Ela est morta, eu presumo.
O advogado franziu o cenho, obviamente perplexo com o sbito jeito brusco do prncipe.
	Chegou  concluso certa, mas se me permite...
	Havia uma criana?
Frank adquiriu um ar constrangido, de quem tivesse sido colocado contra a parede.
	Por favor, deixe-me contar isto da maneira mais branda que eu puder...
	Contar o qu?  exclamou Sophia, com sbita apreenso.
	Por que tem que ser brando? E qual a ligao entre mim e o prncipe Rozzano?  persistiu, comeando a entrar em pnico.
Enquanto falava, lembrou-se de onde tinha ouvido o nome dele. Algum tempo antes, houvera uma foto do prncipe na primeira pgina de todos os tablides. Fora uma imagem de extrema dor. O rosto contrado despertara a compaixo dela, recordou.
A lembrana daquela foto inquietou-a, mas a razo permaneceu obscura. Qual teria sido? E teria alguma ligao com o fato de ele estar ali?
	Sophia, minha querida.
	Sim? Oh, desculpe-me.  A ateno dela foi atrada pelo tom gentil do advogado. Aquilo aumentou-lhe a ansiedade. O homem estava prestes a lhe dizer algo grave.  O que foi? O que houve de errado?  indagou, seu rosto empalidecendo com o temor.
	J se passaram onze meses desde que seu pai morreu.
	Sim, eu sei...
Frank virou-se para Rozzano, explicando-lhe:
	O pai dela sofria de esclerose mltipla. Sophia cuidou dele durante os ltimos seis anos.
O prncipe exibia um ar grave, fitando-a por vrios segundos como se achasse a informao interessante.
	Por favor, conte logo o que est havendo!  implorou Sophia, a garganta seca.
Frank recostou-se em sua cadeira com uma expresso satisfeita.
	O inventrio de seu pai est terminado agora  declarou, grande entusiasmo ecoando de cada palavra.  Foi atipicamente complicado.  Limpou a garganta antes de prosseguir.
Ele tinha um segredo. O segredo de sua me. Ela o fez prometer que nunca o revelaria a voc. Sendo um homem ntegro, manteve sua palavra. Mas um pouco antes de sua morte, ele me pediu para contar-lhe tudo quando eu achasse que estaria pronta. Achou que voc deveria saber o segredo porque a amava e queria que tivesse a chance de... 
O prncipe a sobressaltou ao soltar uma exclamao alta em italiano. Como se no pudesse se conter, levantou-se e comeou a andar de l para c pelo escritrio.
Ainda mais tensa com a reao de Rozzano, Sophia virou-se para o advogado em desespero.
	A chance de qu?  perguntou, num tom de splica, surpresa com o tremor em sua voz.
Rozzano virou-se abruptamente, um indcio de entusiasmo surgindo em sua voz e fazendo seus olhos negros brilharem.
	Voc no est vendo que ela est desesperada para saber, por baixo de toda aquela compostura inglesa?  disse, num tom spero, impaciente.  Eu sei quem ela . E a filha de Violetta, no ? Violetta D'Antiga!
	Acertou na mosca!  exclamou Frank, satisfeito.
A apreenso de Sophia desvaneceu-se de imediato. Aqueles dois estavam completamente malucos, pensou. Recostou-se na sua cadeira, aliviada.
	Ora, vocs me deixaram com os nervos em frangalhos por nada! O nome de minha me era Violet Charlton!  Achou que o advogado devia estar to atolado de trabalho que aquilo estaria afetando seu raciocnio.  Voc realmente precisa de uma boa secretria, Frank, para organizar os seus arquivos  disse, em tom de censura.  Eu sabia que tinha havido alguma confuso!
No momento seguinte, para sua surpresa, o prncipe estava ajoelhado a seus ps, tomando-lhe as mos nas suas. Os olhos de ambos se encontraram, os cinzentos imensos e confusos, os negros intensos e brilhantes.
Ela deu-se conta de que tremia com aquela proximidade. Mas no era algo de surpreender. O prncipe era estonteante. Um homem extraordinariamente atraente, carismtico. Qualquer mulher derreteria depois de vislumbrar a energia, a paixo primitiva, que ele ocultava sob aquele exterior cosmopolita.
Era algo assustador. E para seu choque, Sophia achava aquilo excitante, algo que a inquietava e afetava eroticamente. Aquele, pensou, irnica, era o problema em levar uma existncia fechada, isolada. No se vivia deparando com homens de incrvel magnetismo sexual em pequenos vilarejos.
	No h nenhum erro. Ns temos uma ligao  declarou ele simplesmente.
Uma ligao... Por um breve momento, o ar pareceu faltar a Sophia. Parecia haver uma corrente eletrizante entre ambos como se, de fato, existisse uma ligao vital. Ela, ento, abriu um sorriso trmulo, achando que estava imaginando coisas. Tudo aquilo era improvvel demais.
Que grande tola era! A filha de um proco deparando inesperadamente com um homem incrvel daqueles. No era de admirar que no estivesse conseguindo pensar com clareza.
	Oh,  lgico  concordou em tom de gracejo.  Um prncipe italiano vestindo Armani dos ps a cabea e...
	Gianfranco Ferre  corrigiu-a ele em surpresa, como se qualquer tolo pudesse ter identificado o estilo de seu terno elegante.
	Est certo, Ferre... Como eu poderia saber?  falou Sophia, num tom brando.. De qualquer modo, est me dizendo que um prncipe e a pobre filha de um proco tm alguma ligao"?  completou, num tom zombeteiro e incrdulo.
	Um proco  repetiu ele, os olhos negros estudando-lhe cada trao do rosto.  Isso explica muita coisa.
	Bem, explique a mim, ento!  sugeriu Sophia, ocultando depressa um pequeno tremor em seus lbios.
Seu rosto formigava onde o hlito quente dele soprara. Era como se a tivesse acariciado com a mo... ou com os lbios. Aquela sensao que a dominou fez seu olhar ficar suave, lnguido.
Mais uma vez deparou com aquele sorriso devastador, estonteante. E a afetou demais, produzindo-lhe um estranho aperto no peito.
	Numa outra ocasio  disse o prncipe, com gentileza.  Acredite, nossas vidas esto ligadas. E por isso que estamos aqui. Prepare-se para um choque. So boas notcias... algo que mudar sua vida.

CAPITULO II

Sophia engoliu em seco e recostou-se na cadeira, sua mente rodopiando. Ela no queria que sua vida mudasse. No drasticamente, ao menos. Um emprego, um homem para amar e at um filho em vez de quatro estariam muito bem.
A maneira firme como Rozzano segurou suas mos tranqili-zou-a. Pde sentir a fora que ele lhe transmitiu. Estudando o rosto dos dois homens, viu compaixo e alegria em cada expresso. No seria nada ruim, concluiu, ou estariam lhe oferecendo conhaque, palavras de simpatia e colocando sais debaixo de seu nariz.
	Estou preparada  disse, com resignao.  Assim, podem me dizer do que se trata.
O advogado fez um gesto para qu Rozzano continuasse. O prncipe estudou-a atentamente como se estivesse lendo cada trao de seu rosto. Mas a expresso dele manteve-se indecifrvel. Ela deu-se conta de que aquele era um homem resguardado, que via muito e revelava pouco.
	A sua me morreu quando voc tinha quantos anos?
	Dois.  Aquilo era relevante?, perguntou-se Sophia. Mas percebendo que o prncipe parecia estar esperando que prosseguisse, explicou:  Ela estava me levando para passear no meu carrinho pelo vilarejo quando surgiu um caminho desgovernado e...
Sophia franziu as sobrancelhas subitamente, nas profundezas de seus olhos passando-se vrias emoes. Seu pai ficara inconformado. Lembrou-se do choro inconsolvel dele preenchendo a casa durante dias, dos solidrios paroquianos que haviam cuidado dela e de sua prpria confuso quando o pai a abraara com fora demais, fazendo-a chorar tambm.
	Pobre papai  disse num tom gentil.  Ele a amava tanto.
Um sbito silncio pairou no escritrio. Ficou grata pelo fato de Rozzano no oferecer palavras de simpatia por gente que no conhecera.
O calor das mos fortes que ainda seguravam as suas pareceu aumentar. Sentiu seu olhar sendo atrado pelo dele outra vez.
	Fale-me sobre sua me.
	Eu no me lembro de muita coisa. Tenho apenas uma impresso geral de muitos beijos, abraos, risos... Oh, e ela sempre teve um cheiro delicioso. Possua uns frascos com perfumes maravilhosos...  Sophia interrompeu-se para recobrar o seu tom normal de voz.
	Ah, perfumes.  Os olhos brilhantes de Rozzano pareciam exercer-lhe um efeito hipntico, e ela endireitou-se na cadeira, esforando-se para afastar as estranhas sensaes que aquele homem lhe evocava.
	H vrias fotos dela na casa,  claro  terminou abruptamente.
	Voc a descreveria para mim?  perguntou o prncipe, com gentileza.
Ela esperava que chegassem ao centro da questo logo. Seus nervos estavam  flor da pele novamente.
	Era alta, esguia; tinha cabelos longos e negros, muito sedosos; olhos alegres. E era bastante bonita, de uma maneira delicada, etrea  respondeu, a expresso em seu rosto saudosa.
Se ao menos tivesse tido a chance de conhecer a me! Ficara acordada durante horas algumas noites em sua cama, imaginando como seria ter sido como as outras garotas do vilarejo, pegando a maquiagem da me emprestada, indo s compras juntas na cidade, voltando para casa da escola para encontrar o aroma de bolos assados na cozinha...
	Sophia?  Chamou-a o prncipe.  Devaneando outra vez?
Ela meneou a cabea e lanou-lhe um olhar de desculpas, mas Rozzano pareceu no se importar.
	Eu me deixei levar pelos pensamentos. Minha me devia ser adorvel. Meu pai falava muito a seu respeito. Parecia que ele achava que mame precisava ser protegida, que era frgil e vulnervel. Veja, eu tenho uma foto dela comigo.
O prncipe soltou-lhe as mos e ela procurou a foto antiga e desbotada na bolsa, foto estimada que olhara com afeio inmeras vezes ao longo dos anos. Ele pegou-a, meneou a cabea e passou-a para Frank.
	Violetta D'Antiga, sem sombra de dvida.  Rozzano ergueu sua mo elegante no ar quando a viu fazendo meno de protestar.  Eu vi um quadro dela, Sophia. No h nenhuma dvida. D'Antiga era seu sobrenome de solteira.  Fez uma pausa antes de prosseguir:  Sua me nasceu em Veneza.
Sophia arregalou os olhos- em grande surpresa, o corao disparando no peito. Ento, aquele era o mistrio!
	E verdade?  perguntou, numa voz trmula.
	Sim,  verdade  confirmou Frank.  H vrias provas que posso lhe mostrar.
Por alguns momentos, Sophia permaneceu sentada ali, tentando absorver a informao, convencida apenas pela certeza na voz do advogado.
	Eu... no fazia ideia  murmurou.
Olhou para o prncipe, que parecia deliciado, e descobriu-se abrindo um sorriso hesitante tambm. Ele se ergueu, ento, aproximando-se da janela. Era como se soubesse que ela precisava de tempo para assimilar o que lhe dissera.
	Tenho sangue italiano nas veias  declarou ela, em meio ao silncio.
Ouviu o tilintar das xcaras enquanto os homens se serviam de mais caf. Sangue italiano. Imagens de filmes e programas de viagem povoaram-lhe a mente. Sol, caf em pequenas mesas de belas praas sob toldos listrados, conversas entusiasmadas, mos gesticulando teatralmente... Vinho tinto, famlias devotadas e emoes passionais.
Sim. Sim! Lentamente, vrias coisas comearam a se encaixar e, enquanto refletia sobre a revelao, comeou a compreender melhor o que se passara em seu ntimo.
Parecera que suas emoes sempre haviam estado em contradio com a maneira afetuosa mas quase vitoriana como fora criada. Fora-lhe to difcil agradar seu adorado pai e no danar na rua por divertimento, no atirar seus braos em volta das pessoas e toc-las tanto, no gesticular freneticamente, nem rir, cantar ou gritar de alegria sempre que se sentira feliz por estar viva...
Mas aquela exuberncia fizera parte de sua natureza. Um sorriso deliciado surgiu em seus lbios cheios.
	Veneza!  exclamou, com suavidade. Uma profunda felicidade surgia em seus olhos e era impossvel evitar que a alegria se transmitisse em cada trao de seu rosto.  Veneza!
	sussurrou com fervor e fascnio, pensando na maravilhosa cidade medieval construda sobre a gua...
	Voc est... contente?
Rozzano estava recostado casualmente junto  janela, mas a tenso em seus ombros e a intensidade da voz o traram. Parecia que a resposta lhe era muito importante, e ela achou aquilo fascinante.
Sabia que haveria mais coisas por vir, coisas que ainda no haviam lhe contado. Esforou-se para ocultar seu nervosismo, fez com que as mos relaxassem em seu colo e respondeu calmamente:
	Estou exultante  disse, com sinceridade.
	O que voc sabe sobre Veneza?
Os olhos de Sophia refletiram imediatamente seus sonhos. Havia um livro sobre a cidade em sua casa com fotografias maravilhosas... Soltou um pequeno riso, compreendendo naquele momento por que o pai o mostrara a ela com tanta dedicao.
	Meu pai morou l quando jovem, na poca em que esteve estudando religio e pesquisando So Marcos para sua tese.
	Seu rosto se iluminou com um sorriso.  Presumo que tenha sido l que conheceu minha me!  declarou sentimentalmente, imaginando os dois passeando de gndola  meia-noite, deslizando em silncio pelos canais escuros...
	Sophia? Volte ao presente, sim?
O murmrio suave e bem-humorado do prncipe despertou-a com um sobressalto.
	Eu estava pensando em que cidade romntica deve ser aquela para os enamorados  explicou ainda admirada, adorando a ideia de seus pais terem desfrutado to adorvel cenrio. Que maravilhoso devia ter sido!
	Voc conhece Veneza? J esteve l?  perguntou ele, interessado.
	Oh, no! Mas meu pai falava a respeito e eu me sinto como se conhecesse a cidade. Costumvamos olhar um livro de viagens sobre Veneza juntos e ele me falava a respeito dos palcios, da praa So Marcos, das igrejas, repletas de pinturas de artistas famosos... Eu me sinto como se conhecesse o lugar. Eu tenho o mapa da ilha na minha cabea, sei como o Grande Canal se curva feito um S, onde fica a ponte Rialto... E  tudo to bonito! Para mim,  como s Veneza tivesse sado de um conto de fadas medieval.
	Eu concordo,  a cidade mais bonita do mundo  murmurou Rozzano.  Os venezianos tm pena de quem no nasce l!
	Ora, e o que me diz que voc prprio  veneziano?  indagou ela secamente e viu os olhos negros cintilando. Fascinada com a chance de aprender mais sobre o local de nascimento de sua me, acrescentou:  A sua famlia tem vivido l por muito tempo?
	Durante cerca de setecentos anos  respondeu ele sem a menor ponta de arrogncia.
	Setecentos anos!  Boquiaberta, Sophia desistiu de tentar imaginar como seria descobrir ancestrais to remotos e decidiu provoc-lo:  Ora, ora, e ainda continuam em Veneza! No so do tipo de pessoas que saem para colonizar o mundo, ento!
Rozzano inclinou a cabea para trs e riu, divertido, antes de se adiantar para tomar-lhe as mos nas suas outra vez. Era extraordinrio como continuava tocando-a! E por qu?
Fitando-lhe os olhos perplexos, ele beijou-lhe os dedos de ambas as mos.
	Quando se encontra uma jia, no se deve jog-la fora.
Sophia baixou os olhos, franzindo o cenho. O toque daqueles lbios fora quente e macio e ela desejara... Encabulada com suas reaes, fez o possvel para manter as mos inertes entre as dele e esforou-se para se concentrar no assunto em questo.
	Eu aindano entendo por que voc est aqui  declarou, num sbito tom srio.  E por que meu pai no me contou quem era minha me? Ser italiano no  crime. No faz o menor sentido.
	Imagino que ele a estivesse protegendo.
Sophia ficou tensa com a gravidade na voz do prncipe. Estivera certa. Havia mais naquela histria. Algo que acabaria no gostando.
	Por qu?  perguntou, um sbito temor oprimindo-lhe o peito.
Ele a observava com perturbadora intensidade.
	Ela havia fugido.
Sophia arregalou os olhos, chocada.
	Do qu?
	Do casamento.
Distraidamente, o prncipe acariciava-lhe os dedos longos, e ela teve que se esforar para manter a respirao estvel.
	Prossiga  murmurou.
	Tinha havido um acordo de que ela se casaria com um amigo da famlia quando atingisse a idade de dezoito anos. Fora prometida a ele desde a infncia. Pelo que entendi, porm, Violetta era bastante independente e emotiva. Durante a maior parte de sua adolescncia lutou contra a ideia de um casamento sem amor.
	E eu tambm o faria!  declarou Sophia, com fervor, sentindo-se perplexa com a presso familiar que sua querida me devia ter sofrido.
Rozzano franziu o cenho de leve como se no tivesse gostado do comentrio. Abruptamente, soltou-lhe as mos e comeou a andar pelo escritrio outra vez, apanhando objetos, distrado, e colocando-os de volta no lugar. Sophia e Frank acompanharam-lhe cada gesto, e ela se deu conta de como o prncipe era dominante, de como havia assumido o controle da situao, conduzindo-a a seu tempo.
Estava acostumado a assumir o comando, a ser obedecido. Ela achou aquilo atraente e desafiador. Ironicamente, reconhecia que queria deix-lo saber que no era do tipo que gostava de receber ordens, embora pudesse parecer complacente a quem no a conhecia. Com certeza, era parecida com a me. Se algum a pressionava demais, mantinha-se firme em suas convices. E era momento de mostrar que era to boa quanto qualquer prncipe.
	Ento, ela se casou com meu pai por amor e desafiou a famlia materialista. Agiu certo. Admiro sua fora de vontade. Ningum deveria ser obrigado a aceitar um casamento arranjado contra sua vontade!
Rozzano deu de ombros num gesto bem italiano.
	Casamentos dinsticos, de convenincias, so bastante comuns. Geralmente, o filho ou filha de um aristocrata poder crescer mediante o acordo de que se casar com algum de uma famlia apropriada.
Sophia torceu o nariz em reprovao e perguntou-se sobre a esposa de Rozzano... porque certamente o prncipe seria casado. Usava um anel de sinete no dedo anular da mo esquerda, um com diamantes incrustados e iniciais interligadas. Seu casamento teria sido arranjado?
Imaginou o constrangimento da noite de npcias, tendo que enfrentar uma noiva a quem no amasse. E corou quando seus pensamentos a levaram mais longe, fazendo-a imaginar os ombros largos dele e o torso nu...
	E um costume brbaro!  declarou com mais veemncia do que pretendera. Mas ficou aborrecida com a onda de calor que a percorreu diante de seus pensamentos errantes em torno do prncipe... Engoliu em seco. Devia se ater ao assunto que discutiam.  Muito bem. Qual  a sua ligao com ela?  perguntou, tentando entender o que havia de comum entre aquele aristocrata de irritantes origens e sua simples famlia.
Houve uma longa pausa, fazendo-a achar que iria quebrar o hbito de uma vida inteira e gritar. Os lbios se entreabriram em impacincia.
	Pelos cus, diga-me logo!  exclamou.
Rozzano fitou-a com estranha intensidade, como se pudesse ver-lhe a confuso na mente.
	A sua me, Violetta, era a filha do grande amigo de meu pai, Alberto D'Antiga. Ela deveria ter se casado com o meu pai. Mas fugiu.
Sophia se perguntou se Rozzano se sentiria insultado por causa do que houvera com o pai. No deu o menor indcio daquilo. Ao contrrio, pensou ela, sua pele se arrepiando com a sensao, o prncipe estava recostado elegantemente na mesa de Frank e observando-a de alto a baixo como se estivesse lhe dando notas para o que possua. E, pr sua vez, ela fazia um tremendo esforo para tentar no reagir quele olhar.
Rozzano estaria acostumado a despertar aquele tipo de efeito, pensou, contrariada, e certificou-se de no deix-lo suspeitar da maneira como a afetava. De cenho franzido, declarou num tom um tanto seco:
	Isso no explica o porqu de voc estar aqui.
Os olhos negros ficaram velados, fazendo-a perguntar-se se no havia apenas imaginado o olhar prolongado.
	Eu cuido dos assuntos de Alberto D'Antiga. Como j mencionei,  um antigo amigo da famlia. Alm do mais,  doente e est sozinho no mundo  explicou Rozzano, uma surpreendente ternura surgindo em sua voz.  O seu av est ficando mais fraco a cada dia, Sophia. Ficar radiante em saber que tem uma neta.
	Hum. Esse  o homem que acabou afastando minha me do lar que devia adorar!  lembrou-o ela vigorosamente.
	Voc no sente nada por um homem velho e doente com quem tem laos de sangue?  O olhar de reprovao de Rozzano deixou-a embaraada.
Ela soltou um suspiro e deixou o orgulho de lado.
	 claro que sinto. O que passou, passou. Lamento que ele no esteja bem. E sim, eu gostaria de contact-lo.  o nico parente que tenho agora.  Rapidamente, apanhou uma caneta e um pequeno bloco de anotaes da bolsa.  Poderia me informar o endereo dele?
	 claro. Conde II D'Antiga...  comeou ele a ditar.
	Conde II...  Ela ergueu o olhar para ver se o prncipe estava gracejando, mas parecia mais srio do que nunca.
	O palazzo dele chama-se Ca' D'Antiga. Escreve-se com C maisculo e...
	Espere um minuto!  exclamou ela, chocada.  Um... conde? E mora num palcio! Voc est zombando de mim, no est?  acrescentou, com um riso nervoso.
	No. Alberto  mesmo um conde. E h muitos palazzi em Veneza. Algumas centenas. E h vrios nobres de menor importncia. Ainda mantemos nossos ttulos, mesmo depois de Napoleo t-los abolido. Oua, eu no mentiria a esse respeito.
Qual seria o meu motivo? Pense bem. Com certeza, D'Antiga no ficaria to ansioso a respeito do casamento da filha se fosse um aougueiro ou vendedor de sorvetes.
	Eu... eu no sei!  murmurou ela, incapaz de assimilar todas aquelas revelaes de uma vez. Mas, de repente, tudo fez sentido.  S-Suponho...  comeou, chegando a uma concluso e atropelando as palavras  ...que ele estava desesperado. Devia ter perdido seu dinheiro e precisava que a filha se casasse com algum rico para preservar...
	Ele  muito rico. Sempre foi.
Com sua ideia descartada, ela sacudiu a cabea de leve para dissipar a confuso.
	Ento, por que ele insistia nessa unio sem amor?
	Tem que se tomar cuidado com caadores de fortunas  declarou Rozzano abruptamente,  Quando ambas as partes que se casam tm dinheiro no h problemas desse tipo.
Sophia demonstrou seu horror.
	No  de admirar que minha me tenha fugido se  dessa maneira que vocs, aristocratas, pensam!  declarou, indignada.  O amor  a nica razo para o casamento! Qualquer outra coisa seria apenas uma zombaria aos votos matrimoniais feitos diante do altar! Tenho orgulho do fato de minha me ter dado mais valor ao amor do que ao dinheiro...
	Ela poderia ter tido ambos.  O prncipe abriu um sorriso um tanto irnico ao v-la franzindo as sobrancelhas em confuso e falou pausadamente, explicando-lhe:  A sua me era uma herdeira com fortuna prpria.
Seguiu-se um longo silncio. Atnita com a revelao, ela apenas o observou, os olhos arregalados. Devia estar havendo algum engano. Sua famlia tinha sido muito pobre. Tinham tremido na gelada casa paroquial e usado roupas extras para se protegerem do frio. Se houvera dinheiro, acabara logo no incio.
Tentou falar, explicar aquilo, mas as palavras no saam.
Rozzano se aproximara, parando diante de sua cadeira. Ela teve que erguer a cabea para fit-lo, o olhar percorrendo-lhe nervosamente o corpo fabuloso.
O prncipe estaria deliberadamente tentando domin-la?, perguntou-se. Pensou em levantar-se e andar um pouco pelo escritrio tambm, mas sabia que naquele momento suas pernas fraquejariam.
Ele afastou o palet e colocou as mos nos bolsos, atraindo-lhe a ateno para o abdome firme e quadris esguios. Sophia baixou o olhar. Ouviu-o falando, aquela voz aveludada repercutindo em seu ntimo, distraindo-a at de mais aquela revelao feita sobre sua me.
Pensou mais uma vez que aquele homem tinha um magnetismo irresistvel, temendo deix-lo perceber que era em parte responsvel por sua respirao ofegante. Fez um esforo consciente para parar de reagir to tolamente ao charme de Rozzano e concentrar-se em suas palavras.
	Mas voc descobrir que seu av  dizia-lhe, num tom gentil   um homem bom e generoso. Ele ficaria muito feliz em ver voc tomando o seu lugar na sociedade veneziana.
Sophia soltou um riso, imaginando-se com uma tiara de ouro na cabea e vestidos longos e bordados, ou o que quer que netas de condes usassem. Provavelmente usariam roupas modernas de Versace e bons de beisebol na atualidade, pensou, tentando ver o lado engraado da situao.
Rozzano franziu o cenho de leve.
	Est achando isso divertido?
	No. Sim. Oh, eu sinto muito. Mas tudo isso me parece loucura! Peo-lhe desculpas se minha reao o ofendeu. Acontece apenas que acho que voc deveria averiguar os fatos. Ao contrrio de ser uma herdeira, minha me era pobre.
	Como voc sabe?
	Ora, pela maneira como vivamos. Sei que ela nos adorava. Teria repartido seu dinheiro conosco e o deixado para papai. Mas ele e eu levamos uma vida de privaes! Meu pai nunca teve dinheiro. Olhe para mim! Olhe para estas roupas! Dificilmente seriam usadas por uma herdeira, no acha? So de uma loja de artigos baratos daqui!
Ela lanou um olhar realista a si mesma. No era de admirar que o prncipe tivesse ficado surpreso com sua aparncia. Comparando-a com a fotografia de Violetta D'Antiga, teria comeado a se perguntar como Violetta poderia ter sido me de uma mulher to mal vestida!
	Tudo o que eu sei  que Violetta nunca tocou no dinheiro de sua herana pessoal. O dinheiro ainda est intacto num banco de Veneza  declarou Rozzano.
	Mas... por que ela faria uma coisa dessas, tornando-se pobre deliberadamente?  perguntou Sophia em incredulidade.
	Por orgulho e medo  respondeu Frank.  O pai de Violetta era... ... um dos administradores desse fundo. Ela teria precisado lhe pedir para liberar o dinheiro. Pelo que seu pai disse, eu entendi que ela achava que sua felicidade teria sido comprometida pela riqueza... algo que no quisera arriscar.
Eu soube da histria toda atravs de seu pai; est nesta carta.
 O advogado passou-lhe uma folha de papel s mos.
	No posso acreditar!  exclamou Sophia, veemente, ansiosa para negar tudo aquilo, temendo as dvidas que surgiam em sua mente, temendo que houvesse mais por trs da absurda histria.
Subitamente, estava com muito medo, como se o cho tivesse acabado de se abrir sob seus ps e fosse trag-la, quisesse ou no.
Palavras giravam em sua mente. Italiana. Veneza. Um conde. Uma herdeira. Obviamente, acabara adormecendo perto da janela na sala de espera de Frank e aquilo era um sonho, provocado pelos pensamentos com o prncipe. Mordeu o lbio inferior com fora.
E soube que estava acordada.
Tremendo, levou a mo  fronte. Sua pele ardia. Tinha febre... Deviam ser alucinaes, ento.
	Por favor...  sussurrou, sentindo calor e uma terrvel tontura.  Eu... eu no consigo respirar...
Braos fortes envolveram-na, um apoiando-lhe as costas, outro segurando-a por baixo dos joelhos. O prncipe j fizera aquilo antes, divagou ela, zonza, e sentiu uma raiva irracional de todas as mulheres que ele carregara para a cama. Sua cabea rodopiava enquanto era erguida no ar como se no pesasse nada.
Nauseada, com a sala parecendo girar  sua volta, deixou-se levar at um velho sof perto da janela, onde Rozzano a deitou com gentileza.
Fechou os olhos enquanto lutava contra o torpor em sua mente. No deveria perder os sentidos. Tinha que manter a mente concentrada, lidar com aquela histria improvvel... Mas, ainda assim, Frank tivera tanta certeza. No podia ser verdade... podia?
Um gemido abafado escapou-lhe os lbios plidos. As provas pareciam incontestveis. Do contrrio, por que o prncipe teria viajado at.a Inglaterra? No havia como negar os fatos diante de si. Frank estava convencido de tudo. O prncipe tambm. Aquilo significava... Soltou novo gemido e, ento, estremeceu quando Rozzano lhe sussurrou algo e tocou-lhe o cenho franzido com a ponta dos dedos.
	Agua, por favor!  pediu ele, com urgncia.
Sophia sentiu o toque macio do tecido quando foi coberta com o palet dele. Tinha uma fragrncia suave e discreta, mas deliciosa, como os perfumes naturais que sua me usara. E Sophia quis erguer os braos e pux-lo para si, at que ficassem de rosto colado e pudesse inalar aqueles maravilhosos perfumes.
Em vez daquilo, manteve os olhos bem fechados, tentando ordenar os pensamentos e ganhar tempo para aquietar seus chocantes anseios. Algo terrvel lhe acontecera. As notcias haviam-na enfraquecido e deixado suas defesas abertas para o primeiro homem extraordinariamente bonito que cruzara seu caminho. E Rozzano era mais bonito e atraente do que a maioria.
	Cus!  exclamou a secretria temporria, que entrava na sala.
Sophia ficou grata pela interrupo aos seus pensamentos errantes, induzidos pelo pnico. Ainda assim, permaneceu imvel, ouvindo Frank murmurar algo para dispensar a jovem. Agua fria foi aplicada s suas tmporas e pulsos.
Em seguida, o dedo umedecido de Rozzano passou algumas vezes sobre seus lbios trmulos. Foi um contato maravilhosamente ertico, e ela precisou se conter para manter os olhos fechados e no capturar-lhe o dedo entre os lbios...
Enquanto a inesperada onda de desejo a percorria, tornou a soltar um gemido, ciente de que precisava liberar suas emoes. Sua mente estava num turbilho. Cerrou os dentes com fora, perplexa com a maneira como suas barreiras estavam desmoronando.
A mo do prncipe acariciava a sua gentilmente. Sabia que era a dele, recordou-se de sua fora, da maciez dos dedos longos e elegantes. E deu-se conta de que podia se lembrar de cada trao do rosto marcante dele, de seu porte atltico, da maneira confiante como caminhava...
	Sophia, procure relaxar  murmurou-lhe ele.
Relaxar! Era algo quase impossvel diante daquela perturbadora proximidade, mas ela fez uma tentativa, ordenando a seu corao que voltasse ao ritmo normal.
Abriu os olhos, mas desejou no t-lo feito. Deparou com aquele rosto msculo perto demais, uma expresso de preocupao suavizando-lhe os traos autocrticos.
	No fique assustada. Nenhum mal ir resultar desta situao. Voc se reunir ao seu av. E nunca mais ter que se preocupar com dinheiro...
	Meu av!  exclamou ela, numa voz rouca, o turbilho de emoes dominando-a.
Ainda estava aturdida demais. Todos aqueles anos e o homem envelhecera e ficara doente, sem saber de sua existncia Inesperadamente, comeou a chorar enquanto continuava deitada ali, as lgrimas quentes escorrendo-lhe pelas faces.
	Por que ela est aborrecida?  ouviu Frank perguntando, num tom confuso.  Achei que ficaria contente! Merece algo bom em sua vida depois de tudo que andou passando. Abriu mo de tudo para cuidar do pai doente. No deve ter sido fcil. No teve diverso, nem amigos ou namorados, apenas passando todos aqueles anos de cega dedicao...
	Frank  murmurou ela depressa, constrangida em estar sendo exposta daquela maneira , voc no entende! Estou chorando porque tenho um av que nem sequer sabe que eu existo. Ele poderia ter morrido e eu jamais o teria conhecido! Como minha me pde fazer isso comigo?  Chorava abertamente agora, to abalada que se esquecia de sua reserva.  Por que me manteve afastada da famlia dela? Era casada. O pai dela no poderia ter feito mais nada para interferir! Com certeza, ambos poderiam ter superado suas diferenas! Pare ce-me algo to cruel...  A voz falhou-lhe, os olhos se enchendo de lgrimas novamente.  Minha me se tornou um mistrio. Detesto isso.
	Ento, desvende-o. V at Veneza e converse com seu av  sugeriu Rozzano, num tom manso.  Deixe-o explicar.
	Veneza?  repetiu Sophia, atnita, sentando-se no sof.
	 claro disse o prncipe pacientemente.  Ele no pode vir at voc. No  forte. Em qualquer dia desses eu temo que o pior...
Ela mordeu o lbio inferior, compreendendo. Seu av no tinha mais muito tempo pela frente. Hesitou.
	Eu no poderia pagar a viagem...
	Claro que pode. Voc  rica.
	Eu no tenho passaporte  teimou ela, bloqueando a mente para tudo aquilo com que no queria lidar.
Soube que estava se agarrando a qualquer coisa para no fazer a viagem, embora ansiasse por conhecer o av. O medo e o amor travavam uma batalha em seu ntimo.
	No tem passaporte?  exclamou Rozzano, perplexo.
	Nunca houve a necessidade de um. Sem mencionar que minha certido de nascimento se perdeu e...
	No se perdeu. Est no meu cofre.  Frank entregou-lhe o documento.
E ali estava. Me: Condessa Violett D'Antiga. Sophia olhou fixamente para sua certido, mas as mos tremiam tanto que o papel escapou-lhe. Rozzano agachou-se para apanh-lo do cho, ficando mais uma vez muito prximo, e ela sentiu um tremor percorrendo-a.
	Sei que isso deve estar sendo difcil para voc, mas irei ajud-la  sussurrou-lhe ele ao ouvido.  Estarei a seu lado em cada etapa do caminho se desejar.
Houve um sbito movimento brusco na porta aberta que dava para a sala de espera. Quase simultaneamente ela se viu em meio ao espocar de um flash que a assustou e fez gritar.
Rozzano levantou-se, praguejando por entre os dentes em italiano e, numa questo de segundos, corria pela porta em perseguio ao intruso.
Sophia viu Frank adiantando-se at a janela. Levantou-se do sof com as foras subitamente renovadas e juntou-se a ele. Seu corao disparou no peito. Na rua abaixo, Rozzano esbravejava e segurava-se  porta de um carro, que ia acelerando em disparada.
	Ele acabar morrendo!  exclamou ela, horrorizada.
Sem pensar, deixou o escritrio e desceu a escada freneticamente, correndo atrs do carro. Rozzano caiu, rolando para o lado e ficando fora do alcance das rodas. E permaneceu inerte no cho.
Ele estava profundamente abalado, embora no pela queda ou o encontro com o perigo. J enfrentara muitos.riscos escalando montanhas e esquiando, encarando o medo com frequncia demais para que ainda o afetasse. Era sua reao que o assombrava.
Surpreendentemente, quisera proteger Sophia de exposio na mdia... das mentiras, das histrias que teceriam em torno de ambos. O grito de medo dela despertara em si uma resposta to forte e primitiva que poderia ter sido como um homem das cavernas defendendo sua mulher!
E, ento, fizera o impensvel, quebrara suas prprias regras e agira feito um tolo. A imprensa teria um prato cheio com aquela sua atitude.
Furioso com sua insensatez, ficou ali deitado no cho sem se mover, deixando que a raiva se dissipasse e seus msculos doloridos se recobrassem. Deu-se conta de que a cabea latejava. Uma mo suave tocou-a. A de Sophia. E aquele toque era maravilhoso.
Seu corpo reagiu de imediato, para seu aborrecimento, gerando uma espcie de calor que lhe percorreu as veias. O que o deixou mais surpreso foi como a inebriante combinao de pureza e seduo lhe despertou um desejo incontrolvel, um desejo mais poderoso do que qualquer coisa que tivesse sentido durante anos.
O sorriso sonhador de Sophia enlouquecera-o. Quisera saber o que estava pensando sempre que "divagava". E quisera ser parte das fantasias dela. Droga! No podia perder seu controle!
Ela tomou-lhe o pulso. Rozzano sentiu sua pulsao se acelerando e ouviu-a murmurando algo em tom preocupado. E sentiu que algum gostava dele pela primeira vez em sua vida.
Uma onda de culpa dominou-o. Aquela mulher era sincera e autntica. Sabia que no deveria continuar deitado ali, inerte, mas a vontade de submeter-se aos cuidados dela falou mais alto, reavivando-lhe o desejo.
Sabia por que reagira to violentamente. A oportunidade para experimentar um pouco de ao fora quase bem-vinda e servira como vlvula de escape para a tenso que estivera tomando conta de seu corpo.
Sentia o perfume dela agora, suave e ao mesmo tempo inebriante. Quis estreit-la em seus braos e deixar-se envolver por aquela doce fragrncia. Mas em vez daquilo, desgostoso com sua falta de controle, cerrou os punhos e deixou que o contato de seu corpo com o cho duro de pedra distrasse sua mente dos desejos carnais.
Mas era necessrio um grande esforo. As mos dela agora percorriam seu corpo  procura de ossos quebrados, fazendo-o cerrar os dentes e emitir um gemido abafado. Desesperado para encobrir qualquer reao fsica s sensaes que aquelas mos macias em seu corpo provocavam, concentrou-se nos sons da pequena multido que se reunia  volta de ambos.
Aquelas pessoas conheciam-na. Gostavam dela. Preocupavam-se com seu bem-estar. Pde lhes ouvir a afeio nas vozes e ficou contente. Uma mulher to boa e decente alegraria o corao do frgil Alberto D'Antiga, e o velho morreria em paz, sabendo que o nome de sua famlia estava em boas mos.
A menos, obviamente; que algum caa-dotes de boa aparncia a iludisse! Franziu o cenho, contrariado. Aquilo no deveria acontecer. Ela ficaria magoada. Ou pior... corrompida. Ele enrijeceu o maxilar, disposto a ajustar contas com qualquer homem que a magoasse. Fora aquela a reao que Violetta despertara nos homens tambm?
	Ele est com dores!  gritou Sophia.
Rozzano sentiu o leve toque os dedos dela em sua fronte e ouviu-lhe os murmrios suaves enquanto lhe falava, suplicando-lhe, a voz um tanto embargada.
	Por favor, abra seus olhos!  implorou ela.
	No fique preocupada. Tudo vai ficar bem  disse uma voz gentil por perto.
Mais palavras de alento foram transmitidas a Sophia. Era obviamente uma mulher muito amada e excepcional. Aquilo confirmou a impresso inicial dele de que a filha de Violetta era uma mulher especial, dotada de raras qualidades.
No era de admirar que ele ficara fascinado por Sophia, que quisera fazer amor com ela ali mesmo! Como se contivera no sabia. Era como se tivesse se tornado um adolescente outra vez, governado por sua desenfreada libido!
E aquilo o exasperava porque no seria mais capaz de ficar longe dela. Teria que estar a seu lado, hora aps hora, dia aps dia, apresentando-a  sociedade de Veneza, preocupando-se com sua inocncia...
Quase parou de respirar por um momento quando algo lhe ocorreu. A mo de Sophia repousava em seu peito. Era bvio que comeava a entrar em pnico com sua imobilidade e, portanto, ele soltou o ar devagar. Tinha a resposta para todos os seus problemas. E, enquanto Sophia suspirava aliviada, ele a encaixava perfeitamente em sua deciso repentina.
Iria se casar com ela.
CAPITULO III

Era uma soluo brilhante, pensou Rozzano. Uma estranha euforia dominou-o. Ele no a amava... jamais poderia amar mulher alguma. Mas Sophia seria a esposa perfeita.
As mos dela haviam deslizado at a coxa dele. Tremeram enquanto lhe sentia o movimento do fmur. Ficava evidente por seu toque hesitante que ela tinha pouca experincia com os homens. Uma onda de excitao quase o traiu enquanto se imaginava ensinando-lhe os prazeres da carne.
Sua respirao ficou ofegante. Mal podia esperar. Sophia at tinha o seu prprio dinheiro! Inmeras mulheres materialistas e em busca de um ttulo o haviam assediado. Mas Sophia era... diferente. Possua valores que ele admirava. Gostava de trabalhar e se preocupava com os outros. Havia cuidado do pai doente e, mais importante, adorava crianas.
Crianas. Rozzano contraiu-se, uma onda de dor percorrendo-o enquanto a terrvel lembrana vinha subitamente  tona. A mo dela pousou com gentileza em seu peito, e pensar em seu rosto adorvel ajudou-o a afastar aquele pesadelo outra vez.
 Ele pode ter quebrado uma costela  disse Sophia, ansiosa.  Vocs viram como seu peito se contraiu h pouco?
Tomado pela culpa, Rozzano submeteu-se  gentil explorao daquelas pequenas mos. A dor era mais profunda do que Sophia imaginava. Profunda o bastante para ter fechado o corao dele para sempre. Como o pai, casara-se com um membro da famlia D'Antiga. Aos vinte e oito anos de idade apaixonara-se perdidamente pela recm-divorciada Nicoletta que, desconhecida para ele, tivera um passado sexual altamente ativo.
Mulher extravagante e vaidosa de trinta e dois anos, ela o seduzira com suas armas e roubara seu corao. Tinham estado casados por apenas dois anos quando ela morrera esperando um filho.
Desesperado, Rozzano afastou o restante das horrveis lembranas de sua mente. No podia lidar com aquilo, nem deixar que se tornasse de conhecimento pblico. Se o fizesse, o sobrenome Barsini seria enlameado.
Mas Sophia podia atenuar seus pesadelos. Precisava de sua ternura. Uma onda de esperana comeou a domin-lo e, pela primeira vez em vrios anos, acreditou poder encontrar algum tipo de alento.
E quanto a ela? Tentou analisar suas intenes do ponto de vista de Sophia. Ela demonstrara um inegvel interesse por ele. O sexo entre ambos seria fantstico. Parecia ser uma mulher com paixes ebulindo dentro de si, apesar da fachada reservada, como ele prprio.
Podia faz-la feliz. Iria faz-la feliz. E podia ajud-la a enfrentar a nova vida tambm. Sabia que seria difcil para Sophia mergulhar de cabea na sociedade veneziana sem algum para orient-la. E quem melhor do que ele para ser seu mentor?
	Ele ainda no est reagindo! Acho que deveramos chamar o mdico  exclamou ela, ansiosa.
	O mdico foi at Durbridge  respondeu algum.  O veterinrio no fica longe, porm. E a parteira poder vir num minuto.
Rozzano conteve um sorriso. Seria melhor "recuperar-se" antes que fosse submetido a alguma interessante prtica de medicina local! Ento, tudo o que teria que fazer seria conquistar Sophia... e rapidamente, antes que pretendentes comeassem a aparecer, interessados em seu dinheiro e ttulo. Abrindo os olhos devagar, viu-lhe o alvio no rosto plido.
	Voc est bem!
Ele quis estreit-la nos braos e tranquiliz-la. Sentiu-se pssimo por t-la feito acreditar que se ferira.
	Foi apenas um susto  disse, constrangido, embora fosse a verdade.
Houve um murmrio na multido, e ele logo tornou-se o alvo de sorrisos e palavras amistosas. Muitas mos ajudaram-no a se levantar e algum sacudiu-lhe a poeira das costas. A parteira ofereceu-se ansiosamente para examin-lo na eventualidade de alguma fratura e ele recusou polidamente, mas com um brilho no olhar que fez com que todos rissem.
Finalmente, ambos ficaram sozinhos. Alguns metros alm, pde ouvir a voz elevada de Luscombe e esperou que a temporria estivesse sendo repreendida. A fotografia no demoraria a estar nos tablides.
	Sinto muito  disse a Sophia, ficando to prximo quanto julgava aceitvel.  Tentei deter aquele fotgrafo, mas...
	O que ele pretendia? E como sabia que voc estava no escritrio?
	Eu diria, a julgar pela discusso ali adiante, que a secretria de Luscombe foi a culpada. Imagino que ela tenha entrado em contato com o fotgrafo local quando viu quem estava agendado para a reunio das onze horas com seu chefe.
Sophia sacudiu a cabea, surpresa.
	Apenas porque voc  um prncipe?
Rozzano sorriu, adorando ver-lhe a perplexidade. Jamais a impressionaria com seus ilustres ancestrais!
	Surpreendente, no ?  possvel que ela tenha ligado o interfone de Luscombe quando nos levou caf e ouvido tudo o que dissemos. O fotgrafo deve ter achado que era seu dia de sorte quando ela foi chamada para lhe levar um copo de gua e me encontrou inclinado sobre voc.
As faces de Sophia tingiram-se de vermelho. E, por sua vez, Rozzano pensava que tinha que ficar com ela a ss para iniciar sua seduo. Podia pensar em vrios homens solteiros que a teriam adorado. E muitos casados tambm... incluindo seu irmo. Ficou gelado!
	Voc est bem?  perguntou ela, preocupada, tocando-lhe o brao.
Ele meneou a cabea, esforando-se para ocultar a expresso de contrariedade que seu pensamento evocou.
	Foi uma leve vertigem. Mais um minuto e estarei bem.
Sabia o que aconteceria. To logo Enrico soubesse quais
eram os seus planos para Sophia, tornaria sua vida um inferno. Talvez... Seu corpo inteiro se retesou com a raiva. No havia "talvez". Infelizmente, conhecia seu irmo bem demais.
O prprio Enrico a seduziria se tivesse chance!
	Acho que voc precisa de uma xcara de ch  sugeriu Sophia, acariciando-lhe as costas de leve.
Ch! Ele a observou, ainda absorto em seus pensamentos. Enrico a envolveria e a magoaria em seguida sem a menor hesitao. Ele precisava agir... agora.
Uma ideia lhe ocorreu. Chamou Frank, dizendo-lhe:
	Acho que devo tirar Sophia daqui.
Sentiu uma ponta de culpa, mas reprimiu-a. Os fins justificavam os meios. Sophia precisava ser protegida. Temia s em pensar o que Enrico poderia faz-la passar.
	Aquela foto ser vista como comprometedora  prosseguiu. Aproximou-se mais, pousando as mos nos ombros dela. Seu corao disparou.  Parecer que estvamos desfrutando um momento ntimo juntos.  Ele bem que teria gostado!, pensou em meio a nova onda de desejo.
Sophia engoliu em seco.
	In... ntimo?
	Pense bem. Estava num sof e eu, inclinado sobre voc como se estivesse prestes a beij-la...  O que quase fizera, pensou ele ironicamente.
	Mas isso no  verdade!
	Eu e voc sabemos disso, mas fotos mentem. A imprensa marrom faz o que quer a partir de uma foto, como sei por experincia prpria. Haver um grande interesse em voc. A vida se tornar insuportvel. Cercaro voc, gritando, empurrando, enfiando microfones na sua cara, tirando mais e mais fotos e, em geral, tornando cada momento seu intolervel.
Sentindo que os ombros dela ficavam tensos, massageou-os sem pensar at que a ouviu soltando um murmrio alarmado. Mas continuou tocando-a. Precisava toc-la, sentir-lhe o calor, inalar a fragrncia de sua pele. Precisava sonhar. Imaginar-se removendo-lhe as roupas, lentamente, torturando a si mesmo deliciosamente enquanto fosse revelando aquele corpo curvilneo...
Deu-se conta de que a queria para si. Queria lev-la para algum lugar tranquilo e secreto onde pudessem fazer amor longamente...
	Eles perdero o interesse quando eu contar o que realmente aconteceu!  declarou ela, numa voz trmula.
Sophia no tinha ideia do que a esperava pela frente, pensou Rozzano, com compaixo. Tinha muito o que aprender.
	Est certo  disse, usando de frieza para conseguir as coisas  sua maneira.  Faa isso. Diga-lhes que quase desmaiou porque descobriu que sua me era a herdeira de um conde, nascida em Veneza. Explique que voc  uma condessa e que  muito rica. O que acha que fariam com uma histria dessas? "Garota Desempregada Descobre que  Condessa". Ou "Da Misria  Riqueza". A histria de Cinderela  uma fantasia sobre qual todos adorariam ler. Seria um dos assuntos favoritos dos tablides por muito e muito tempo.
Ela o observou, horrorizada.
	Entendo. Mas me deixaro em paz quando souberem como sou comum, no ?
Rozzano compreendeu, ento. Sophia era vulnervel. Precisaria dele. Era como iria vencer-lhe a resistncia. Iria lhe oferecer sua proteo, assumir o controle de sua vida e ensinar-lhe... tudo.
Sophia sentiu-se segura, finalmente. Ali, numa sute do Hotel River House, com Rozzano na porta ao lado, estaria protegida dos pesadelos que ele descrevera to bem na jornada de Dorset at Londres.
Fora Frank que a convencera a se esconder entre os londrinos por um dia ou dois. Ela fizera uma mala rapidamente e logo se vira no jato particular de Rozzano. Suas histrias sobre o assdio da imprensa tinham-na assustado e odiara o fato de que poderia ser perseguida pela mdia onde quer que fosse. Quando conseguiria viver feito uma pessoa normal outra vez?
	Relaxe  dissera-lhe ele, abraando-a da poltrona ao lado no avio.  Tudo isso foi um choque, eu sei, mas d tempo ao tempo. Viva um momento de cada vez e faa planos mais tarde. Nesse meio tempo, deixe-me cuidar de tudo.
	Obrigada.
Ocorrera a ela que nunca fora fraca antes e que a razo para sentir-se daquela maneira teria sido a reviravolta repentina em sua vida. Nunca se sentira to vulnervel, nunca precisara de algum forte e protetor at ento.
	Jamais posso fazer parte de seu mundo  murmurara.
	Voc j faz parte dele. Na verdade, voc  muito parecida comigo.
	De que maneira?
	O fato de ser filha de um proco ensinou-a a ser reservada, corts, ter boas maneiras e se preocupar com os outros. Voc deve ter aprendido a colocar os sentimentos das outras pessoas na frente dos seus e a esconder suas emoes e anseios...
	Como sabe disso?  perguntara ela, surpresa.
	Essa foi a maneira como fui criado tambm  respondera Rozzano com um ar grave.  Sei o que  ficar dividido entre o comportamento polido e a espontaneidade. A sociedade tem feito exigncias a ns dois, s quais tentamos corresponder. Voc se encaixar perfeitamente no que chama de meu mundo. A bondade em seu corao a ajudar a enfrentar qualquer situao social que encontrar pela frente.
Sophia desfrutava o calor daquele brao em torno de seus ombros, atnita com as semelhanas entre ambos e a bondade nas palavras do prncipe. Era o tipo sbio de comentrio que seu pai teria feito... e acreditava haver poucos homens com uma natureza to gentil e perceptiva como fora a dele. Sua admirao por Rozzano crescera.
	Mas no se esquea  acrescentara ele, com cinismo.  As pessoas a aceitaro porque voc  milionria.
	Est brincando!  Ela era milionria! Mal podia crer.
	Falo srio. Pense no que voc pode fazer com tanto dinheiro. Pode encomendar um guarda-roupa deslumbrante, fazer passeios de luxo... .
	Pare! Voc est testando minha criao puritana ao mximo!  protestara Sophia, tentando no se deixar seduzir pela ideia de belas roupas... e de ter algum para lhe dizer o que fazer com o cabelo.  No  dissera, com firmeza.  Eu lhe garanto que ser um prazer no ter que ficar me preocupando mais em como pagar as contas, mas pense s em tudo que posso fazer! Posso ajudar pessoas que precisam, por exemplo, como... rfos, desabrigados, crianas doentes... Eu me sinto frustrada e impotente sempre que assisto reportagens na tev mostrando o sofrimento humano. Tenho contribudo com o que posso, mas sempre me pareceu uma quantia insignificante.  Os olhos dela haviam brilhado quando pensara naquele tipo de poder proporcionado pelo dinheiro.  Posso ser muito mais generosa daqui em diante. No podemos nos esquecer que a imprensa tambm tem o seu lado bom. No ouviramos sobre essas tragdias se no fossem divulgadas.
	Voc  sempre to mo aberta?
	Tento ser justa.
	E eu tentarei ajudar voc, estar ao seu lado sempre que precisar.  A voz de Rozzano soara rouca, seu olhar caloroso. Se no soubesse que era tolice, Sophia teria pensando que se tratara de um flerte. Mas tornara a ponderar que um prncipe no se interessaria por algum simples como ela. Alm do mais, lembrara a si mesma, devia ser um homem casado.
Levara a mo aos lbios quando algo terrvel lhe ocorrera:
	Aquela foto! A sua esposa vai pensar que voc... e eu... Ficar furiosa! Eu lamento muito...
	Minha esposa morreu. Este em meu dedo  um anel de famlia, passado atravs das geraes. Eu sempre o uso.
Sophia notara-lhe o tom grave, vira a angstia passando rapidamente por seus olhos negros antes de t-los baixado. Mas houvera uma frieza e um ar sombrio em seu rosto msculo que no pudera ocultar.
Ela compreendera de repente. Fora a morte da esposa que causara desespero em Rozzano, o que se evidenciara to nitidamente naquela fotografia que vira nos jornais. E ficara dolorosamente bvio que ele a amara muito.
Sophia ficara arrasada com o fato de Rozzano ainda sentir a perda da esposa e tal reao a chocara. Afinal, o que significava para ele?, perguntara-se. Nada exceto uma obrigao, algum de quem cuidaria em favor a um amigo da famlia, lembrara-se. No tinha o direito de se sentir aborrecida.
Casamento de convenincias ou no, o prncipe naturalmente teria podido escolher entre as mulheres mais bonitas e desejveis  sua volta. Quem era ela para ter inveja daquela mulher?, perguntara-se. Ainda assim, para seu constrangimento, invejara-a.
Abalada, permanecera em silncio pelo restante da viagem, enquanto Rozzano se retrara para algum mundo interior em que no ousara perturb-lo.
Na ampla sute com vista para o Tamisa, tomou um banho e colocou um vestido sem mangas que a fazia sentir-se confortvel. At que se olhou no espelho.
	Busto demais e pernas muito longas  resmungou, desgostosa com os detalhes realados pelo vestido. Temia que a fizesse parecer oferecida.
Inquieta, colocou um par de sandlias de salto baixo, sabendo que arrumara a mala com poucos itens e sua escolha era limitada. Precisaria do outro vestido que levara para o dia seguinte. Usar jeans seria um insulto.
Por alguma razo, a trana pareceu destoar e soltou-a com impacincia, escovando os cabelos e perguntando-se de que maneira os arrumaria. Viu, para sua surpresa, como cascatearam por seus ombros em ondas sedosas.
	Um efeito bem sensual. Bem italiano  disse a si mesma e abriu um sorriso maroto.
Houve uma batida  porta de comunicao e entrou em pnico. Sabia que deveria prender os cabelos numa trana severa e ocultar as curvas do corpo sob o cardig, mas a vaidade falou mais alto.
Corando de imediato com sua tola deciso, prendeu depressa os cabelos num coque no alto da cabea e foi abrir a porta na sala de estar. Seu corao disparou quando o viu. Ele optara por uma roupa descontrada, usando camisa plo creme e cala de linho.
Ela foi tomada por uma onda de pnico. Quando Rozzano sugerira que seria mais seguro que comessem na sute, concordara. Tarde demais dera-se conta de que se comprometera a um jantar a ss com um homem incrivelmente sexy.
	Voc est... linda.
Sophia retesou os msculos, sabendo que estava com uma aparncia melhor, mas dificilmente estaria "linda" naquele vestido simples, com finas mechas de cabelo j lhe escapando do coque.
	Obrigada  murmurou.  Voc tem sido muito generoso comigo  acrescentou timidamente.  Eu lhe sou realmente grata pelo tempo que est gastando e trabalho que est tendo comigo.
	No  trabalho algum. Est sendo divertido  assegurou-lhe Rozzano, com um sorriso.  A propsito, subimos at a sute bem a tempo. O gerente me disse que o saguo est apinhado de jornalistas e fotgrafos.
	Mas... como poderemos sair?
	No sairemos  declarou Rozzano, sentando-se calmamente numa poltrona de couro.
	No pode estar falando srio! Estou acostumada a fazer caminhadas dirias. Preciso sair, respirar ar fresco. No posso ficar presa indefinidamente num quarto de hotel s porque um bando de jornalistas est nos rondando!  Ela lutou contra as lgrimas de raiva e frustrao que ameaaram aflorar em seus olhos.  Quero sair! No quero ser uma condessa, nem rica. Tudo o que quero  ir para casa!
	Receio que isso dar uma histria ainda melhor: "Herdeira Rejeita Milhes". Voc no pode mais sair desta situao. Pense no seu av.
A expresso aflita dela se suavizou.
	Voc tem razo. No posso dar as costas a ele. O que podemos fazer?
Houve uma batida  porta.
	Eu pensarei em algo  prometeu Rozzano, com exasperante jovialidade, enquanto deixava entrar o garom com o jantar.
Depois que o rapaz arrumou a mesa perto das portas-janelas que davam para o terrao, Rozzano deu-lhe uma generosa gorjeta, lendo seu nome no crach.
	Voc no viu nada, nem ouviu nada, certo, Tony? Posso precisar de voc outra vez. Quero saber que posso contar com sua discrio se houver transtornos com a imprensa.
O garom guardou o dinheiro.
	Sou cego, surdo e mudo e tenho uma pssima memria  disse com um largo sorriso.  Boa noite.
A tenso do dia foi subitamente demais para Sophia e no pde mais reprimir as lgrimas.
	Detesto ser perseguida!
Preocupado, Rozzano aproximou-se e estreitou-a em seus braos por alguns gloriosos momentos. Quando seus soluos cessaram, ela ergueu o olhar para fit-lo, seu corao se enternecendo quando lhe encontrou os calorosos olhos negros.
E naquele instante soube que seria fcil demais apaixonar-se por Rozzano se no tomasse cuidado.
Bom dia, Sophia.
Usando um perfume delicioso, Rozzano cumprimentou-a com um beijo no rosto, e ela sentiu um inevitvel tremor percorrendo-a com aquele contato inesperado. A seu ver, fazer as refeies na privacidade da sala da sute estava se tornando mais perigoso do que enfrentar a imprensa no saguo.
	Croissants!  exclamou ele, vendo a mesa do caf da manh.  Uma de minhas fraquezas. E ento, no houve nenhum problema com a chegada do desjejum? Nada epaparazzi disfarados de garons?  indagou, enquanto se sentavam para comer.
	No que eu tenha notado!
	Otimo. Minha estratgia est dando certo. Eu providenciei para que dois seguranas vigiassem o corredor  declarou Rozzano, satisfeito.
	Seguranas!
	E apenas uma medida temporria. A imprensa ficar entediada conosco logo. Diga-me, voc conseguiu dormir bem?
Ela sacudiu a cabea, enquanto servia caf para ambos.
	Tive uma noite terrvel de insnia.
	Voc deveria ter-me acordado.
Sophia ficou chocada, mas imaginou-se fazendo exatamente aquilo, esgueirando-se em sua camisola comprida de malha at o outro quarto. Ele usaria pijama para dormir? Ou... nada? Sentiu-se corando e baixou o olhar para a torrada em seu prato.
Esforou-se para distrair a mente que ainda tecia uma imagem de Rozzano, totalmente despido sob um lenol de seda... Engoliu em seco.
	Ento, qual foi o problema que a manteve acordada?  indagou Rozzano, ignorando-lhe o rumo dos pensamentos.
Sophia no soube como responder. Na noite anterior, ele fora bastante atencioso, falando com eloquncia a respeito do negcio de perfumes da famlia D'Antiga e apaixonadamente sobre Veneza, descrevendo um cenrio to atraente e romntico que os temores dela tinham comeado a se desvanecer.
Tinham rido a valer. Enfim, quando haviam dito boa-noite um ao outro, ele hesitara na porta de comunicao, virara-se e a beijara gentil e demoradamente na face, deixando-a trmula da cabea aos ps.
No fora de admirar que ela no conseguira conciliar o sono!
	Tive muito em que pensar  respondeu, evasiva.
	E o que decidiu? Voc ir a Veneza, no ? Seu av ficar contente em v-la. E eu terei imenso prazer em lhe mostrar minha cidade.
Oh, sim!, pensou Sophia, ansiando por aquilo. Mas seria uma sensao agridoce. Ele falaria sobre as atraes tursticas, e ela ficaria desejando que o interesse do prncipe fosse mais do que o cumprimento do dever a um amigo.
	Algum dia.
	Ento, deixe-me providenciar-lhe um passaporte. Posso conseguir um rapidamente.
	Voc ter que despistar o batalho de reprteres primeiro. Ainda no me conformo que estejam no nosso encalo!
	Voc acabar se acostumando. Se bem que ser diferente em Veneza. Posso controlar o que acontece l mais facilmente.
Ela jamais se acostumaria quilo.
	Preciso sair hoje  disse abruptamente.  Preciso de ar fresco! Eu me sinto como uma prisioneira!  Inquieta com a mudana em si mesma, levantou-se e comeou a andar pela sala da sute. Quando fora que se tornara to dramtica?
O telefone celular de Rozzano comeou a tocar e tirou-o do bolso.
	Pronto, Barsini...
Houve um longo silncio. Rozzano pareceu possesso de repente, embora se esforasse para controlar a raiva, a voz mal traindo seus verdadeiros sentimentos enquanto falava num tom comedido em seu prprio idioma.
Era Enrico, provocando-o por causa de Sophia. Ao que parecia, a histria de ambos estava estampada no tablide local sob a manchete: "Prncipe da Tristeza Encontra Alegria Finalmente".
E Enrico ficara fascinado.
	O que voc estava fazendo, Zano?  zombou o irmo. No  de seu feitio agarrar uma mulher desse jeito!
	Ela quase perdeu os sentidos quando ficou sabendo quem era  respondeu Rozzano pacientemente em italiano.  Eu estava tentando faz-la recobrar-se. Ficou chocada, acho eu e no  de se admirar.
	Mal posso esperar para conhec-la!  exclamou Enrico do outro lado da linha.  Pena que a foto deixou muito a  desejar. No pude v-la com clareza. Voc acha  acrescentou maliciosamente em palavras destinas a magoar  que eu me darei to bem com ela quanto me dava com Nicoletta?
Lvido, Rozzano cerrou os dentes para no se trair com nenhuma exploso de raiva e confirmar as suspeitas de seu irmo em relao a Sophia. Ansiou por poder amea-lo, por lhe dizer que se fizesse algum mal a Sophia, como fizera a Nicoletta, ele se arrependeria de ter nascido. Mas aquele tipo de reao s teria servido para instigar Enrico ainda mais.
	No alimente as suas esperanas. Ela no faz o seu tipo  mentiu ele, andando pela sala para dissipar parte da irritao.
	E ela  virgem?  perguntou Enrico, com um riso desdenhoso.
Ele esganaria o irmo algum dia!
	Como diabos vou saber? Ela  estranha. No sabe nada sobre etiqueta e suas roupas so deplorveis!  Odiou-se por ter que distorcer a verdade daquela maneira, mas queria fazer o irmo perder o interesse. Oua, preciso desligar  acrescentou depressa.  H algum batendo  porta. Falo com voc depois.
Rozzano tremia de raiva. Embora tivesse encerrado a ligao, mantinha o telefone celular ao ouvido, tentando evitar falar com Sophia por alguns momentos. Ainda no recobrara o controle sobre si mesmo.
Tinha que pensar em algo. Conhecia o irmo bem demais. Sabia que ele faria de tudo para seduzir Sophia na primeira oportunidade. As mulheres pareciam se deixar convencer por seu jeito de garotinho perdido. Por que com ela as coisas seriam diferentes?
Rozzano sabia que ele prprio deveria aproveitar qualquer chance para seduzi-la. Tinha que torn-la sua antes mesmo que chegassem a Veneza.
Teria que ser uma seduo rpida. Eficaz. Ele lanou um olhar para uma Sophia de ar ansioso e sentiu seu corao disparando.
CAPITULO IV

Era meu irmo, Enrico  explicou Rozzano, tenso, guardando o celular.  Ao que parece, somos notcia de primeira pgina em Veneza. E aqui tambm, eu no duvido. Minha assessoria de imprensa publicar uma nota desmentindo um relacionamento entre ns e ameaar entrar com um processo contra o jornal de l. Mas no posso fazer nada aqui, receio eu.
Sophia levou  mo aos lbios, contendo uma exclamao horrorizada. No poderia suportar o sensacionalismo que a imprensa causaria, ponderou ele.
Com uma expresso fechada no rosto, ligou para o servio de quarto e pediu a Tony que lhe levasse um exemplar de cada jornal. Quando o garom chegou, Rozzano entregou-lhe o aviso de "No Perturbe" para ser pendurado na porta.
Os tablides estampavam a foto de ambos na primeira pgina. Na linha de abordagem escolhida citavam manchetes do tipo: "O Prncipe e a Plebeia". O nome Cinderela foi citado algumas vezes. Ele ficou furioso com o fato de a secretria temporria de Frank ter divulgado a histria de Sophia. A jovem podia ser vista em vrias pginas centrais com um sorriso satisfeito no rosto, o corpo curvado para a frente, exibindo o decote.
	Surpreendente... Alguns dos fatos so verdadeiros  observou com cinismo.
	As mentiras esto misturadas com as verdades. Como algum pode separ-las?  queixou-se Sophia.
	 como eles agem  comentou Rozzano, num tom manso.
Ele leu os jornais.. Cada artigo referia-se  morte trgica de sua esposa, ao fato de ter estado grvida. Ele no queria pensar em nada daquilo. Era passado. E era melhor que ficasse esquecido. Ficou sentado ali, absorvendo cada palavra, feito um autmato.
De repente, temeu no ser capaz de conquistar Sophia. O tempo era curto demais. Falharia... e ela acabaria caindo nas garras de Enrico. Cobriu o rosto com as mos, incapaz de suportar a ideia de seu irmo magoando algum inocente como ela.
	Isto deve estar sendo terrvel para voc!  murmurou ela, aborrecida.  Todas essas coisas que publicaram sobre sua esposa...
Incapaz de falar ou de lidar com a raiva e a amargura em seu corao, Rozzano levantou-se e adiantou-se at a porta de comunicao, fazendo um gesto para pedir desculpas por sua sada abrupta.
	No suporto v-lo to infeliz!  Sophia se aproximou, tocando-lhe o ombro com gentileza, e Rozzano estremeceu, temendo perder o controle por completo e contar-lhe que o irmo era perverso, que se divertia magoando os outros. E talvez lhe dissesse que ela corria perigo se no aceitasse sua proteo...
	Perdoe-me. Eu no deveria toc-lo dessa maneira. Eu apenas... queria me desculpar.
	Desculpar-se? Voc?
	E por minha causa que tudo isso aconteceu. Nem posso imaginar como ... Voc est tendo que reviver uma tragdia. Eu sinto tanto.
	A culpa no  sua.
	De qualquer modo, eu me sinto responsvel. Voc tem sido bondoso comigo, estando sempre ao meu lado...  A voz de Sophia tremeu.  Mas acho que yoc deveria partir e me deixar dar uma entrevista coletiva  imprensa, ou algo assim. Isso desviaria a ateno de voc...
Lentamente, Rozzano se virou, tocado pela preocupao e a coragem dela, algo que amenizou sua raiva. Tomou-lhe o belo rosto entre as mos.
	Voc no tem realmente culpa de nada.  Desconcertou-o v-la com os olhos marejados. Era como se ela se importasse... Sentiu uma onda de emoo dominando-o e enrijeceu o maxilar para cont-la.  Voc  totalmente inocente. E receio que no faa ideia de onde est se metendo murmurou.
Antes que se desse conta do que fazia, ele beijou-lhe as lgrimas que lhe escorreram pelas faces. Viu-a estremecer, com prazer.
Sem poder resistir, roubou-lhe um beijo dos lbios entreabertos. E uma vez que comeou, nada pde det-lo. Beijou-a demoradamente, com sofreguido, buscando uma resposta e obteve-a. O corpo de Sophia moldava-se ao seu, as mos entrelaando-se em seus cabelos, mostrando-se to receptiva ao beijo que o excitou ainda mais.
A maciez dos lbios dela era incrvel, sua doura fazendo-o soltar um gemido abafado. Sophia inclinou a cabea, soltando os sedosos cabelos dos grampos. Rozzano suspirou de desejo e depositou-lhe beijos quentes e midos ao longo do pescoo.
Vagarosamente, conduziu-a em direo ao sof, beijo aps beijo, sentindo-lhe as curvas firmes da cintura e dos quadris sob as mos. Continuou beijando-a at que a deitou de encontro ao confortvel sof.
Viu a interrogao nos olhos cinzentos e beijou-lhe as plpebras com ternura. Com gentileza, afastou-lhe as alas do vestido, beijando-lhe a pele perfumada do colo.
Era dominado por um desejo primitivo, mas algo mais lhe acontecia; uma onda surpreendente de emoo preenchia-lhe o peito, tornando-lhe difcil respirar.
No parou para questionar aquilo. O fogo que o consumia levava-o a tomar-lhe os lbios com mais um beijo faminto, a tocar-lhe um dos seios cheios e bem-feitos com a mo.
Sophia conteve a respirao, mas no fez nenhuma tentativa para det-lo. Fitou-o com olhos semicerrados, inebriada pelo que estava acontecendo. No podia acreditar que Rozzano a achava atraente. Ou que quisesse beij-la, quanto mais... Um aviso ecoou em alguma parte de sua mente. Por qu?, dizia-lhe. Mas ignorou-o.
Os olhares de ambos se encontraram, e ela achou impossvel desviar o seu. Coisas extraordinrias lhe aconteciam. Sensaes maravilhosas tomavam conta de seu corpo, e todo o bom senso parecia ter-se esvado de sua mente. Tudo o que importava era que estava naqueles braos fortes e que Rozzano a fitava com um desejo to poderoso que a enchia de jbilo.
Abraou-o pelo pescoo. Curvou os lbios cheios num pequeno sorriso, um brilho de felicidade surgindo em seus olhos cinzentos. Sem se dar conta, puxou-o para si, at que seus corpos s moldassem sensualmente sobre o sof.
	Bellissima Sophia  sussurrou ele e tomou-lhe os lbios com um beijo arrebatador. Baixou-lhe, ento, um pouco a frente do vestido, acariciando-lhe as curvas dos seios. Os lbios seguiram as mos, provocando, seduzindo.
Ela retesou o corpo quando os lbios quentes tomaram seu mamilo e comearam a sug-lo demoradamente. Mal pde suportar a doce agonia, o prazer que se irradiava para todas as partes de seu corpo.
Ofegante, ele ergueu a cabea e, com impacincia, tentou soltar o n da gravata e abrir o primeiro boto da camisa.
	Ajude-me  pediu, num sussurro.
E, para sua surpresa, Sophia o fez. No demorou a correr as palmas avidamente pelo torso nu dele, acariciando os msculos bem-definidos, os ombros largos, deliciando-se com o con-tato de pele. Puxou-o para si de modo que seus mamilos rijos lhe roassem o peito musculoso.
Por qu?
Ficou tensa. No sabia. E Rozzano devia ter percebido sua hesitao porque se afastou ligeiramente, observando-a, o peito arfando, os lbios entreabertos, dor em seus olhos negros...
Claro. Uma inesperada onda de angstia dominou-a. Rozzano estivera perturbado por causa da falecida esposa. E ela estivera ali, disponvel, para ajud-lo a esquecer a dor. Um copo de conhaque tambm teria resolvido, pensou, magoada.
	Sophia?
Ela evitou-lhe o olhar perscrutador.
	Sinto muito. Acho que deveramos parar com isso, no? Logo viro limpar a sute e...
	No enquanto o aviso estiver na porta. Mas se  o que voc quer...  Rozzano levantou-se, vestindo a Camisa.
Embaraada e chocada com suas reaes, Sophia ajeitou o vestido e ergueu-se do sof, pousando os ps no cho. As pernas tremiam. E seu corpo inteiro estava excitado e faminto. Que grande tola fora, pensou, com amargura. Perguntou-se como, afinal, lidaria com a situao naquele instante.
	Sou eu quem lhe deve desculpas.  Ele tocou-lhe a face e ergueu-lhe o queixo para que o fitasse. Franziu o cenho quando lhe encontrou os olhos um tanto marejados.  Voc me perdoa?
Sophia engoliu em seco. A culpa no era apenas dele.
	 claro  murmurou e conseguiu abrir um sorriso trmulo, que ele beijou de lado a lado com gentileza. E ela precisou de todo o seu controle para no retribuir o beijo.
	Acho que voc tem razo, precisamos sair um pouco. Por que no vai arrumar os cabelos enquanto eu fao alguns planos para escaparmos? No se apresse. Eu precisarei de pelo menos meia hora.
Sophia meneou a cabea, aliviada, e refugiou-se em seu quarto, o corao aos saltos. Sabia que ainda queria Rozzano com todas as suas foras, mas o bom senso lhe dizia que ele nunca mais tornaria a toc-la.
Depois de prender os cabelos num coque severo e andar de l para c pelo quarto para tentar se acalmar, percebeu o som de vozes na sala de estar. Grata por qualquer coisa que a distrasse do turbilho em seu ntimo, respirou fundo e deixou o quarto.
	Ah, a est voc!  Rozzano tomou-lhe o brao com gentileza e conduziu-a pela sala, enquanto ela olhava  sua volta, boquiaberta.
A sala parecia apinhada de gente. Havia arranjos de flores por todos os lados e alguns homens e mulheres os distribuam ao redor, ajeitando-os impecavelmente.
Ainda confusa, ela deu um passo atrs e esbarrou numa pilha de caixas.
	Chapus  explicou Rozzano.
	Chapus?
	Sim, alm de sapatos e lingerie. Escolha as roupas que voc achar que lhe cairo bem. Pode ficar com o que desejar, ainda que essas coisas sejam destinadas  camuflagem.
	Mas...
Ele fez um gesto para duas mulheres com os braos repletos de caixas de sapatos.
	Confie em mim  disse-lhe.
Tudo ficou claro quando deixaram o hotel sorrateiramente uma hora depois. Ela usava o avental da manicure por cima do vestido e um bon de beisebol sobre o coque. Arranjos de flores preenchiam-lhe os braos, quase bloqueando-lhe a viso. Atrs de si seguia Rozzano, o rosto inconfundvel escondido pela pilha de caixas de sapatos que carregava.
Contendo o riso, ambos subiram na parte de trs do furgo da florista. Acomodaram-se entre arranjos de flores, enquanto o veculo seguia pela rua. Depois de algum tempo, ele gritou para que o motorista parasse e os deixasse sair.
	O que me diz disso?  perguntou a Sophia, com um ar satisfeito, ajudando-a a descer.
Sorrindo, ela tirou o avental e o bon, colocando-os no furgo. Rozzano fechou as portas, e o motorista afastou-se, tocando a buzina.
	Brilhante! Voc  um estrategista e tanto!
	Anos de prtica, minha cara.
Sophia ainda riu, divertida, mas algo lhe ocorreu:
	Est certo, ns despistamos os jornalistas e escapamos. Mas como voltaremos?
	No fao a menor ideia. Pensarei em algo. Nesse meio tempo, depois de termos providenciado o seu passaporte, por que no vamos passear pela cidade?  sugeriu ele, dando-lhe o brao.  Tony me disse que h um nibus de turismo que leva as pessoas a todos os pontos interessantes de Londres.
Pode-se descer em qualquer parte e depois tomar outro nibus para continuar o passeio...
	Voc, andando de nibus?
	Confesso que ser a primeira vez  admitiu Rozzano, com um sorriso um tanto constrangido.  Mas estou ansioso por isso.
Naquela noite,  mesa acolhedora de um pequeno restaurante em Mayfair, Sophia ponderava que aquele tinha sido um dos dias mais felizes de sua vida.
 Meus ps esto to doloridos que nunca mais sero os mesmos!  exclamou, com um riso.
Rozzano abriu um sorriso e ergueu-lhe seu copo num brinde.
	No  de admirar. Devemos ter caminhado quilmetros.  Afagou-lhe a face com ternura.  Nunca me diverti tanto, nem consegui me manter to annimo quanto hoje. Foi maravilhoso.
	E qual foi a sua parte favorita do dia?
	O passeio pelo rio, sem sombra de dvida.
Sophia adquiriu um ar sonhador. Ele a abraara, comentando que devia estar com frio. E uma vez a beijara calorosamente na face, dizendo que estivera se divertindo como nunca.
Beijando-lhe a mo, ele se desculpou da mesa, voltando alguns minutos depois.
	Est pronta para irmos embora?  murmurou.
	Depende. Se eu tiver que escalar a parede do hotel, vou precisar de uma corda e alguns ganchos.
Rozzano inclinou-se e beijou-a nos lbios, um brilho divertido no olhar ao notar-lhe o misto de surpresa e deleite.
	No ser preciso nada to drstico. Acabei de providenciar um esconderijo... um flat que aluguei para ns aqui por perto. Basta irmos para l e passarmos uma noite confortvel.
Ela ficou boquiaberta.
	Mas... nossas coisas esto no hotel!  protestou.
	Nossas malas esto sendo arrumadas neste minuto e, depois, sero levadas at o apartamento.  Rozzano conduziu-a do restaurante, abraando-a pelos ombros para proteg-la do ar fresco da noite.   por aqui. No fica longe. Ser melhor do que um hotel cercado pela imprensa, no acha?
	Mas  quase meia-noite! Como conseguiu alug-lo a esta hora?
	O gerente do hotel intercedeu por mim. Aqui estamos.
Haviam parado diante de um belo edifcio georgiano que dava para um pequeno parque. Subiram as escadas de mrmore da frente e ele tocou a campainha. Foram recebidos por uma mulher bonita, elegantemente vestida, que os conduziu a um enorme apartamento. O aluguel devia custar uma fortuna!, pensou Sophia.
	Coloquei alguns mantimentos bsicos na geladeira, conforme sua sugesto  disse a mulher, sorridente, ficando perto demais de Rozzano.
Detestando o jeito insinuante dela, Sophia fingiu indiferena e andou pela cozinha grande e impecvel para verificar a geladeira. Oh, sim, pensou. Mantimentos bsicos. Champanhe, caviar, faiso e morangos!
A campainha tocou, com a chegada da bagagem, e Rozzano desculpou-se, dizendo-lhe que ainda se deteria por alguns minutos na sala com a funcionria do servio de flat para assinar os documentos.
	Ficaremos a ss logo  prometeu a Sophia.
O que Rozzano quisera dizer com aquilo? Enquanto voltava  sala de estar, ele ainda se virou e lhe dirigiu um olhar sugestivo que a deixou nervosa. No poderia estar pensando em... No! Era impossvel!
Sophia respirou fundo algumas vezes e decidiu que precisava de algo para distra-la dos pensamentos inquietantes. Deixando a cozinha, aguardou enquanto sua mala era colocada num dos grandes quartos com cama de casal. A camareira que levara a bagagem insistiu em arrum-la para ela.
Sophia ficou perplexa em ver que as roupas de grife, sapatos e bela lingerie tinham sido includos por engano em sua bagagem. Teria que conversar com Rozzano quele respeito, pensou, desconfortvel.
A camareira do servio de flat saiu. Ainda se sentindo inquieta quanto s intenes de Rozzano, Sophia retornou  sala e abriu ligeiramente as cortinas de brocado para observar o pequeno parque do outro lado da rua. Tpico de um dos quarteires gergianos de Londres, parecia misterioso e mgico sob a luz das antigas lmpadas de rua.
A porta da frente se fechou, o murmrio de vozes se dissipando. Permanecendo junto  janela, Sophia ouviu os passos de Rozzano se aproximando, uma sbita tenso dominando-a.
Estaria determinado a retomar o que haviam parado? Ela gelou, temendo que ele esperasse terminarem o dia com uma aventura na cama. Embora o desejasse secretamente, seus princpios eram arraigados demais para se envolver em sexo sem importncia.
Diria que estava cansada, indisposta, ou algo assim.
Mas... Franziu o cenho. Por que Rozzano se mostrara to atencioso? Era um homem que poderia ter a mulher que quisesse. Era impossvel que estivesse interessado nela.
Sophia sentiu um aperto no peito. Devia haver alguma outra razo. Durante o passeio pelo rio Tamisa, ele lhe dissera que algumas pessoas ricas ficavam facilmente entediadas. Buscavam, acrescentara, observando-a com ateno, algo ou algum para diverti-las.
Um calafrio percorreu a espinha dela. Achou que o prncipe estivera tentando avis-la... Talvez a estivera preparando e fazendo-a dar-se conta de que no significava nada para ele, de que era apenas uma diverso.
Uma onda de desapontamento dominou-a, seu respeito por Rozzano ficando abalado. Um dia maravilhoso seria arruinado, uma amizade se desintegraria. E ento percebeu quanto estivera contando com ele para ajud-la a enfrentar a semana seguinte.
Ficou imvel quando sentiu a mo forte afastando seus cabelos, os lbios quentes beijando-lhe a nuca.
	Eu menti quando lhe disse que o passeio pelo rio tinha sido a parte favorita do meu dia  sussurrou-lhe ele ao ouvido.
Travando uma batalha contra as deliciosas sensaes que comeavam a percorrer seu corpo, Sophia respirou fundo e emitiu um gemido em protesto s liberdades que ele tomava.
	O melhor de tudo  prosseguiu Rozzano, virando-a para si devagar  foi estar com voc. Toc-la. Abra-la.  Os olhos negros brilharam com intensidade antes de adquirirem seu ar indecifrvel outra vez.  Se eu no tomar cuidado  resmungou de leve , acabarei me apaixonando por voc.
Beijou-a nos lbios voluptuosamente, contendo-lhe uma exclamao surpresa. O beijo se prolongou, carregado de erotismo. Sophia soube, para sua consternao, que estava irremediavelmente atrada por aquele homem e que, mais do que qualquer coisa no mundo, queria v-lo apaixonado. Por outro lado, tinha certeza de que se arrependeria de seu desejo... e de qualquer rendio que pudesse oferecer.
	Boa noite, minha querida  sussurrou Rozzano de encontro a seus lbios e, antes que ela pudesse despertar de seu torpor, deixou-a.
Durante os poucos dias que se seguiram, ele a fez esquecer suas dvidas a cada vez que a tocou. Sophia sabia que estava sendo tola, mas no conseguia evitar suas reaes.
Juntos durante cada maravilhoso segundo do dia comportavam-se feito enamorados, rindo, conversando ou apenas desfrutando em silncio a companhia um do outro. Mas,  noite, cada um ia para seu quarto aps longos abraos que a deixavam sentindo-se vazia, frustrada e zangada.
Enquanto caminhavam de volta ao flat numa tarde, depois de terem passeado um pouco mais pela bela Londres, Sophia manteve-se silenciosa. Sabia que estava se apaixonando. O problema era que tinha cincia de que, no fundo, ele no levava o relacionamento de ambos a srio. S podia ser um passatempo, um que descreveria aos amigos, e ela, por sua vez, acabaria saindo magoada.
No momento em que dobraram uma esquina, depararam com um batalho de reprteres e fotgrafos.
Eles nos encontraram!  exclamou ela, aflita.
Rozzano abraou-a de maneira protetora enquanto tentava
abrir caminho pela multido. Flashes espocaram, e os reprteres cobriram-nos de perguntas, importunando-os com seus persistentes microfones.
	Deixem-nos em paz!
	Sophia! Olhe para c! Sophia!
	Vocs dois esto vivendo juntos?
Ela se sentiu sufocada e bastante assustada em meio quele tumulto. Estranhos gritavam seu nome, puxando-a, acotovelando-a, tentando chamar-lhe a ateno, at que um furioso Rozzano finalmente conseguiu lev-la para a segurana do edifcio.
No interior do apartamento e frustrada com sua vulnerabilidade diante de tudo aquilo, Sophia deixou que ele a carregasse at sua cama e a reanimasse com um copo de conhaque.
	Foi como um bando de ces ferozes caando um cervo  disse, horrorizada.
Da cadeira que puxara para perto da cabeceira da cama, Rozzano estendeu a mo para afagar-lhe a face.
	Sinto muito.
	A culpa no  sua. Mas foi horrvel. Nunca mais quero passar por isso!
	Eu sei. No podemos continuar assim. Isto tem que terminar.
Terminar! Sophia foi tomada por uma onda de angstia.
Queria segur-lo com fora e pedir-lhe que nunca a deixasse, mas conseguiu se conter. Aquele era o fim.
	Sim  apenas murmurou.
	timo. Providenciarei para que viajemos para Veneza amanh.
Surpresa, ela baixou o olhar. Rozzano queria continuar com aquilo, ento, desfrutar a novidade de ver sua cidade atravs dos olhos dela. No. No o deixaria encoraj-la a servir-lhe de diverso para depois ser descartada quando ele se cansasse de suas maneiras provincianas!
	V voc  disse-lhe, com dignidade.  Eu decidi...  O discurso comeou bem, mas as palavras morreram-lhe na garganta. Sentando-se na cama, respirou fundo, seu rosto muito plido. Mas obrigou-se a dizer o que precisava ser dito:  Acho que cada um de ns deve seguir seu caminho.
	O qu?
	No h razo para eu ficar em Londres agora que a imprensa sabe onde estamos.
	No!  objetou Rozzano, empalidecendo.
	 a soluo mais sensata. Vou voltar para casa. Irei a Veneza quando me sentir preparada...
	Voc no pode ir embora!  exclamou ele com tamanha veemncia que a surpreendeu. Ento, sacudiu a cabea, como se quisesse desanuvi-la... como se tambm tivesse ficado atnito com o que dissera. Ela o fitou fixamente, incapaz de com preender o sofrimento naqueles olhos negros.
	O que quer dizer?  murmurou.
	E perfeitamente simples! Eu no quero me separar de voc!  A voz dele soou carregada de emoo, como se tivesse levado um golpe fsico. Pela primeira vez, ela comeou a acreditar que Rozzano lhe nutria forte afeio e foi tomada por uma onda de esperana e uma perigosa alegria.
Ele sentou-se na cama e puxou-a para si, urgncia e determinao em cada trao de seu rosto.
	Quero voc! No. No diga nada. No precisamos de palavras.
	Mas ns mal nos conhecemos. No  possvel que voc tenha tanta certeza de que quer estaF comigo!
	Sei que no !  loucura. Mas  como eu me sinto!
Rozzano tomou-lhe os lbios com impetuosidade, ao mesmo tempo que a afundava na maciez do colcho com seu corpo ardente, minando-lhe a resistncia. No havia nada que ela pudesse fazer para det-lo; toda a sua fora de vontade se esvara diante da desenfreada paixo dele, do desejo primitivo em seus olhos, em seu corpo, nas mos que comeavam a acarici-la!
Seus corpos se entrelaaram, os lbios trocando beijos repletos de volpia. Rozzano murmurou que jamais a magoaria porque gostava dela. Respeitava seus valores, admirava-lhe os princpios. Achava-a bonita, espirituosa, adorvel, inteligente... As palavras acabaram de vencer as barreiras de Sophia, porque se sentia da mesma maneira a respeito dele.
Como podia resistir? Estivera perto de perd-lo e seu nico instinto era o de beij-lo com arrebatamento, de moldar-se a seu corpo febril.
Inebriada agora, no emitiu nenhum protesto quando ele comeou a retirar suas roupas lentamente. Quando lhe tocou a pele nua, correndo as mos com vagar pelas curvas de seu corpo, a expresso de doce agonia dele foi como um blsamo para seus sentidos.
Sophia estava nua, os lbios e mos de Rozzano deixando-a em brasa. Deslizou as mos fortes at a parte interna de sua coxa, acariciando-a com intimidade.
Ela soltou um gemido abafado, seu corpo tomado por inesperado prazer.
	No...  protestou debilmente.
Mas Rozzano intensificou as carcias, desvendando-lhe os segredos, fazendo com que ela agarrasse os lenis, retorcendo-se de prazer. De repente, nada mais importava a no ser as sensaes que a dominavam, a satisfao de um desejo havia muito contido. Gritando o nome dele, implorando para que no parasse, abraou-o com fora, deliciada, adorando-o, querendo que a amasse.
O problema era que Rozzano no lhe dissera aquelas palavras que ansiava por ouvir.
No houvera nenhum tipo de compromisso. Claro que no houvera. E daquela maneira o sexo estava fora de questo.
Com um gemido desesperado, afastou-o de si, ainda que seu. corpo protestasse por faz-lo.
	Espere! No!  exclamou, tentando sentar-se.
	Por favor  pediu-lhe Rozzano, com um olhar torturado.  Voc no pode...
	Eu posso!  retrucou Sophia, querendo desvencilhar-se, batendo-lhe no peito forte.  Por favor, eu...
Lgrimas de frustrao encheram-lhe os olhos. Como lhe dizer que s poderia partilhar de verdadeira intimidade com o homem que fosse seu marido? No se mencionava a palavra "marido" alguns dias depois de se ter conhecido um homem, pensou histericamente.
	Cus!  protestou Rozzano, ainda abraando-a.  Voc no entende? Eu quero voc...
	E eu quero voc tambm! Mas isso no  o bastante para mim!  soluou Sophia.  Solte-me! Lamento no t-lo inter rompido antes, mas...
	Voc no me deixou terminar!
Ele afrouxou a presso de seus braos, mas manteve-a deitada a seu lado. Estava ofegante, o desejo ainda se evidenciando em sua voz.
	Voc no deve terminar.
	O que eu quis dizer  que voc no me deixou terminar o que eu tinha a falar.
	No vai conseguir me persuadir! Eu... eu no concordo com sexo antes do casamento.
 Mas nunca pretendi ir to longe  assegurou-lhe ele, num tom grave.  Por um momento eu me esqueci de quem voc era, do que eu estava fazendo... de tudo. No sei onde eu estava. No Paraso, acho eu. Perdoe-me. Eu... perdi o controle.
	Explique-me a maneira como me encara. No estou acostumada a flertar... nem a intimidades. Voc pode achar normal seduzir uma mulher aps alguns jantares, mas...
	No, no acho. No  o meu estilo. Voc  a primeira mulher que...  Ele baixou o olhar e levou alguns momentos para se recompor antes de poder fit-la novamente.  Estou surpreso com o que me aconteceu. Ns nos conhecemos h pouco tempo, mas tem sido uma experincia incrivelmente intensa para mim...
	Eu sinto a mesma coisa  admitiu Sophia, reunindo a coragem para ater-se  sua deciso qualquer que fosse o rumo da conversa.
	Voc causou um impacto tremendo em mim. Nunca conheci ningum como voc... nunca soube que uma mulher podia ser to perfeita, to especial.
Sophia manteve a rigidez de seu corpo. Eram meras palavras, pensou. Nada mais.
	Durante os ltimos dias  como se voc tivesse me trazido de volta  vida, minha querida. At que a conheci, eu estava mergulhado em minha dor. Em princpio voc me fez rir, fez com que eu me descontrasse. E depois...
	Depois?
	Depois eu soube que algo especial estava acontecendo entre ns  revelou ele com contida paixo.  Estes dias tm sido maravilhosos. Jamais quero que terminem.
Sophia fechou os olhos, um aperto no peito, enquanto lutava para no sucumbir. Era sexo, no amor que ele queria.
Sentiu os beijos clidos em seu pescoo, cada um como uma fisgada em seu corao.
	V para Veneza comigo amanh. Como minha noiva. Quero que seja minha esposa. Quer se casar comigo?
Ela no conseguiu encontrar a voz. Era a ltima coisa que esperara.
	Responda-me. No me deixe neste suspense! Eu preciso saber agora. Do contrrio, farei amor to loucamente com voc que no saber o que est dizendo e eu a obrigarei a dizer sim!
	Eu... Por qu?
	Por que voc acha?  perguntou Rozzano, numa voz rouca, abraando-a pelos ombros.  Estou louco por voc. Acordo a cada dia com um sorriso no rosto porque sei que estaremos juntos. Voc mesma deve ter-se dado conta de como eu me sinto! Olho para voc o tempo todo, sinto-me impelido a toc-la...
	Achei que voc se comportasse assim com todas as mulheres.
	No. Quero estar com voc o tempo todo. Saber que a cada dia voc estar a meu lado. Quero que partilhemos nossas vidas. J pensei sobre isto. No  uma deciso de momento. Meu sonho  o de nos casarmos, termos filhos, envelhecermos juntos.
	Filhos!  exclamou Sophia, comeando a sucumbir. Teria filhos, os filhos de Rozzano! E comeara a achar que jamais seguraria um beb seu no colo, que no conseguiria ser me!
Seus olhos ficaram marejados.
	E ento? Voc tem trinta segundos para responder. Sim ou no?
	Eu preciso de tempo!
	No posso lhe dar nenhum. No v como estou ansioso? Decida com o seu corao, no com sua mente.
Ela tentou ordenar os pensamentos. Ponderou sobre os riscos que estaria correndo se aceitasse. E, se recusasse, havia o risco de se arrepender de sua deciso pelo resto da vida.
De repente, no houve mais dvida. Amava Rozzano e a ideia de ter seus filhos a fez querer chorar de felicidade.
Quando o fitou, seus olhos brilharam apaixonadamente. Pousou a cabea no peito dele, sentindo-lhe o pulsar acelerado do corao. Surpresa em conseguir afet-lo daquela maneira, ergueu o rosto para tornar a fit-lo.
	Fique comigo  sussurrou Rozzano, rando-lhe os lbios com os seus.  Seja minha esposa. Me dos meus filhos.
Estudando-o, ela viu que ele estava tomado por profunda emoo. Tocada, acariciou-lhe o rosto ansioso e abriu um sorriso terno.
	Sim  disse-lhe, finalmente.  Sim.
CAPITULO V

No avio particular para Veneza, Sophia usou um de seus vestidos novos de grife famosa; simples, discreto e charmoso. Na mo esquerda, teria usado um diamante enorme, do mesmo azul etreo do vestido, incrustado num valioso anel de platina.
Rozzano, porm, sugerira, quando o haviam escolhido, que seria mais sensato se ela o mantivesse na bolsa para o caso de haver alguma ateno da mdia. E Sophia vira imediatamente quanto aquilo fora prudente. Mas no podia se conter e lanava olhares ocasionais para o anel de noivado!
Surpresa e imensamente feliz, deixara que Rozzano tomasse todas as providncias para a viagem. Sabia que fora loucura aceitar a proposta dele e qu estivera tomado pelo desejo, sem dvida, quando a pedira em casamento. Mas doze horas depois ainda parecia interessado.
	Agora descanse  sussurrou Rozzano, mergulhando um morango no champanhe e levando-o aos lbios dela.  Temos trs semanas para cuidar de todos os preparativos para o nosso casamento. Vamos comear com as damas de honra...
	Rozzano!  gritou Sophia, horrorizada.  No podemos nos casar to depressa!  loucura! No nos conhecemos direito. No, por favor, oua o que estou lhe dizendo!  insistiu quando o viu fazendo meno de protestar.  O casamento  algo importante demais para no se levar a srio. Um prazo de seis meses seria mais razovel...
	Razovel? E quem quer ser razovel?
Um brilho passou pelos olhos dele antes de baixar as plpebras. Mas ela vira o rpido ar de aborrecimento em seu olhar e o contorno obstinado do queixo. No gostava de ser contrariado, pensou, apreensiva.
	O casamento  para sempre. Seria terrvel se comets semos um erro...
	Voc estar se casando com um homem maluco at l. Sou de carne e osso! No sabe como est sendo difcil eu me conter.
	Voc... no  o nico que sente... desejo  confessou Sophia, com coragem, corando enquanto falava. Mas queria deix-lo saber que o amava o bastante para confiar nele. Ns poderamos... Por favor, ajude-me nisso! Sabe o que estou tentando dizer!
	Quer dizer que... poderamos aplacar o desejo um do outro?
	S-Sim...
Rozzano fechou os olhos com ar torturado e soltou um longo suspiro.
	Quatro semanas, ento!  concedeu.  No pode me pedir para esperar mais! Queremos estar juntos, no ?
	Ns estaremos...
	Quero dizer como marido e esposa. No mais amplo sentido. Conhece a fora dos meus sentimentos. No pode duvidar deles. E pense no seu av. Ele gostaria de viver para ver seu bisneto. Pelo bem de Alberto, no devemos esperar demais.
Aqueles argumentos eram convincentes o bastante, ponderou ela. Queria Rozzano com um assustador anseio. E tinha de admitir que seria maravilhoso para Alberto D'Antiga presenciar o nascimento de um bisneto. Seu corao se enterneceu. Naquela poca no ano seguinte j poderia ser me.
	Assim, vamos fazer bebs o mais rpido que pudermos  murmurou-lhe Rozzano maliciosamente ao ouvido.
	No  justo!
Rozzano beijou-a nos lbios e, ento, fitou-a nos olhos com intensidade.
	Quatro semanas.
	Est certo. Quatro semanas.
	 maravilhoso! Seremos um casal perfeito, querida. Eu sei que sim. E agora  melhor comearmos a planejar o casamento da dcada! Diga-me quais so seus sonhos, e eu realizarei todos.
- Tudo o que eu preciso  de um homem que me ame e me d filhos  declarou ela simplesmente. Viu um brilho de dor passando-lhe pelos olhos negros e tocou-lhe a mo num gesto terno e compreensivo.  O que foi? Est pensando no seu filho que no chegou a nascer?
Rozzano recostou-se na poltrona do avio e fechou os olhos com fora.
	Eu estava pensando que no poderia suportar se algo estragasse a nossa felicidade  respondeu num tom to sombrio que foi inevitvel para ela sentir certo temor percorrendo-a.
Nervosa, Sophia piscou sob o sol forte quando desembarcaram em Veneza. Um homem num uniforme branco logo se adiantou para receb-los, saudando Rozzano com entusiasmo.
	Este  Mrio  explicou ele.   o encarregado das lanchas da famlia.
Lanchas!, pensou ela, enquanto Rozzano apontava para uma luxuosa embarcao.
	Buon giorno, contessa. E uma satisfao saud-la.
Sophia sorriu, escondendo sua surpresa em terem se dirigido a ela por seu ttulo. Duvidava que se acostumaria. Retribuiu o cumprimento de Mrio, deliciada em saber que estariam chegando de barco.
Mas tambm estava nervosa com a perspectiva de conhecer o av. Sua mo tremeu enquanto Rozzano a ajudou a subir na lancha. Esperou que ele se sentasse a seu lado e a abraasse para tranqiliz-la, mas, como no o fizesse, tentou no se importar.
	Atravessaremos a laguna  explicou ele, sentado  sua frente, enquanto a lancha avanava.  Voc ter uma vista fantstica de Veneza, elevando-se da gua.
Ela meneou a cabea e ocultou o tremor nos lbios, viran-do-se para olhar ao redor.
	Olhe. Est vendo os bricoli... aquelas imensas colunas na gua? Marcam as passagens de guas profundas atravs da laguna para o mar. E ali est Torcello, a ilha onde seus ancestrais e os meus se estabeleceram.
Sophia tornou a assentir com um gesto de cabea, sua mente ficando subitamente cheia de ansiedade e preocupaes. Fora um erro se comprometer to depressa, pensou. Sabia daquilo agora. Ainda no podiam ter certeza do amor um do outro.
Rozzano falara de seus sentimentos com grande eloquncia. Mas mencionara a palavra amor? Ela no podia se lembrar... seus pensamentos tinham estado num turbilho e no pudera se concentrar em tudo que ouvira. Talvez ele tivesse dito que a amava. Mostrara-se bastante sincero e determinado. Por que a teria pedido em casamento se no a amasse?
Apesar de toda aquela argumentao consigo mesma, no conseguia afastar as incertezas. Apenas vagamente dava-se conta da beleza da laguna reluzente, das ilhotas com rosas e trepadeiras floridas esparramando-se por paredes antigas de tijolos.
E logo pde ver a ilha de Veneza propriamente dita, elevando-se sobre as guas lmpidas, belas torres e cpulas revestidas de mrmore delineando-se de encontro ao cu azul.
	Veneza  chamada de La Serenssima  contou-lhe Rozzano, orgulhoso.
Inesperadas lgrimas de emoo afloraram nos olhos de So-phia. Pretendendo partilhar o que sentia, virou-se para fit-lo. Ele olhava para a cidade que amava e parecia extremamente contente por ter voltado para casa.
Pela primeira vez, ela comeou a compreender plenamente o que era pertencer a uma famlia que ocupava um pedao de terra havia sculos. Preservar a linhagem de tal famlia seria quase um dever. No era de admirar que a atitude de sua me contrariara tanto os D'Antiga.
E agora ela prpria era parte daquela antiga dinastia... e estaria ajudando a preserv-la. Esforando-se para afastar o nervosismo, inclinou-se para a frente, estudando tudo com intensidade, ansiosa por aprender algo sobre suas razes.
	Diga-me o que estou vendo  pediu, interessada.
	Estamos nos aproximando da Baslica de So Marcos.
V aquela ponte l adiante, bem acima do canal estreito?  a ponte dos Suspiros...
	Eu me lembro.  a ponte entre o Palcio dos Doges, ou dos "duques", e a priso.
	Ela foi completamente fechada para que os prisioneiros no pudessem saltar por sobre o parapeito e escapar  explicou ele e abriu um sorriso irnico.  Porm, as janelas lhes permitiam uma ltima e tentadora vista da cidade, o mundo externo... e a liberdade. Da o seu nome.
	Algo cruel.
Os olhos negros adquiriram um ar distante.
Uma parte dessa crueldade ainda permanece em alguns de ns.
As palavras soaram carregadas de amargura. Perplexa, ela o observou, notando que o rosto msculo parecia esculpido em granito de repente. Sim, pensou, tomada pelas dvidas, desconfiava que aquele homem poderia explodir em violenta fria se provocado. Engoliu em seco, sentindo-se subitamente apreensiva e incerta sobre ele.
No, disse a si mesma. Rozzano a amava. No a magoaria. Mas a tenso persistia, um medo inexplicvel teimando em assol-la.
Mas Rozzano agora a fitava com gentileza, contando-lhe mais sobre a cidade e comentando como ansiava pelo dia em que a levaria para conhecer a Baslica de So Marcos e seus antigos tesouros. Nada estava errado, pensou ela, mais tranquila. Deixava-se levar por sua tola imaginao.
	Pode-se levar uma vida inteira para se conhecer os tesouros desta cidade  prosseguia ele. Um brilho maroto passou pelos olhos negros enquanto se curvou para murmurar-lhe:  Essa  a minha inteno com voc.
O corao de Sophia voltou a se alegrar. De bom grado afastou as incertezas e abriu um sorriso.
	Comporte-se!  sussurrou.  E continue com suas explicaes, ou pegarei uma carona num barco de turismo.
	Vocs, ingleses, no tm corao!  protestou ele, com um suspiro teatral.  Est bem, eu me rendo. Para dizer o bvio, estamos chegando ao Canalazzo... o Grande Canal. Observe-o e fique encantada.
. E Sophia ficou. Nada a preparara para as imagens que iam se descortinando diante de seus olhos. Enquanto entravam no amplo canal, tornaram-se parte da verdadeira procisso de lanchas e gndolas, pequenas balsas e barcaas que deslizavam pelas guas. E ladeando o canal, erguiam-se os palcios, cada um diferente do outro e formando um pano de fundo mgico para o movimentado cenrio.
	Aquele  o Ca' Barbarigo, do sculo dezessete. O Ca' Dario, com uma fachada do sculo quinze num prdio gtico mais antigo, o Ca' Grande, do sculo dezesseis...
A cabea de Sophia girava enquanto Rozzano enumerava os palcios num tom reverente e orgulhoso, quase como se lhe pertencessem. Comeou a se dar conta pela primeira vez da enormidade do que estava lhe acontecendo e de como precisaria do aconselhamento dele.
	Eu poderia olhar para este cenrio pelo resto de minha vida e nunca me cansar  comentou, impressionada.
	Acho que isso poderia ser providenciado!  gracejou ele. 	E... ah... o que acha deste palazzo?  perguntou, apontando para uma construo.
Era majestosa, adornada por mrmores bicolores, elevando-se com seus cinco andares acima do canal, exibindo uma dezena de colunas listradas de azul e branco. Acima de um amplo prtico na fachada, havia delicados balces de pedra com pilares circundando janelas altas e em arco.
	 fabuloso!
	Fico contente que pense assim.  A voz dele tremeu ligeiramente, seu olhar sorridente ainda fixo na construo para onde a lancha seguia.  Este tem sido o meu lar durante os ltimos cinco anos.
	Agora eu entendo a sua ansiedade para voltar ao seu palazzo.  magnfico!
Rozzano abriu um sorriso enigmtico, enquanto a lancha parava no ancoradouro.
	 aqui que vamos descer?  perguntou Sophia.  Caminharemos at o palcio D'Antiga?
Sentiu-se um tanto desapontada. Teria sido maravilhoso se a casa de seu av tambm tivesse se situado no Grande Canal, mas, ao que parecia, devia ficar no labirinto de becos e canais alm.
	Apenas o palcio dos Doges  chamado de palazzo. Todos os demais so denominados "casas". E este em particular  disse ele, ajudando-a a descer da lancha   chamado de Ca' D'Antiga.
Ela se virou, surpresa pela emoo na voz dele quando se referia ao palcio. E ainda assim no lhe pertencia. Era do av dela... e um dia seria seu. Estremeceu apesar do calor do sol. Algo tornou a inquiet-la, um pensamento terrvel, traioeiro que no permitiu vir  tona.
	Mas... voc no tem uma casa sua?  perguntou, hesitante.
	Sim  confirmou Rozzano, parecendo um tanto tenso. 	Eu possuo o Ca' Barsini. Fica um pouco mais longe, perto da ponte Rialto.
	Por que voc no mora l?
	Porque  onde vivem meu irmo, sua esposa e filhos. L, Enrico pode dar suas festas  vontade, E um tipo bastante socivel  declarou ele, com falso entusiasmo. Vendo-a franzir o cenho com um ar de interrogao, acrescentou, relutante:  Enrico precisa ficar longe da minha sombra. Irmos mais velhos podem ser difceis de conviver.  importante que ele tenha sua prpria vida. Fiz desta a minha casa porque seu av gosta qu eu fique por perto. Somos muito amigos.
	Voc obviamente tem-lhe sido devotado.
Mas por qu?, perguntou-se Sophia. E estava determinada a descobrir.
	Vamos entrar?
	Espere um minuto!  Ela procurou o anel de noivado na bolsa e colocou-o no dedo.  A imprensa no vai nos importunar dentro de casa  acrescentou, examinando o anel com um sorriso satisfeito. Era o smbolo do comprometimento de Rozzano.
	Oua, eu...  comeou ele, tenso.
	O que foi?  indagou Sophia, com inevitvel apreenso.
	Acho que... o sbito anncio de nosso noivado pode ser um pouco demais para o seu av.
Sophia sentiu-se gelando. Todas as suas dvidas se materializaram. Ele queria manter o noivado em segredo, pensou, a insegurana levando-a a temer que aquele fosse at um meio de Rozzano encerr-lo gradativamente. Estaria arrependido de sua proposta impulsiva?
Mas comprara-lhe um anel valioso, argumentou consigo mesma. Por que a teria pedido em casamento para voltar atrs logo em seguida? No ganharia nada com aquilo. Ainda assim...
Sua cabea comeou a latejar. Por que estava suspeitando de Rozzano daquela maneira absurda? Ela o amava! Devia confiar nele plenamente.O que sugere que faamos?  obrigou-se a perguntar.
	Devemos manter o noivado em segredo por enquanto. Sei o que estou pedindo, mas voc deve entender o meu ponto de vista. Ele  emocionalmente frgil. A sua chegada ser tudo com o que poder lidar por ora. Por favor, compreenda. Gosto muito de seu av. Ele tem me tratado como um filho. Vamos esperar at que esteja preparado.
 No faz muito tempo e ns amos nos casar s pressas por causa dele.
	E vamos, querida! Mas  melhor darmos um passo de cada vez no que se refere a ele...
	Voc tem vergonha de mim?  Havia- um ar acusador nos olhos cinzentos.
	No!
Apesar de obviamente zangado com tal sugesto, ele ainda buscava palavras para se explicar. "Diga-me que voc me ama", suplicou ela em pensamentos. "Tranquilize-me".
	D-lhe uma semana, dez dias no mximo para que ele j tenha lidado com a emoo de conhecer voc. No ser fcil para seu av. Imagino que o fato de v-la lhe trar de volta algumas lembranas dolorosas de sua me.
	Suponho que sim.
	No precisa fazer nenhuma diferena para ns. Podemos cuidar de todos os preparativos e, ento, contar-lhe com calma.
Ao menos ele ainda falava em cuidar dos preparativos para o casamento, pensou Sophia, relaxando ligeiramente.
	Ele no aprovar nosso casamento?
	Ao contrrio. Ficar exultante. Vamos apenas lhe dar algum tempo. O que temo  que a emoo seja forte demais para ele.
Como ela poderia recusar? Pareceria egosmo. Mas no gostava da ideia, mesmo que fizesse sentido. Seu lbio inferior tremeu quando retirou o anel e o guardou. Talvez fosse tola superstio, mas sem o anel sentia-se novamente insegura. De qualquer modo, no iria contrari-lo. A sade de seu av era importante demais. De repente, deu-se conta de que seu relacionamento com Rozzano daria certo ou no independentemente do fato de estar ou no usando o anel.
Queria que ele a beijasse e dissesse que tudo ficaria bem, mas apenas conduziu-a pelo imponente prtico, levando-a a um amplo vestbulo revestido de mrmore.
	Prncipe!
	Flvia.  Todo sorrisos, Rozzano abraou uma mulher de meia-idade num uniforme cinza. Sophia, ento, foi apresentada.  Flvia me conhece desde que nasci  explicou, enquanto as duas trocavam um aperto de mo caloroso.  A me dela era a cozinheira de meu pai. No fique surpresa se Flvia resolver lhe dar conselhos. Nossas famlias so to unidas que ela tem uma sbia opinio sobre tudo que fazemos... e s vezes me trata feito um impulsivo irmo mais novo!
Sophia abriu um leve sorriso, enquanto ele tornava a falar com a empregada. Depois virou-se para fit-la.
	Vamos subir at o salo principal  sugeriu.  Esperaremos l. Pedi a Flvia para dizer ao seu av que j chegamos.
Parecendo totalmente  vontade naquele ambiente, conduziu-a por uma grande e reluzente escadaria. Sophia engoliu em seco, intimidada pelas imensas pinturas a leo de homens e mulheres de ar altivo que deviam ser seus ancestrais.
Aquela- era uma situao difcil de lidar, fazendo-a hesitar, ansiar por sair dali correndo. Mas Rozzano afagou-lhe a mo, e fitou-o, grata por sua compreenso.
No instante seguinte, porm, descobriu por que a acariciava. No era por simpatia.
	Eu sei que no deveria estar tocando voc e isso torna a situao bastante excitante  disse-lhe ele, com um sorriso sugestivo.  Temos que fingir que somos meros conhecidos quando as pessoas estiverem por perto. Droga! Enlouquecerei de frustrao! Esperarei ansioso pela noite, quando poderei me esgueirar at seu quarto, onde faremos amor at o amanhecer.  A voz aveludada e sensual reverberou pelo corpo dela, evocando promessas que a fizeram vibrar a despeito de suas incertezas.  Pense bem. Ser divertido.
Divertido... Sophia tornou a ficar em alerta. Aquilo era um jogo para ele! Um jogo delicioso e proibido... como os que os homens faziam com suas amantes quando as esposas no estavam por perto.
Sentiu um aperto no corao. Rozzano teria satisfao sexual sem responsabilidade. E a cada dia ela teria que fingir que no sentia nada, que eram meros "conhecidos". No, pensou, determinada.
	Eu no posso... eu me recuso a viver uma mentira. No fazia ideia de que voc queria que eu fingisse que mal o conheo.
	No estou pedindo a voc que minta, apenas que contenha seus sentimentos. Ambos j nos vimos obrigados a esse tipo de coisa antes. Voc tem feito isso sua vida inteira  retrucou ele, com uma sbita aspereza que destoou do costumeiro tom aveludado de sua voz.
		Mas no quero fazer mais isso!  argumentou ela, zangada.  Quero ser o que sou! Demonstrar emoo quando a sinto, rir, cantar e chorar...
A voz morreu-lhe na garganta. Queria demonstrar seu amor por ele, no escond-lo como se fosse algo vergonhoso.
Mas uma forte obstinao brilhava nos indecifrveis olhos negros.
	Entendo. S que tenho minhas razes para lhe pedir que aja assim. Boas razes. Voc no pode demonstrar que gosta de mim! Prometa-me.
Sophia parou no alto da escada, perplexa com tamanha veemncia. Cus, pensou, tudo estava dando errado. Teria cometido um engano terrvel? Talvez houvesse alguma razo oculta para ele t-la pedido em casamento to s pressas!
Sentiu as pernas fraquejando, mas o orgulho a manteve de p. At que soubesse o que havia por trs daquela proposta, ofereceria resistncia a qualquer tentativa dele de apress-la ao casamento. Se era mesmo aquela sua verdadeira inteno.
Sentiu uma forte opresso no peito, mas teve apenas a si mesma para culpar. Estivera pronta demais a acreditar nele, ansiosa demais pelo futuro perfeito, romntico que lhe descrevera. Mas no mais.
Zangada e magoada, cerrou os dentes e obrigou-se a sorrir.
	No demonstrarei nenhum sinal de afeio em pblico. Pode ter certeza disso.
	Excelente!
Rozzano exibia mais uma vez o seu sorriso estonteante. Fazia-o agora que julgara ter conseguido as coisas  sua maneira. Ento, precisava ser dominador. Sophia ergueu o queixo, enquanto se adiantavam por um elegante corredor. Nenhum homem a governaria!
	Na verdade  prosseguiu ele em seu tom aveludado ,  acho que ser uma boa ideia manter o nosso casamento em segredo de todos exceto de Alberto at o ltimo momento possvel.
	Oh? E por qu?
	Ocorreu-me que, assim, ningum poder interferir.
	E como faremos para convidar as pessoas?
	 fcil. Ns as convidaremos para um grandioso baile.
Imagine s! Ficaro boquiabertas quando voc chegar em seu vestido de noiva!
	Muito engraado.
Sem lhe notar o sarcasmo, Rozzano soltou um riso.
	Nosso casamento ser inesquecvel! E acabo de me dar conta... H uma grande vantagem. A imprensa no nos importunaria e ns poderamos evitar que o dia do nosso casamento se tornasse motivo de sensacionalismo.
	Voc  bastante sensato.
Ele lanou-lhe um olhar desconfiado, mas Sophia conseguira adquirir uma expresso serena, o que o fez menear a cabea, satisfeito.
	Concorda comigo, ento?
Apesar de seu jeito descontrado, era evidente que ansiava para que ela agisse de acordo com seus planos. E talvez aquilo servisse aos seus propsitos tambm, ponderou Sophia. Se ningum soubesse que ambos iriam se casar, a sua humilhao permaneceria em segredo caso o casamento fosse cancelado.
	Por que no?  concordou, com um sorriso forado.
Mas no conseguia dissipar seus temores. Se Rozzano a estava apressando ao casamento, se queria mant-lo em segredo at o ltimo minuto... era por estar lhe escondendo algo? No, suplicou aos cus. Se ele a enganasse, no suportaria.
	O salo.  Totalmente descontrado agora, abriu-lhe uma porta dupla entalhada.  Seja bem-vinda  declarou, como se fosse o anfitrio.
Sophia entrou no salo luxuosamente decorado e arregalou os olhos em admirao.
	Adorvel, no ? Sinta-se em casa. Gostaria de um drinque?
	No, obrigada. Acho que eu causaria uma m impresso se estivesse cheirando a bebida no primeiro encontro com meu av.
	Tem razo! " Rozzano riu, divertido, servindo-se de uma bebida. Era como se fosse o dono absoluto do lugar, pensou ela, inquieta. Mais uma vez a traioeira desconfiana dominou-a, mas tratou de afastar aquilo de sua mente. Para que ambos tivessem alguma chance juntos, tinha que parar de inventar razes para o comportamento dele... especialmente por que no tinha provas concretas de nada.
Ansiando por uma distrao, ela adiantou-se at as portas-janelas altas e viu que davam para uma sacada de pedra acima do Grande Canal, que brilhava, majestoso, sob o sol. De onde estava, podia avistar palcios, cpulas de igrejas e romnticas gndolas deslizando sobre as guas. Era uma vista magnfica, de rara beleza.
	O seu av est vindo  anunciou Rozzano de repente.  Reconheo o som do assoalho estalando! 
E logo se adiantava pelo salo, abrindo a porta dupla para uma enfermeira que conduzia um homem idoso, de cabelos brancos, numa cadeira de rodas.
	Rozzano!  Alberto D'Antiga estendeu os braos, e os dois homens trocaram um abrao caloroso.
Sophia observou, dominada por inmeras emoes. A afeio entre os dois homens era autntica, parecendo de fato de pai para filho, e aquilo alegrou seu inquieto corao.
A despeito da fragilidade de seu av, era evidente que outrora fora um homem imponente. Era alto e sentava-se ereto feito um soldado num desfile militar.
	E voc deve ser minha Sophia!
Sorrindo e emocionada com aquele tom caloroso, ela se aproximou, ajoelhou-se diante da cadeira de rodas e deixou-se enlaar pelos braos magros do av. Ele abraou-a longamente, a emoo fazendo estremecer os seus ombros franzinos. E Sophia no conseguia encontrar a voz, no podia dizer nenhuma das palavras que planejara, nem a pequena frase em italiano que aprendera para agrad-lo. Quaisquer que fossem seus ttulos ou ancestrais nobres, aquele era o seu nico parente vivo e a recepo afetuosa dele j conquistara seu corao.
O av afagou-lhe a cabea de leve.
	Ah! Voc  to parecida com sua me!
Sophia recuou um pouco para trs, sentando-se nos calcanhares e contendo as lgrimas.
	Galantador!  disse em tom de afetuosa reprimenda, encorajada a gracejar pela vivacidade nos olhos dele.  Minha me era bonita...
	E voc tambm .  Com um leno alvo de linho, o av enxugou as lgrimas que lhe escorreram pelas faces engelhadas e suspirou.  Perdoe as lgrimas de um velho, minha querida.
Ver voc significa tanto para mim. Eu acreditava ser o ltimo da linhagem D'Antiga. Partia o meu corao o fato de achar que no tinha mais descendentes.
	Vocs me perdoam?  Rozzano tirou do bolso o telefone celular que tocava.
	Claro. Veneza inteira j deve saber que voc retornou! 	exclamou Alberto com indulgncia. Seu olhar devotado acompanhou-o enquanto Rozzano se afastava at a extremidade do salo para atender o telefonema.
	Voc o ama muito  comentou Sophia. Era como se quisesse que algum o elogiasse e, daquele modo, amenizasse seus temores, pensou.
	Ele se tornou meu filho  declarou Alberto simplesmente. 	Eu era muito solitrio at ele ter vindo para c. E agora Rozzano trouxe voc a mim! Foi algo to generoso, to tpico dele, mesmo correndo o risco de perder tudo por sua causa.
Sophia gelou.
	Cus! Como?
	Minha querida, ele se casou com Nicoletta, uma parenta distante minha. Era a nica remanescente da famlia D'Antiga alm de mim. Mas acabou morrendo.
Sbitas lgrimas afloraram nos olhos de Sophia e baixou-os para as mos trmulas para escond-las. Rozzano no lhe contara que Nicoletta fora uma D'Antiga. Como fora econmico com a verdade!
	Eu sabia que ele havia se casado e que a esposa morreu ao tentar dar  luz. Mas desconhecia" essa ligao.
	Nicoletta era minha ltima esperana. Foi uma unio excelente entre as nossas duas famlias. E fiquei to feliz quando ela me contou que estava grvida.
Sophia venceu o n na garganta para comentar:
	Foi uma tragdia ela ter morrido to jovem. Deve ter sido um choque terrvel para vocs todos.
Uma expresso dolorosa passou pelos olhos do av.
	Sim, mas foi Rozzano quem ficou mais abalado. Ele sempre foi to forte e capaz, lidando com emergncias, tragdias... Mostrou-se bastante corajoso quando os pais morreram num acidente de lancha na laguna... e tinha apenas dezoito anos. Assumiu os negcios da famlia como se tivesse feito aquilo a vida inteira e tornou-se pai e me para Enrico. Mas quando Nicoletta morreu, ficou inconsolvel. Desmoronou e ns no o vimos durante dias depois do funeral. Eu nunca tinha visto um homem ficar to chocado. Foi como se seu mundo tivesse acabado.
Sophia ficou desolada. Aquela era a confirmao de que Nicoletta fora o grande amor de Rozzano. Como poderia competir com algo assim?
Com o corao apertado, levantou-se, conhecendo agora a verdade por trs do interesse dele.
	Ento  o que quis dizer. Rozzano tornou-se o seu herdeiro.
 Ficou surpresa com a maneira como conseguiu ocultar a amargura da voz, mas no queria magoar o av. Ficaria arrasado em saber o que o prncipe estivera planejando.
	 claro. Mas agora, minha querida,  voc quem vai herdar a fortuna dos D'Antiga. Viu como ele foi honrado no tendo-a desencorajado?
	A extenso da honra dele me surpreende  respondeu ela. Mas seu corao estava partido. Rozzano realmente a enganara! Como pudera?
Ento, pretendera se casar com ela e ter uma poro de seus filhos para lhe assegurar os direitos sobre a fortuna dos D'Antiga... No era de admirar que tivesse ficado agitado no escritrio do advogado, quando descobrira que Violetta D'An-tiga tinha tido uma filha.
E como fora astuto em ver que tivera a resposta para seus problemas bem  sua frente, sob a forma de uma garota provinciana que ficaria encantada em ser cortejada por um prncipe!
A raiva que a consumia era tamanha que mal conseguia controlar-se. Deu-se conta, ento, de que o av continuava falando. Para seu bem, tentou prestar ateno e no lanar olhares ressentidos na direo de Rozzano, que ainda falava ao telefone diante das portas-janelas.
	...no teria agido assim. Voc o julgou bem. Ele  bom e generoso demais  dizia Alberto, com afeio.  Confie nele, minha querida. E o mais ntegro dos homens. Pode contar com Rozzano para ajud-la a dirigir nossos negcios. Sabe, no passado eu entendia tudo; hoje em dia  complicado demais para mim... E sou alrgico a computadores!
Sem querer preocupar o av, ela obrigou-se a abrir um sorriso.
	Ele recebe um salrio pelo trabalho que faz?  perguntou, com ar inocente.
O av riu.
	Rozzano no precisa de dinheiro.  provavelmente mais rico do que eu! No, ele cuida de meus negcios porque  um bom homem. Embora eu ache que preferisse ter mais tempo para supervisionar seu imprio editorial.
Ento, Rozzano no precisava de dinheiro. A menos que fosse ganancioso e tivesse planos de expandir seu imprio. Os olhos dela brilharam. Prometendo a si mesma que ela tomaria as rdeas dos negcios, que no se deixaria enganar, apertou a mo do av nas suas, entusiasmada.
	Ns devemos lhe dar mais tempo para si mesmo. Acho que eu deveria me inteirar dos negcios dos D'Antiga. Quero me familiarizar com cada aspecto. Se houver algo que eu no entenda, Rozzano poder me explicar. Eu me empenharei, e voc ter orgulho de mim!
	Eu a admiro, minha querida. No tenho o menor receio em entregar nossa fortuna em suas mos para que voc a administre.
	Comearei logo  prometeu ela.
Lanou um olhar faiscante na direo de Rozzano, que, alheio  conversa, continuava falando ao telefone. Uma emoo forte percorreu-a. Era uma mistura de amor e dio, fogo e gelo. Observou-lhe o corpo atltico, o rosto bonito, os lbios sensuais, o incrvel magnetismo que irradiava.
Ela o queria. E odiava tambm.
	Meus ancestrais comearam comercializando especiarias do Oriente  dizia o av.  Ento, com o tempo, mudamos de ramo, passando a nos especializar em perfumes...
	Minha me tinha perfumes maravilhosos!
	E mesmo?  Os lbios de Alberto tremeram.  Perdoe-me  disse, emocionado.  Perdoe-me pelo mal que acabei causando a ela!
Sophia segurou-lhe as mos trmulas nas suas e, num impulso, levou-as a seu rosto.
	Vamos esquecer o passado. Falaremos sobre minha me num outro dia, est bem?
	Abenoada seja voc, minha querida, por sua compaixo. E agora, se me der licena, estou cansado. Almoaremos juntos amanh, est bem? Por favor, aperte aquela campainha para mim, para chamar a enfermeira. Obrigado. Oh... e pea a Rozzano que providencie para que eu fale com um advogado para mudar o meu testamento a seu favor, minha neta. Estou impressionado com o que ele me contou a seu respeito. Uma jovem que cuida de seu pai doente durante tantos anos deve ter qualidades especiais.  O av beijou-a na face afetuosa-mente.  Ciao, querida. Voc me fez ficar feliz outra vez.
Ela o abraou com afeio. Rozzano apressou-se a encerrar a ligao e acompanhou Alberto at a porta. Sophia, por sua vez, ficou ponderando que agora tinha a resposta para todas as dvidas que a assolavam. O prncipe a pedira em casamento porque ela personificava tudo que queria: o palazzo, a fortuna dos D'Antiga, um ventre para gerar seus filhos...
	Estou cansada tambm  anunciou quando ambos tornaram a ficar a ss.  Irei para o meu quarto desfazer as malas e talvez ande um pouco pela casa...
	 claro.  s me dizer quando estiver pronta, e eu a acompanharei...
	No, obrigada. Acho que prefiro conhecer a casa sozinha.
	Querida! No precisa manter o ar distante quando estivermos a ss.
O olhar faiscante dela desafiou-o.
	Em vez disso serve a raiva?
	Mas o que...
	No se aproxime de mim! Voc no me disse que a sua falecida esposa era uma D'Antiga! Nem que era o herdeiro de meu av! Por qu? Tinha segundas intenes?
Rozzano encarou-a, emudecido por aquela exploso de raiva.
	No consegue encontrar as palavras?  claro que no! E justamente voc, o homem de fala mais macia que j conheci. Deve ter ficado muito contrariado quando descobriu que minha me tinha tido uma filha...
	Se tentar se lembrar corretamente, eu fiquei radiante.
Sophia franziu o cenho, confusa. Sim, fora o que parecera.
Fitou-o, incerta, tentando descobrir por qu, mas ele falou antes de lhe dar chance de encontrar uma resposta.
	Foi por sua causa que eu no lhe disse que havia me tornado o herdeiro dos D'Antiga  retrucou, tenso, a raiva contida.  Voc mesma estava pensando em rejeitar sua herana por vrios motivos, no foi?
	Sim, mas...
	Ento, por que no encorajei suas dvidas?
	Ora, eu no sei...
	Eu poderia ter estimulado os seus temores, mas no o fiz. No comentei minha ligao com seu av porque pude ver que voc tinha padres elevados de moral e achei que poderia se sentir pouco  vontade com a ideia de me tirar essa herana. Fiquei ansioso para no colocar nenhum obstculo no seu caminho. Eu queria que voc reconhecesse a sua ligao com seu av, para o bem dele.
Ela ponderou sobre aquilo por um momento.
	Est certo, mas e quanto a mais tarde, quando eu j estava mais acostumada  ideia?  retrucou.  Teve vrias chances de me contar!
Uma expresso de tristeza passou pelos olhos de Rozzano por um momento e, ento, seu rosto tornou-se uma mscara indecifrvel.
	Parecamos estar ocupados com outras coisas, apaixonando-nos, por exemplo.
Sophia sentia o corao angustiado e baixou a cabea. No podia continuar observando-o. Parte de si queria correr para ele, buscando aquela afeio demonstrada no incio. A outra parte queria bater-lhe no peito e extravasar sua raiva por ter sido enganada.
	Vou para o meu quarto  murmurou.  No! No me mostre onde . H criados, certo?
Mas Rozzano parou diante da porta, bloqueando-a. Parecia subitamente grande e intimidade, os olhos negros adquirindo um brilho glacial.
	Est enganada a meu respeito.
	E talvez voc esteja enganado a meu respeito! Esse  o perigo em no se saber nada um sobre o outro. Eu o avisei.
	O que quer dizer?
	Talvez eu no seja to submissa quanto voc acha...
	timo. Eu quero uma esposa a quem possa tratar de igual para igual.
	Oh,  mesmo? Uma mulher que o desafie? Que discorde de tudo o que voc quer? No, acho que no! No fique pensando que s porque sou a filha de um proco, vou agir feito um cozinho obediente e aceitar tudo o que voc faz! Tenho sentimentos. Opinies prprias...
	No espero obedincia. Que ideia absurda. Mas voc tem discernimento para ver quando um modo de agir  sensato...
	De repente, estou cansada de ser sensata. Talvez eu at rejeite minha herana!  declarou Sophia, furiosa.  Tudo isso pode subir  cabea de uma pessoa  acrescentou, fazendo um gesto na direo do salo suntuoso.
	No  sua. Voc  uma pessoa equilibrada e seus valores so slidos. Durante toda a sua vida aprendeu a ser cautelosa com o dinheiro e a desconfiar de aparncias. So qualidades que eu admiro e respeito.
Ele tinha razo, evidentemente. Se desejara uma esposa prudente, escolhera bem. Mas, por alguma razo inexplicvel, Sophia queria continuar provocando-o, deixando-o to tenso quanto ficara, ench-lo de dvidas. E que melhor maneira do que sugerir que gastaria sem parar?
	Economia demais pode fazer uma pessoa querer se libertar  declarou, zangada.  Minhas prioridades esto mudando. Estou comeando a gostar do toque macio de tecidos bonitos de encontro a minha pele, por exemplo. E passei a adorar roupas de grife.  Permitiu que um sorriso surgisse em seus lbios, enigmtico, incitante e destinado a magoar.
 Pretendo fazer muitas compras. Do que adianta uma fortuna se no  para ser desfrutada ao mximo?
Houve um terrvel silncio. De repente, Sophia odiou a si mesma. Com aparente calma, fitou-o nos olhos e viu quanto estavam frios e cheios de desprezo.
Bingo. Acertara em cheio. Seu estmago se contraiu.
	O que aconteceu com as suas intenes de se dedicar  caridade?
Ela sentiu-se estremecendo por dentro. Numa questo de horas tornara-se supostamente uma mercenria e sua felicidade fora arruinada. Ambos tinham estado comprometidos e felizes. Agora discutiam e magoavam um ao outro.
	Farei o que quiser com o meu dinheiro.
Reconheceu nele os sinais da raiva aumentando. A tenso
dos ombros largos, a rigidez do maxilar, a maneira como apertava os lbios.
Quando falou, porm, parecia assustadoramente controlado.
	Voc est cansada. Notei como esteve plida antes. Tudo isto est sendo demais para voc. Conversaremos depois que tiver descansado. Lembre-se que sou o nico que sabe sobre os assuntos dos D'Antiga. No pense que no vai precisar de mim. Estaria sendo sensata em me depositar sua confiana.
	Minha confiana!  explodiu ela.  Eu no confiaria em voc nem se minha vida dependesse disso!
	Mas precisa!  Rozzano segurou-lhe os braos.  Se no confiar...
	Ameace-me e mandarei que o expulsem!
Ele empalideceu.
	Voc entendeu tudo errado!
	 mesmo?  Sophia estava  beira das lgrimas. Quisera aquele homem. Amara-o. E ali estavam trocando acusaes feito dois inimigos.  Solte-me, ou eu gritarei!
	Sophial  O grito ecoou do ntimo dele, um visceral grito de angstia.
A mscara caiu, revelando um profundo sofrimento que a chocou ao extremo. Ele tomou-lhe o rosto entre as mos e cobriu-lhe os lbios com um beijo faminto.
Sophia tentou protestar, mas no convenceu a nenhum dos dois. Num momento, moldava-se ao calor do corpo forte e experimentava um desespero silencioso, pois, que os cus a ajudassem, ainda queria aquele homem.

CAPTULO VI

Sophia tinha um perfume to maravilhoso, um gosto to bom... Rozzano entreabriu os lbios de leve para poder sorver a doura daquela pele macia.
A voz dela soou trmula ao seu ouvido, implorando-lhe que parasse. Mas ele no podia. Em alguma parte de sua mente, tinha cincia de que estava sendo indiscreto, que aquele no era o momento nem o lugar para ceder a seus desejos avassaladores. Um cavalheiro no se comportaria to mal. Mas naquele instante no se importava. Tinha que toc-la. Beij-la. Reparar o erro que tinha sido feito.
Rapidamente puxou a cadeira mais prxima, que colocou debaixo das maanetas da porta dupla. Afundou, ento, a mo nos cabelos de Sophia, massageando-lhe a cabea com a ponta dos dedos, liberando o perfume tentador que associava com ela. Enquanto lhe segurava a cabea com uma mo, moldava-lhe a curva voluptuosa da cintura com a outra.
Naquele momento, seus lbios apossaram-se dos dela, vencendo-lhe lentamente a raiva at a doce rendio. Tinha que apagar-lhe as dvidas. Agora. Antes que Enrico a conhecesse.
Houve uma mudana sutil no corpo dela... um enfraquecimento combinado com uma desesperada urgncia. E o dele respondeu, tomado por tamanho desejo e alvio que teve que estreit-la junto a si e beij-la mais apaixonadamente pra aplacar seu anseio.
Os seios macios de Sophia ardiam de encontro  camisa dele, os mamilos se enrijecendo provocantemente. Ela gemeu e deixou a cabea pender para trs.
Rozzano beijou-lhe o pescoo alvo de leve, mas quando lhe apreciou o contorno dos seios acima do decote do vestido, no pde se conter e abriu-lhe o zper nas costas. Capturou, ento, um dos mamilos rosados com seus lbios, sugando-o languidamente.
Ouviu-a soltando um gemido e, ento, cobriu-lhe os lbios com os seus, detendo sua mo no seio macio, sentindo-lhe a maciez de encontro  palma. As pequenas mos deslizaram pela abertura de sua camisa, afagando-lhe o torso, tocando-o sem experincia, mas com o instinto de uma sedutora.
Lbios estimulavam, suas lnguas se entrelaando numa dana ertica, minando o controle de ambos. Ele queria acarici-la por inteiro, estreit-la em seus braos, possu-la com arrebatamento.
	Sophia  murmurou-lhe ao ouvido.  Como eu amo voc!
Ele gelou. Dissera mesmo aquilo?
	Rozzano!  exclamou ela, ofegante, a voz trmula. Com mos impacientes, quis abrir-lhe o cinto. Ele fechou os olhos, tentando recobrar o controle sobre si mesmo. Mas j lhe afagava os quadris arredondados e guiou-a, at encost-la no caro tecido que revestia a parede.
Cobriu-lhe os seios com seus lbios ardentes. Baixou-lhe o vestido lentamente, o desejo que o consumia mal podendo ser contido. Percorreu-lhe o corpo com carcias, beijando-lhe o ventre liso.
Ela tremia de desejo, linda, provocante e sussurrava seu nome, implorando-lhe para que no parasse. Uma estranha emoo dominou-o. Algo alm do plano fsico. Um tipo de... delicioso enlevo.
	Minha adorvel Sophia!  sussurrou, rouco.
Continuou percorrendo-lhe a pele acetinada com seus lbios e, quando a acariciou com ousadia, teve a sensao de estar entrando no Paraso.
Mais tarde, deitada nos braos dele, Sophia ainda se deliciava com o maravilhoso torpor tomando conta de seu corpo, mantendo longe todos os pensamentos, exceto um.
Rozzano a amava.
E a fazia sentir-se to desejada. Mesmo naquele instante, saciado e contente, ele corria as mos com gentileza e quase reverncia por seu corpo. Ela tambm o tocava, no grande sof de damasco onde estavam deitados, maravilhando-se com sua mscula beleza. Ruborizou ao perceber quanto suas carcias ainda o afetavam.
Voc est corando agora, depois de ter-me levado s nuvens daquele jeito?  provocou-a ele.
Sophia no pde fit-lo. Jamais teria acreditado que poderia saciar o desejo daquele homem com tamanho abandono. A reao dele fora incrvel. Ela o fizera gemer e implorar, sussurrar seu nome repetidamente quando um clmax arrebatador o tomara.
Ambos, ento, tinham ansiado pela unio final. Mas Rozzano contivera sua prpria paixo e, com palavras e beijos suaves, acalmara-a, lembrando-a que ela queria continuar virgem at a noite de npcias.
	Eu amo voc!  sussurrou ela.
Rozzano tornou a beij-la nos lbios e toc-la. Ela sentiu a mente se esvaziando, o corpo ficando febril enquanto as mos experientes a afagavam com intimidade. Daquela vez, seu xtase foi prolongado... carregado de pura emoo.
Sophia, ento, aninhou-se naqueles braos outra vez, recusando-se a pensar em qualquer outra coisa exceto no pulsar do corao dele de encontro ao seu, na profunda serenidade que tomou conta de seu corpo.
Ao longo da semana que se seguiu, Sophia sentiu-se ainda mais apaixonada. A cada manh, Rozzano trabalhava a seu lado na magnfica biblioteca. Com grande pacincia, explicava-lhe as complexidades dos negcios dos D'Antiga e como administrava e aumentara a fortuna da famlia. Aos poucos, ela comeou a se dar conta de como ele devia ter trabalhado arduamente para obter aquilo. E, para sua alegria, descobriu que Rozzano doara uma boa soma para a caridade.
Agora, elegante num conjunto de cala e blusa de seda, Sophia se adiantou at a biblioteca depois de ter almoado sozinha com o av. Na noite anterior, Rozzano voara at Milo para um encontro com o irmo, deixando-a surpresa em perceber quanto sentia sua falta.
Aguardava com impacincia, andando de l para c, verificando as horas. Ele lhe telefonara para avisar que j estava na lancha. Dissera que chegaria logo e que o esperasse na biblioteca porque no poderia fingir e apenas cumpriment-la polidamente. Queria beij-la com paixo.
Seu corao disparou no peito ao ouvir passos se aproximando e, quando se virou para a porta, viu-o chegando. Percorreu-o com um olhar ansioso, atendo-se a cada detalhe: a expresso terna no rosto bonito, o caimento impecvel do terno, a maneira como se aproximou logo para estreit-la em seus braos.
	Senti tanto a sua falta!  sussurrou-lhe ao ouvido. E comeou a demonstrar quanto.
	Rozzano! . protestou ela debilmente quando ele pareceu querer despi-la.  Mais tarde! Temos tantas coisas a fazer. Planos para o casamento, nossos passeios  tarde por Veneza... oh, eu tenho adorado conhecer a cidade.
	Eu apenas... precisava tocar voc, querida.
	E eu tambm quero tocar voc o tempo todo  admitiu ela, com um sorriso.
	E diga-me, como est o seu av?
	Muito bem. Acho que est melhorando a cada dia.
	Vamos lhe contar, ento!  sugeriu Rozzano, entusiasmado.  Apenas a ele e mais ningum. Ficar to satisfeito. Seu av adora voc.
	E adora voc tambm.
	Ele deve estar fazendo sua siesta agora. Assim, quando acordar, ns lhe contaremos. Antes de sairmos, est bem?
O entusiasmo dele era contagiante.
	Sim,  claro. Para ser sincera, -fico imaginando se meu av j no somou dois mais dois em relao a ns. Anda me fazendo perguntas sugestivas. Assim, eu o tenho distrado, pedindo-lhe que me conte a respeito de minha me.
Ele se adiantou para sentar-se atrs da mesa de mogno, onde depositou sua valise, e Sophia ocupou uma das cadeiras em frente.
	Espero que vocs dois tenham se entendido em relao a isso.
	No guardo ressentimentos, em absoluto. Ele no sabe por que minha me no retornou para reclamar sua herana, apenas que jurara nunca mais depositar sua confiana no mundo material.
	Um sacrifcio e tanto.
Acho que ela era mais feliz com meu pai do que aqui. Sinto-me triste pela vida que levou. Parece que nunca soube quem eram seus verdadeiros amigos e quais estavam atrs de seu dinheiro...
	 um problema  comentou Rozzano, fitando-a com gentileza.
	Posso entender isso. Ela se queixava que tinha que pagar por tudo. As pessoas a invejavam e se ressentiam de sua riqueza. E teve dois romances desastrosos. Seus namorados apenas queriam o estilo de vida que podia lhes proporcionar. Foi quando meu av lhe disse que se casasse com o seu pai. Achou que poderia poup-la de desgostos dando-lhe um casamento estvel. Ela se sentiu diminuda como pessoa, sabe? Foi por isso que desistiu de tudo pelo meu pai, que no fizera ideia de quem ela era at que lhe contou no avio para a Inglaterra. Deve ser terrvel ter as pessoas interessadas em voc por causa do seu dinheiro.
	Venha at aqui, querida.  Notando-lhe o ar melanclico, Rozzano sentou-a em seu joelho e abraou-a.  Sei como  lidar com caa-dotes e oportunistas. A fortuna pode ser um obstculo. Atrai cobia. s vezes, aqueles que a possuem tornam-se vazios e egostas porque no tm de lutar na vida. Ficam preguiosos e buscam mais e mais maneiras ultrajantes de preencher o vazio de suas vidas.  por isso que quero proteger voc. Mant-la a salvo.  preciosa demais para mim para que algum lhe cause algum mal.
	Obrigada  disse Sophia, sentindo-se embaraada por ter duvidado dele.  Fico feliz em ter conhecido voc em vez de um caador de fortunas qualquer.
	Claro. Bem, vamos voltar ao trabalho?
	Diga-me primeiro, como estava o seu irmo.
	Oh, bem-humorado, como de costume.  Aps ligeira hesitao, Rozzano acrescentou:  Ns voltamos no mesmo avio. Ele organizou uma festa de boas-vindas para voc.
	timo! Quando?
	Hoje  noite. Avisou em cima da hora. No tenho certeza de que poderemos...
	Oh, mas devemos ir! Ele deve ter tido muito trabalho. Alm do qu, no temos mais nada para fazer... ao menos no antes de bem tarde da noite  acrescentou ela, com um olhar maroto.
	Eu preferiria ir para a cama mais cedo.
Sophia sorriu, deliciada.
	Eu sei. Mas procure pensar na expectativa que sentir!
	Sim  concordou ele, fitando-a com um olhar faminto.
 Terei dificuldade em manter as mos longe de voc durante a festa.
	Eu tambm...
	Oh, tenho que parar de pensar em voc o tempo todo!  Ele a fez levantar de seu colo com gentileza. Adquiriu um ar eficiente, apenas o brilho no olhar traindo seu desejo.  Vamos aos nossos planos de casamento, contessa. Depois contaremos as boas novas a Alberto.
Sophia meneou a cabea, sentando-se para examinar as mensagens de confirmao das pessoas que tinham sido convidadas para o "grandioso baile".
	Tive confirmao do vo que partir do aeroporto de Gatwick para Veneza  disse-lhe Rozzano, colocando a carta que acabara de abrir na pasta que haviam aberto para os assuntos do casamento.  E agora conseguimos lanchas o bastante para transportar todos at a igreja de minha famlia.
Sophia tornou a assentir, divertida em agora poder considerar corriqueiro o fato de que seria enviado um avio para buscar seus amigos na Inglaterra. Haviam decidido realizar a cerimnia na igreja particular anexa ao Palazzo Barsini porque seria mais fcil manter a discrio e evitar o assdio da imprensa.
	Fico contente que tenhamos decidido voltar aqui para a festa  comentou.  S estou um tanto espantada com a quantidade e a variedade de comida...
	Deixe esses detalhes por conta dos organizadores do bufe. Tm experincia nisso. No se esquea que sero mil e oito centos convidados.
	Mal posso crer! Parece que metade de Dorset e Veneza inteira estaro aqui! S em pensar j fico nervosa...
	No fique, querida. Esse  o nosso casamento, o nosso comprometimento um com o outro. Ningum mais, alm do seu av,  importante.
	No pode se esquecer de seu irmo e familiares.
Rozzano franziu o cenho para a carta que acabara de abrir e murmurou algo vago em resposta.
	A propsito, estamos ficando sem tempo. Devemos ir a Paris para comprar lingerie para voc. Eu poderia providenciar um vo para ns nesta noite...
	Seu irmo organizou uma festa para ns, lembra-se?
	Sim, mas ele vive dando festas. Poderamos perder esta.
	No, em absoluto. Estou ansiosa para ver Enrico e sua famlia. Quero conhec-los bem.
	Estarmos em Paris  meia-noite seria mais romntico...
	Veneza  meia-noite  romntica o bastante se eu estiver com voc.
A expresso de Rozzano suavizou-se com um sorriso terno.
	Fique do meu lado a noite inteira, ento.
	No. As pessoas vo falar. Somos supostamente meros conhecidos, lembra-se?
	Deixaremos a festa cedo e iremos a Paris no dia seguinte, ento, est bem?
	Tente me impedir!  riu ela.  Preciso pensar no meu vestido de noiva...
	Encomende-o em Milo. Passaremos por l na viagem de volta. Cuidarei de tudo.
Enquanto se vestia para a festa de Enrico naquela noite, Sophia tinha o corao repleto de alegria com o rumo dos acontecimentos. O av tinha ficado radiante com a notcia do casamento e, enquanto lhe observara os olhos cheios de lgrimas, ela soubera que aquele era o melhor remdio que poderiam ter-lhe dado.
Seu amor por Rozzano se intensificara mais ainda quando vira a ternura e genuna afeio com que ele abraara seu av.
E estava planejando um casamento inesquecvel. A cabea dela rodopiava com tudo: catlogos de maravilhosos arranjos de flores e decorao de mesas, conversas sobre as iguarias que seriam servidas, sobre os cristais, a porcelana e a prataria que seriam usados, as lembranas para os convidados, as fabulosas roupas que teria em seu enxoval...
Sentia-se to confiante agora, to segura do amor de Rozzano... Sua adorao a fez ter orgulho de si mesma e sabia que poderia lidar com a presso de administrar os negcios da famlia... com a ajuda dele.
Para a festa, escolhera um vestido de tafet verde-claro, a saia reta e curta mostrando mais de suas pernas do que teria ousado. Mas a dona da butique exclusiva onde o comprara assegurara-lhe que todas as mulheres estavam usando saias daquele comprimento e que tinha pernas bonitas para adotar o estilo.
Rozzano ainda no a vira. Sophia observou sua imagem no espelho, antecipando a expresso no rosto dele quando a visse. Entusiasmada, colocou os sapatos revestidos do mesmo tecido do vestido e apanhou o casaco de tafet combinando. Reluzentes brincos de ouro adornavam-lhe as orelhas e um belo colar faiscava em seu colo acetinado.
Estava perfeita, com sua maquiagem sutil, os cabelos casca-teando em ondas sedosas at os ombros, ambos os efeitos proporcionados por uma maquiadora e um cabeleireiro que tinham se mostrado mais do que dispostos a irem atender a nova contessa.
Adiantando-se at os aposentos do av, disse-lhe boa-noite, tocada com seus elogios efusivos.
	Divirta-se, querida. Conte-me tudo pela manh, sim?
	Eu prometo.  Ela o beijou com afeto na face.  Eu o amo muito, vov.
	Minha querida  disse Alberto, enternecido , voc  a maior alegria de minha vida.
Com os olhos cinzentos brilhando, ela se adiantou pelos corredores at o salo principal. A expresso admirada de Rozzano quando a viu foi das mais gratificantes.
	Sophia!  exclamou, estupefato. Voc est... deslumbrante!
	E voc est de tirar o flego. Acho que deveria usar smoking noite e dia. Cai-lhe to bem!
O sorriso fascinado dele dissipou-se de repente.
	Voc est realmente linda. Vai enlouquecer a todos! Mas...
	Mas o qu?
	Eu...  comeou ele, hesitante.  Eu achei que talvez voc fosse vestir algo mais simples, como.:, como aquele vestido florido qu usou em Londres, ou...
	Ora, gosto de vestidos simples, mas quis usar algo apropriado para uma festa sofisticada no Palazzo Barsini. O que seu irmo iria pensar?
	E com isso que estou preocupado. Todos os homens presentes ficaro  sua volta e as mulheres a detestaro.
	Est sendo lisonjeiro. Tenho visto algumas mulheres de beleza incomparvel em Veneza. Mas obrigada pelo elogio. Agora, vamos! Estou ansiosa para ser apresentada a Enrico e danar a noite inteira.
	Eu te amo  sussurrou Rozzano, puxando-a para si.
	E eu tambm te amo.
	Vamos ficar aqui e fazer amor  sugeriu ele, insinuando a mo pelo decote do vestido para afagar-lhe o seio.
	Vamos  festa e depois faremos amor  sussurrou Sophia, excitada com o brilho faminto nos olhos negros.
Rozzano soltou um suspiro e deu-lhe o brao, conduzindo-a at a porta. Notando quanto estava tenso, ela compreendeu que ele a queria para si apenas. Algo ainda mais lisonjeiro.
Rozzano manteve-se em silncio durante o breve percurso pelo Grande Canal na gndola particular. Na quietude da noite, ficaram de mos dadas, e ela pensou que poderiam ter sido enamorados de outra poca, enquanto a gndola deslizava diante de fabulosos palcios, seus sales iluminados por cintilantes lustres de cristal.
	Eu me sinto num conto de fadas  disse, com um suspiro.
	Estamos nos aproximando da ponte Rialto. Qual  a sua casa? At ento, ele ainda no a levara ao Palcio Barsini, dizendo-lhe que o visitariam quando houvesse tempo o bastante e pudesse apreci-lo calmamente.
	Aquela revestida com mrmores bicolores em verde e dourado.
Os olhos de Sophia brilharam enquanto se aproximaram na gndola. Como j sabia, era uma construo do sculo treze e, portanto, menor, possuindo sales mais ntimos do que grandiosos. Outrora, tivera um grande ancoradouro, servindo tanto de residncia como de entreposto comercial, ali tendo sido desembarcadas cargas da frica e do Oriente, como ouro, prata, brocados, sedas e tapearias.
	Na prxima vez que viermos aqui ser o dia do nosso casamento  comentou ele.
	Oh, certamente que no  disse ela, surpresa, enquanto o gondoleiro manobrava a gndola at o pequeno embarcadouro.
	Devemos visitar a famlia de seu irmo antes disso.
	No teremos tempo. H milhes de coisas a fazer.
Ele a conduziu a um salo to apinhado de gente que ambos mal puderam se mover. Centenas de pessoas conversavam animadamente, suas exticas feies mediterrneas favorecidas pelas roupas brilhantes das mulheres e jias e pelos elegantes trajes a rigor dos homens.
Verde e dourado predominavam na decorao do salo sun-tuoso de paredes em tons ocres. Do teto alto, pendiam fitas de cetim e magnficos arranjos florais que perfumavam o ar.
Ambos comearam a abrir caminho pela multido. Puderam, ento, ouvir as suaves notas de um quarteto, tocando msica do sculo dezoito.
	Quanto luxo!  exclamou ela, boquiaberta.
Rozzano torceu os lbios.
	Enrico no deixa por menos.
Sopha franziu o cenho. Ele parecia plido. As pessoas cumprimentavam-no e a observavam atentamente. Rozzano retribua os cumprimentos, mas no parava para fazer apresentaes. Conduziu-a por uma escadaria at um salo de baile um pouco menos apinhado.
	Rozzano! Meu caro irmo!  exclamou Enrico. Os dois homens se abraaram e ele virou-se para fit-la.  Ento, esta  Sophia!  Beijou-a na face e segurou-a pelos ombros, observando-a com o mesmo olhar intenso do irmo. Mas seu rosto... quase bonito... tinha traos menos marcantes, os lbios uma verso no to sensual.  Estou surpreso! Voc  muito mais bonita do que meu irmo deu a entender. E elegante! Ora, Zano, voc foi injusto ao dizer que ela no sabia nada sobre etiqueta e que suas roupas eram deplorveis.
Rozzano lanou um olhar faiscante ao irmo.
	Est bem. Pare com a brincadeira.
	Brincadeira! Mas foi o que voc disse!  protestou Enrico. Virando-se, indignado, para Sophia, explicou:  Eu lhe telefonei quando vi uma foto pouco ntida de voc no jornal daqui.
Ele disse que no havia nada entre vocs e que...
	E que, pelo jeito, eu era uma simplria.  Ela conseguiu manter uma fachada de calma, mas por dentro tremia. Aquela seria mesmo a opinio de Rozzano?  Com licena.
	Sophia!
Ela ignorou-lhe o apelo e abriu caminho pela multido, indo parar num outro salo. De imediato, foi abordada por um grupo de belas mulheres que poderiam ter sido modelos.
	Voc deve ser Sophia D'Antiga! Que adorvel, querida!  A mulher que lhe falou beijou-a trs vezes na face e observou-a em grande surpresa.  Voc tem uma aparncia bem melhor do que eu esperava. Rozzano disse a Enrico que voc...
	Eu j sei  respondeu Sophia secamente.  Ele no me tem em muito alto conceito, no ? Veneza inteira conhece a opinio dele?
A mulher riu graciosamente, o que a deixou ainda mais zangada.
Apenas a famlia! Sou Letizia, a esposa de Enrico. Como Zano foi rude a seu respeito! Estvamos preparados para o pior. Pela maneira como a descreveu, logo se v que no lhe fez jus.
Magoada, Sophia no gostou muito de Letizia. Percebeu que por trs daquela fachada amistosa, havia uma maliciosa determinao em ferir a nova confessa.
	Basta olhar para voc para ver que tem bom gosto  prosseguia Letizia.  E quando quiser uma dicas de onde fazer compras, terei prazer em acompanh-la. Simplesmente adoro comprar e comprar...
	Ando muito ocupada  interrompeu-a Sophia depressa.  Estou tentando entender as finanas da famlia para comear e... Cus!  exclamou a outra, horrorizada.  Voc no pode privar Zano do que mais gosta! Adora cuidar de negcios.  sua paixo! Tem tido a liberdade para administrar os negcios dos D Antiga j h alguns anos e detido seu poder. Deixe-o continuar. Os homens trabalham, as mulheres decoram... e gastam o dinheiro. E sou exatamente a pessoa para ajud-la a fazer isso!
	Obrigada, mas, no momento, estou organizando uma festa e isso est consumindo todo o meu tempo...
	Sei como , querida. Organizar festas acaba mesmo com a liberdade de uma pessoa. Estou to ocupada esta semana que nem sei quando poderei receber a manicure  tagarelava Letizia, agitando as mos no ar e, ao mesmo tempo, exibindo os diamantes e esmeraldas que lhe adornavam os pulsos.  Veja!  exclamou de repente.  Zano est  procura de uma esposa! Pobrezinho, tem procurado algum como Nicoletta h sculos. Acho que a encontrou! Sorte de Arabella!
Sophia acompanhou-lhe o olhar. Uma loira esguia conversava com Rozzano e segurava-lhe o brao intimamente.
	Por que ele est tentando arranjar uma esposa?  perguntou, lutando contra a onda de cime.
	Rozzano precisa de um herdeiro. E a nica razo que leva esses aristocratas a se casarem. Podem ter qualquer mulher que quiserem e, portanto, vivem de aventuras at que se do conta de que precisam ter filhos pelo bem da famlia.
	E o que Rozzano tem feito? Tem vivido de aventuras?
 O indesejvel cime voltou a tomar conta de Sophia. Era evidente que ele teria tido seus relacionamentos. Era um homem passional demais para no faz-lo.
Observou-o com um aperto no peito. Letizia estivera to convencida dos motivos e intenes dele... e devia conhec-lo bem. Novamente, a importncia da famlia falava mais alto. Rozzano queria filhos... o mais rpido possvel. Ela seria uma mquina reprodutora tambm para ser abandonada quando ele se sentisse entediado?
Subitamente nauseada, Sophia murmurou um pedido de desculpas e rumou para o toalete mais prximo. Era imenso, com baldes de gelo contendo champanhe e gua mineral, alm de arranjos de lrios espalhados por toda a parte, seu perfume forte fazendo-a sentir-se ainda pior.
Sorveu um pouco de gua mineral at a nusea passar, respirando fundo algumas vezes para se acalmar. Os comentrios que Rozzano fizera a seu respeito ao irmo no haviam sido nada lisonjeiros, mas no tinham mais importncia. Afinal, ele dissera que a amava, no fora? A afeio fora genuna em seus olhos negros. E no poderia ter fingido o desejo...
A menos que tivesse estado desesperado. E era um homem para quem o sexo podia ser separado do amor.
Plida e trmula, segurou-se  beirada da pia de mrmore. "Ele me ama", disse a si mesma. "Ele me ama".
"Apesar de eu ser uma simplria e no ter a beleza de Arabella. Apesar de termos acabado de nos conhecer. De ele adorar a casa D'Antiga e obviamente detestar a ideia de ter que se mudar de volta para o palcio Barsini..."
A quem ela estava tentando enganar?
Olhou para seu reflexo no espelho, a cor avermelhada do batom contrastando com a palidez de sua pele. No se achou bonita. Achou-se mais uma tola, com aquelas roupas e penteado sofisticados.
Foi tomada pela raiva. Queria ser amada por si mesma. E no por nenhuma outra razo.
Procurando se recompor, voltou ao salo e misturou-se aos convidados. Havia aristocratas, mas no eram a maioria. A maior parte dos convidados de Enrico parecia ser de pessoas que apareciam na primeira pgina dos tablides. E a atmosfera era carregada, com mexericos maliciosos, intrigas e flertes.
O champanhe corria solto, a msica se elevava, e a mente dela ansiava por solido. Mas no poderia ficar sozinha porque aquilo a obrigaria a pensar em seu futuro. Assim, continuou circulando pelos sales, mesmo quando a viso de vrios casais trocando carcias ousadas em pblico a fazia desviar, desgostosa. Se aquele era o tipo de comportamento que Rozzano aprovava, seria impossvel que ambos vivessem juntos. s vezes, avistava-o no meio da multido, com Arabella ainda a seu lado, e tratava de ignor-lo.
	Quer danar, Sophia?
Quando ela se virou, quase colidiu com Enrico. Algo naquele homem a fez querer esquivar-se, mas soube que seria indelicado recusar.
	Obrigada  disse polidamente.
Houve uma pequena comoo atrs de si e, de repente, a mo de Rozzano estava em seu ombro.
	Desculpe, Rico, mas tenho que levar Sophia de volta  disse, num tom agradvel.  No est acostumada a ficar acordada at tarde. E passa mal se beber lcool ou ingerir comida muito condimentada.
Ela estreitou os olhos diante daquelas mentiras. Por que Rozzano tentava impedir que ela danasse com seu irmo?
	Ela estar bem comigo  murmurou Enrico, um brilho faminto em seu olhar. Observou-a significativamente de alto a baixo antes de abra-la pela cintura.
Horrorizada, Sophia deu-se conta do interesse sexual dele.
	Rozzano tem razo.  melhor eu ir embora  disse depressa, grata por um pretexto para se esquivar. Levou a mo aos lbios fingindo que estava nauseada.  Cus! Acho que vou vomitar a qualquer momento!
Enrico saltou para o lado, preocupado, e ela aproveitou para escapulir pelo meio da multido, Rozzano em seus calcanhares, grata por, finalmente, poder deixar a festa.
	Muito bem. Achei que nunca conseguiramos nos livrar de tudo aquilo  comentou ele, satisfeito.
	E mesmo? Por que voc apareceu justamente quando Enrico me tirou para danar?  perguntou ela, com frieza, enquanto deixavam o palcio e se adiantavam at a gndola que os aguardava no ancoradouro.
	Eu quis afastar voc dele. Enrico costuma flertar depois de beber um copo ou dois de vinho.
Ou vrias garrafas, pensou Sophia, zangada.
	Ento, voc ficou com cime.
	Suponho que sim. Voc o achou atraente?
O que ela poderia responder? Que ningum naquela festa fizera particularmente seu tipo... mas que Enrico ainda lhe dava calafrios?
	Eu poderia provocar voc e fingir que achei. Mas seria mentira. Eu no queria danar com ele. Para ser franca, no me diverti muito.  Ela omitiu a explicao de que as revelaes sobre Rozzano teriam arruinado at mesmo uma noite maravilhosa.
 Eu tambm no me diverti. Oua... aqueles eram amigos de Enrico, no meus. Voc conheceu um ou dois de meus amigos nas vezes em que samos e disse que gostou deles. Acho que gostar dos demais. No so...
	Vulgares?  completou ela, ironicamente.
	Exato.
	Voc no gosta dos amigos dele.
	No muito.
Aliviada com aquilo, Sophia lanou-lhe um olhar velado.
	Voc tambm no gosta muito de seu irmo, no ?
	E meu irmo.  A expresso de Rozzano permaneceu indecifrvel.  Sou responsvel por ele.
	Voc fugiu da minha pergunta. E no  o guardio de seu irmo. Enrico  adulto. Qualquer papel que voc tenha precisado representar na vida dele antes j passou agora.
	Ele  um Barsini. O que quer que faa reflete na minha famlia.
	E a famlia  tudo  disse Sophia, num fio de voz, seu corao apertado quando no obteve resposta.
Sua reprovao o fez enrijecer o maxilar, e ela desviou o olhar, seus sentidos entorpecidos, toda a alegria tendo se dissipado de sua vida. A famlia! No poderia ser algo mais importante do que o amor, a sinceridade, a bondade para com os outros. No deveria ser uma barreira para a felicidade, ou para a verdade.
Sim, tudo o que queria era saber a verdade. Ou Rozzano a amava... a ela, no a seu ttulo, sua herana... ou ele estava colocando sua maldita dinastia  frente de seus prprios sentimentos.
Quando chegaram ao Palazzo D'Antiga, rumou diretamente para seu quarto, pedindo que ele a acompanhasse.
	Voc me parece indisposta.
	E estou. Mas h algo que preciso lhe perguntar. Entre.
Observando-o fechar a porta atrs de si, Sophia engoliu em seco, sem saber o que faria se ele admitisse a verdade.
	Enrico disse algo a voc, no? O que foi?
O tom contrariado de Rozzano dizia tudo. Temera qualquer contato dela com seu irmo. O que Enrico teria lhe contado se tivesse tido chance?
	Mal falei com ele.  Vendo-o soltar um suspiro de alvio, ela tremeu.  Mas ouvi coisas que me fizeram duvidar de voc.
	De quem?
	No importa. Mas quero que responda com sinceridade. ---- Ela fitou-o nos olhos, torcendo as mos com nervosismo.  Nada de mentiras. Seja franco. Voc realmente me ama?  Ergueu o queixo com determinao, desafiando-o a engan-la.
	Voc me amaria se eu abrisse mo de todo o meu dinheiro e fosse a simples Sophia Charlton com roupas comuns e nenhum sangue D'Antiga correndo nas veias?
A afeio no rosto dele deu-lhe a resposta de imediato.
	 isso que tem preocupado voc, querida? Como ainda pode ter dvidas?
Rozzano abriu-lhe um sorriso, o amor em seus olhos negros alegrando-lhe outra vez o corao.
	Eu realmente amo voc. Abra mo de seu dinheiro, se quiser. At deste palcio. Eu ainda iria querer viver ao seu lado para o resto da minha vida.
Era o que ela queria ouvir. Sem hesitao, abraou-o com fora, soluando.
	Voc nunca deve desconfiar de mim, no importando que rumores oua. O que os amigos de Enrico mais gostam  de fazer mexericos e separar as pessoas. Espalham mentiras por pura diverso.
	Acredito.
	Confie em mim, querida. Pretendo amar voc para o resto dos meus dias. Mas... especialmente nesta noite!
E naquela noite serena de setembro houve algo diferente na maneira como fizeram amor. Foi com mais vagar e languidez e, ao mesmo tempo, com emoes profundas que a enlevaram.
Rozzano a amava de todo o seu corao. Ela podia dormir em paz. No havia mais nenhuma dvida em sua mente.
CAPITULO VII

Usando um impecvel terno escuro e uma faixa bordada na cintura, Rozzano aguardava acima do Grande Canal, seu corao batendo descompassadamen-te. Havia subido na altana, a pequena plataforma no telhado do Ca' Barsini. Ali, princesas medievais de sua famlia haviam secado seus cabelos longos, dourando-os ao sol.
Mas, naquele dia, ele aguardava que sua princesa e noiva aparecesse. Sabia que no deveria estar ali, que deveria estar recebendo os convidados de ambos, porm sentia-se impelido a ter absoluta certeza de que ela no mudara de ideia.
Um medo terrvel dominou-o. Sophia estava atrasada. Ela tinha que aparecer! Mas e se... Cus! E se tivesse ouvido um rumor qualquer? Apesar de todos os seus planos para evitar um contato entre os dois, Enrico devia t-la abordado de alguma maneira e envenenado-lhe a mente.
Mais nervoso do que j estivera em toda a sua vida, Rozzano protegeu os olhos do sol baixo de outono, desejando que ela aparecesse em seu raio de viso. Segurava o gradil com fora enquanto olhava tenso para a curva do canal, por onde ela deveria ter aparecido. Caso fosse aparecer.
Ele ouviu algo. Sirenes, um leve som de comemorao... Prendendo a respirao, s a soltou depois que um pequeno comboio de barcos surgiu no canal.
 Felizmente!  sussurrou, tomado pela onda de alvio que o percorreu. Esticando o pescoo, inclinou-se para a frente para enxergar melhor.
Ela estava sentada do lado oposto de Alberto numa gndola, as saias do vestido espalhadas  sua volta e destacando-lhe a cintura esguia. Usava seu presente de casamento: um inestimvel colar de prolas barroco.
Sob o vu, seu rosto no se distinguia, mas ele a viu sorrindo ocasionalmente enquanto acenava para os gondoleiros que tinham deparado com sua viso favorita... uma noiva veneziana... e se reunido  procisso.
Rozzano abriu um sorriso exultante. Ela seria sua, em menos de uma hora! Sonhara com aquele momento, empenhara-se para alcan-lo. Finalmente, podia se livrar de toda a tenso dos anos anteriores. Agora, tinha tudo o que j desejara.
Radiante, voltou ao interior do palcio para transferir os convidados do salo de baile para a igreja anexa da famlia. Com enorme satisfao, enfim, fez com que seu perplexo irmo subisse no altar, para ficar a seu lado.
	Por que estamos na igreja? O que, afinal, est aconte
cendo?  reclamou Enrico.
	Espere e ver  disse-lhe Rozzano, mal podendo conter seu entusiasmo.
A msica preencheu a igreja. Sophia devia estar do lado de fora, pensou ele, com sbito nervosismo. Chamou a ateno do irmo para os dois brases abaixo do belo arranjo de flores junto ao altar. Como era de costume no casamento de um Barsini, o braso da famlia fora posicionado ao lado do da noiva, com fitas de seda nas cores dos D'Antiga entrelaadas com as verdes e douradas dos Barsini.
	Pelos... cus!  Enrico comeou a se dar conta da verdade.
- Fique calmo, meu irmo.
	Sophia? Mas voc... nem sequer gosta dela!
	E isso  relevante? Isto  pelo bem da famlia  disse Rozzano, sardnico.  Preciso de filhos. Aqui est a aliana. No a perca.
Enrico estava estupefato. Rozzano abriu um sorriso triunfante.
Havia mais uma coisa que tornaria seu dia completo. Um brilho determinado passou por seus olhos. Arabella. Ele a veria em particular, durante a festa.
As damas de honra de Sophia, amigas de Dorset que conhecia desde pequena, garantiram que seu vestido de noiva estava perfeito e ela, irretocvel. Ela baixou o olhar, apreciando mais uma vez os bordados de prolas na frente do vestido e receando apenas ser um tanto decotado demais, as amigas lhe assegurando em contrrio. As mangas eram compridas, mas deixavam os ombros  mostra, a cintura, bem marcada, com a saia ampla, no melhor estilo princesa. Tinha os cabelos presos num coque na altura da nuca sob o vu comprido, finas mechas soltas adornando-lhe o rosto.
Seus joelhos tremeram sem parar quando as amigas lhe ajeitaram o vu ricamente bordado de prolas e a cauda do vestido atrs de si, o momento de entrar na igreja se aproximando.
Olhou por sobre o ombro para Maggie e Jenny e abriu um sorriso. Ambas tinham sido maravilhosas. Haviam guardado seu segredo, apesar do entusiasmo em terem sido levadas a Paris para encomendarem seus vestidos.
	Voc est pronta, querida? Esto tocando a sua msica!
 disse-lhe o av, com afeio.
	Estou pronta  respondeu ela, a voz carregada de emoo.
O valete ajudou Alberto a se levantar da cadeira de rodas onde estivera esperando e entregou-lhe sua bengala. Ele se apoiou no brao de Sophia.
Posicionando o buque de rosas brancas, ela aguardou enquanto as portas da igreja eram abertas por um criado uniformizado. Conteve um sorriso diante da estupefao de todos, enquanto inmeros pares de olhos se alternavam entre ela e Rozzano, que a esperava no incio dos degraus do altar. A julgar pelo murmrio coletivo, apenas os poucos que haviam jurado segredo tinham sabido o verdadeiro motivo da festa!
Lentamente, ela e o av seguiram pelo corredor central. Sentia-se efusiva com o fato de Alberto estar bem o bastante para poder conduzi-la. Na verdade, a sade dele melhorara muito. De algum modo, aquele casamento que estava prestes a acontecer dera-lhe uma injeo de nimo.
Timidamente, Sophia encontrou o olhar do homem a quem amava. Dali at o momento em que ele colocou a aliana em seu dedo, ao final da cerimnia simples, mal desviaram o olhar um do outro. Sua emoo foi profunda quando fez seus votos de amor e percebeu que Rozzano ficou com a voz um tanto embargada ao fazer os dele.
Feliz, ela levantou o rosto, enfim, para que Rozzano lhe erguesse o vu e a beijasse com ternura, prometendo-lhe o mundo. 
Marido e mulher, pensou, sonhadora. Marido e mulher...
Quando saram ao ptio para posar para os fotgrafos contratados, foram envolvidos por pessoas que os abraaram e beijaram. Todos pareciam amistosos... e genuinamente contentes com o casamento surpresa. Sophia sentiu um grande alvio em comprovar que os amigos de Rozzano eram bem diferentes dos de Enrico.
	Ora, voc no prestou ateno a nada do que eu lhe disse, no foi?  murmurou Letizia em seu ouvido com ar maldoso.  Aproveite enquanto pode. Ele dar suas escapadelas. Est no sangue. Fique de olho em Arabella. Esse  o meu presente de casamento para voc.
	Lamento que voc seja to infeliz  comeou Sophia, com gentileza.
	Eu? Eu moro num palcio, posso gastar o que quero... Voc enlouqueceu?
Sophia mordeu o lbio inferior, triste em ver tamanha mesquinhez no dia do seu casamento.
	As lanchas esto prontas, querida!  exclamou Rozzano, aparecendo a seu lado.  Deixe-me carreg-la at a nossa.
Cuidadosamente, ele sentou-a no estofamento de sua lancha, e logo ambos estavam  frente de um lento comboio. Agindo como batedores, policiais acionavam as sirenes de seus barcos e avisavam atravs dos megafones para que os paparazzi se afastassem.
O expansivo Mrio abraara a ambos antes de pegar o leme. De repente, comeou a cantar uma cano, sua bela voz de tenor ecoando pelo Grande Canal. Logo, o refro se espalhara por todo o comboio, at que quase todos estivessem cantando com ele.
	Jamais estive to feliz!  exclamou Sophia, com um suspiro de contentamento.
	Espere at o dia em que nosso primeiro filho tiver nascido.
JJm sbito nervosismo dominou-a, e ela o fitou ansiosamente.
	E se eu no puder ter filhos?
	Nem sequer pense nisso  murmurou Rozzano, devo rando-lhe os lbios com um beijo apaixonado.
Mas Sophia no pde evitar. Ele queria muito um herdeiro. Se ela no conseguisse lhe dar um...
Tal preocupao no se dissipou. Acompanhou-a, estragando a maravilhosa festa. Ainda assim, tentou provar ocasionalmente os inmeros canaps refinados e aceitou os beijos e congratulaes de seus amigos e dos dele. Ficou feliz em ver ali Frank Luscombe e a esposa, o homem responsvel por ambos terem se conhecido.
Ela observou tambm como os filhos dos amigos dele gostavam de Rozzano, atirando-se em seus braos e rindo, contentes. Por experincia prpria, pde ver a naturalidade com que ele lidava com as crianas, e no houve dvida de que as adorava.
Com certeza, ficaria inconformado caso no pudessem ter um filho. Nenhum herdeiro imediato para as fortunas dos Barsini e dos D'Antiga, nenhum beb para amar. Seu corao ficou apertado. Algo assim seria insuportvel no casamento de ambos.
Depois que deixou as crianas, Rozzano aceitou uma taa de champanhe de um dos criados e comeou a circular pelo salo, parecendo estar  procura dela.
Sophia estava prestes a erguer a mo para acenar-lhe quando ele deu a impresso de ter visto a pessoa que estivera procurando e comeou a caminhar entre os convidados naquela direo.
Seu desapontamento foi imediato. Ele no estivera procurando por ela, afinal.
	Ora, vejam s  disse Letizia, surgindo a seu lado inesperadamente, a voz maliciosa.  Parece que Rozzano est indo falar com Arabella, no? Eu deveria ter imaginado.
	E o que a faz pensar isso?  retrucou Sophia, irritada.
 No a estou vendo.
	Ela saiu pela porta que fica do outro lado do salo. Zano a seguir num instante.
Sophia sorveu um gole de sua bebida, recusando-se a se deixar abalar pela insinuao de Letizia.
	Engano seu. Rozzano no est interessado nela  respondeu, com frieza.
	Prove. Procure-o e voc a encontrar tambm...
	Eu confio nele. Rozzano me ama  revidou Sophia, zangada com a maledicncia da outra.
	Zano teve um nico amor em sua vida, a primeira esposa, e ela est morta. No arriscaria seu corao uma segunda vez.  um homem que foi criado para negar seus sentimentos. Enrico  me disse que o pai os repreendia severamente se demonstrassem alguma emoo em pblico. A me mal os via. Ficava em festas a noite inteira e dormia de dia. Nem Rico, nem Zano sucumbiro ao amor. Tm o braso dos Barsini no lugar do corao!
	No, voc est enganada. Se Enrico deixa algo a desejar, Rozzano, por sua vez, sabe amar muito bem...
	Oh, ele  um grande amante  disse Letizia, ferina.  Tem uma reputao e tanto nesse sentido.
	No vou mais ouvir isto!  protestou Sophia.  Vou provar que voc est enganada!  Furiosa, adiantou-se pelo salo para alcan-lo.
Letizia estava errada... era apenas sua mente distorcida que via desejo onde no existia nenhum. Rozzano era um homem srio. Todos ali o adoravam. No era possvel que estivesse enganando a tanta gente.
Era maravilhoso. O melhor. Era ntegro, bondoso, trabalhador e um fabuloso amante. E era leal.
Ainda assim, ela sentia os joelhos tremendo enquanto seguia pelo salo, corando com os gracejos gentis com que deparava a cada vez que perguntava onde ele fora.
De repente, estava sozinha, num corredor vazio, E podia ouvir as vozes alteradas de um homem e de uma mulher vindo de trs de uma das portas. Gelando de imediato, cruzou os braos em torno de si e aproximou-se na ponta dos ps da porta fechada.
	Oh, felizmente,  voc, Sophia!  disse a voz aliviada de Jenny atrs dela.
Sophia virou-se, embaraada.
	O que houve?
	Estou perdida. Fui procurar o toalete e vim parar aqui... Ei, quem est gritando assim?
	No sei  respondeu Sophia, evasiva, embora conhecendo a voz de Rozzano muito bem. Era bvio que perdera o controle.
Gritava em italiano, parecendo furioso. Receosa, disse a amiga:
	Bem, isto no nos diz respeito. Acho melhor irmos...
	Cus!  Jenny empalideceu, uma expresso horrorizada surgindo-lhe no rosto.  Oh, Sophia!  murmurou, levando a mo aos lbios.
Tremula, Sophia recostou-se na porta, enquanto Rozzano continuava esbravejando do outro lado e os olhos de Jenny, que estudara italiano, ficavam cada vez mais arregalados.
Ela mordeu o lbio inferior. Soubera que Rozzano tinha um temperamento explosivo, o qual conseguira lhe ocultar muito bem. O que mais teria conseguido esconder?
	O que foi?  perguntou  amiga ansiosamente.
	N-Nada! E melhor irmos, como voc disse...
	Voc ouviu algo terrvel! Eu sei!
Jenny parecia em pnico.
	No me pergunte!  implorou-lhe.

	Voc tem que me dizer!  Sophia segurou os ombros da amiga com fora e fitou-a com olhos marejados.  Conte-me, por favor! Voc  minha amiga.
	Eu no posso!
	Voc me deve isso! Ns comeamos na escola juntas. Sempre fomos to amigas, voc, Maggie e eu! Ns fazamos tudo juntas at que voc partiu para ir para a universidade.
No me desaponte. Conte-me por que ele est to zangado.
	Voc no vai querer saber...
	Eu quero. Voc no percebe? Sei que algo est errado e no vou ficar tranquila enquanto no descobrir o que !
A amiga baixou a cabea, murmurando:
	Voc desejar nunca ter perguntado.
	Mas estou perguntando. Por favor, fale!
Os olhos de Jenny encheram-se de lgrimas.
	E... Rozzano. Ele estava gritando que... Oh, cus! Que... que se casou com voc para conseguir um herdeiro. E disse que no ama voc e nunca amar.
	No!  Horrorizada, Sophia afastou-se dos braos estendidos da amiga.  Deixe-me  sussurrou, seu rosto uma ms cara de gelo.  Obrigada por ter-me contado. Prefiro saber a verdade.  De repente sentia-se entorpecida, quase paralisada com o choque.  No conte a ningum, nem mesmo a Maggie. Por favor, faa isso por mim.
	Oua, eu...
	No!  pediu Sophia, num sussurro angustiado. No queria compaixo, ou desmoronaria.  Eu estou bem  disse, tentando se recompor.  Por favor, v. Tenho que esclarecer isto com ele e com quem quer que esteja ali dentro.
Aguardou at que a amiga se afastasse chorando. Apenas um misto de orgulho e teimosia a mantinha de p e a fez virar-se para a porta. Antes que pudesse tocar a maaneta, porm, a porta se abriu e, para sua surpresa, Enrico saiu, apressado.
Plido e trmulo, fechou a porta atrs de si.
	Sophia!  exclamou, perplexo.
	O que estava fazendo ali dentro?  perguntou ela, aturdida.
	Eu... eu...
	Sei que Rozzano est l. Eu o ouvi. No tente acobert-lo. O que ele est fazendo? Com quem est?
Enrico estreitou os olhos maliciosamente.
	Eu... estava trocando uma palavra com ele. Achei que... Zano deveria estar com seus convidados, com voc e... ningum mais.  A explicao hesitante de Enrico logo se tornou mais rpida, como se tivesse ficado mais confiante.  Meu irmo gritou comigo porque eu o interrompi no meio de...
	Est certo!  Ela j entendera. No precisava de descries.  Deixe-me passar  sussurrou, plida.
	Voc no pode entrar l...
	Deixe-me passar, sim!
Ele deu de ombros.
	Se voc insiste.  Lanou-lhe um olhar compadecido.  Eu fiz o que pude. Acho que voc tem o direito de saber o que ele est fazendo no dia de seu casamento.
Sophia engoliu em seco. Suas pernas tremiam tanto que no sabia como conseguiam sustent-la.
	Exato. Afaste-se da porta.
	Por que voc no d uma espiada sem que ele saiba? Permita-me.  Com uma expresso de grande preocupao no rosto, Enrico entreabriu a porta em silncio e fez-lhe um gesto para que espiasse pela fresta.
Com o corao aos saltos, Sophia olhou para o interior da saleta. E seu mundo desabou.
Rozzano estava de costas para a porta. Entregava um par de meias de seda a Arabella, que usava apenas um provocante conjunto de lingerie vermelha, o vestido cado a um canto, sobre o carpete.
Sophia fechou os olhos em extremo desespero. Por vrios segundos, nada aconteceu em seu ntimo, a dimenso da traio dele deixando-a incapaz de se mover ou de falar.
Ento, foi como se seu crebro voltasse a funcionar, torturando-a, dizendo-lhe que tudo entre ambos fora uma mentira. Os olhares ternos, as carcias, as declaraes apaixonadas de amor...
Contendo um soluo, conseguiu finalmente virar-se, no instante em que Arabella passava a mo pela cintura de Rozzano. Ela no queria testemunhar sua infidelidade. Enrico fechou a porta silenciosamente. Nauseada, deixou-o conduzi-la at o final do corredor, onde desabou numa cadeira.
Querendo gritar, levou a mo aos lbios, enterrando os dentes nos ns dos dedos, o punho cerrado. Fizera o papel de tola... repetidamente! Rozzano a persuadira a casar mesmo sabendo o que o casamento significava para ela, quanto era sagrado e especial! No conseguia acreditar que algum pudesse ser to bonito e convincente por fora e to traioeiro e perverso por dentro.
	Sinto muito  disse-lhe Enrico.  Eu fiz o que pude, mas todos pensam que ele  algum tipo de semideus...
	Eu sei. E mais tolos somos ns!  Marejados, os olhos de Sophia faiscaram.  No lhe diga que estive aqui  avisou, veemente.  No quero que ele saiba. Ainda.
	No, no  prometeu Enrico de imediato.  Ser o nosso segredo.
	E no conte a ningum mais. Meu av morreria de desgosto se soubesse.  Em sua raiva, ela agarrou as lapelas do palet de Enrico.  Voc entendeu bem? Nada de falatrios, nem uma palavra sobre isso, ou voc vai se arrepender de ter nascido!
	Nem uma palavra  concordou ele, assustado.  E o que voc vai fazer?
Sophia ergueu o queixo com dignidade. Rozzano destrura seus sonhos e, portanto, merecia o pior.
 simples  respondeu, ressentida.  Vou arruinar os planos dele.

CAPTULO VIII

Eles viajaram no jato executivo de Rozzano, I saindo de um pequeno aeroporto particular em Lido e chegando ao destino pouco tempo depois. Ele oferecera-lhe a escolha de passar a lua-de-mel em qualquer lugar do mundo. Ela pedira para ficar no palcio de vero de Rozzano, que datava do sculo dezesseis, uma vila na regio de Vneto.
A vila soara bastante romntica, e Rozzano lhe assegurara que a discreta criadagem lhes propiciaria total privacidade.
Por um breve momento durante a festa, ela quase dissera a Rozzano que fosse sozinho, exigindo que a deixasse no Ca' D'Antiga. Mas logo imaginara a surpresa do av e as perguntas que faria. Teria sido incapaz de mago-lo daquela maneira, sabendo quanto ele adorava Rozzano.
O bom homem jamais deveria saber que havia algo errado naquele casamento. O corao de Sophia ficou apertado. Aquilo significava que, para o bem do av, enquanto fosse vivo, ela teria suportar uma mentira. A perspectiva era desoladora.
Enquanto seguiam de carro pelos imensos portes de ferro em direo  vila, a ideia de estar a ss com Rozzano dia aps dia deixou-a horrorizada. Sem amor, sem a profunda amizade que achara que partilhavam, os longos dias e noites se arrastariam.
 No demoraremos a chegar, querida  disse-lhe ele, num tom alegre, alheio a seus pensamentos sombrios.
Sophia forou um sorriso e meneou a cabea. O nico consolo era o de que a lua-de-mel seria curta. Ambos haviam estado ansiosos para iniciarem a vida de casados no Palcio D'Antiga. Sentiu uma intensa opresso no peito. Tivera tanto sonhos para o futuro. Agora seu casamento no passava de fingimento.
A paisagem ao redor tornou-se um borro enquanto tentava ordenar os pensamentos. Esforou-se para se recobrar, enquanto Rozzano lhe apontava com entusiasmo os vastos gramados, o lago, o bosque onde costumara se esconder quando o pai lhe batera, a bonita vista ao longo do vale...
	Seu pai batia em voc?  perguntou-lhe, prestando ateno de repente quele detalhe.
Ele fez uma careta.
	Eu tendia a ser extrovertido demais para o gosto do meu pai, pronto demais a demonstrar como eu me sentia.
Uma criana que sofria agresses geralmente se tornava violenta com os outros...
	E o que... sua me pensava disso?
	Eu no sei. Ela apoiava meu pai em tudo  respondeu ele, como se aquela fosse a coisa mais natural do mundo.
	Ela amava voc?  quis saber Sophia, perguntando-se com nervosismo o que Rozzano faria quando se recusasse a dar-lhe um herdeiro. Observou-lhe a fora dos braos e ombros e engoliu em seco.
	No fao ideia. Eu mal a conhecia.
Aquela era a primeira vez que ele falava da me. At ento, sempre mudara de assunto. Curiosa para entender o relacionamento entre me e filho, Sophia perguntou:
	Ela abraava e beijava voc?
	Nunca. Mas eu tinha bastante afeio de minha bab e professora inglesas. A maioria dos aristocratas contrata tutores ingleses para seus filhos.  por isso que todos falamos to bem o idioma. No se preocupe  disse-lhe ele, afagando-lhe a mo.  No seremos pais distantes para nossos filhos.
	No, no seremos.  Ela deixou de acrescentar que no haveria filhos. Mordeu o lbio inferior, temendo o momento em que teria que lhe contar.
Refletiu sobre a maneira como ele fora criado, como aquilo o tornara o homem que era, refinado e tranquilo por fora, mas reprimido e zangado em seu ntimo, com total desconsiderao pela ideia de que devia existir amor num casamento.
Ela estremeceu, arrependida de no ter dado ouvidos a Letizia. Mas estava feito. Casara-se e teria que se preparar para um tipo diferente de casamento do que aquele que esperara. Talvez, pensou, com amargura, fosse melhor no continuar sonhando e devaneando, para nunca mais ser desapontada pela realidade.
Plida, desceu da limusine, sua tenso diminuindo ligeiramente enquanto admirava a bela construo. Possua um ar clssico romano, com graciosas colunas, cpulas e um prtico. 
Naquele momento, ela compreendeu como Rozzano estava arraigado na histria. Cada passo que dava fora traado por seus antepassados.
Era surpreendente que preservar o passado tornara-se mais importante para ele do que viver o presente. A seu ver, a sobrevivncia da famlia como instituio vinha em primeiro lugar, qualquer que fosse o custo. Vira-se at obrigado a sacrificar a prpria liberdade para se casar com ela. Sophia deu-se conta de que entregara sua confiana e corao a um homem que no os merecia.
Ele ficaria furioso quando soubesse que seu sacrifcio fora em vo.
No momento, Rozzano era todo sorrisos enquanto os criados o abraavam como se fosse um filho. Mais uma vez, Sophia forou um sorriso. Tambm foi envolvida por abraos e cumprimentos calorosos e, vida por afeto, retribuiu a todos com genuna satisfao.
Enfim, com um largo sorriso, Rozzano ergueu-a nos braos e carregou-a at a porta de entrada ao som de aplausos. Todos o adoravam, pensou ela, mortificada. Ser que o homem no mostrava seu lado sombrio a mais ningum?
Estremeceu enquanto ele continuava carregando-a por uma ampla escadaria de mrmore.
	Voc est bem, querida? Parece estar tremendo.
Preocupado, Rozzano apressou-se, levando-a at a sute nupcial. Segurou-a pelos ombros depois que a depositou com gentileza no cho.
	Estou com frio  disse ela, tentando vencer o nervosismo.
	Eu a aquecerei.
	No!  Sophia recuou alguns passos, seu olhar assustado.
	Mas querida...  disse ele, persuasivo, enquanto se aproximava.
	No chegue mais perto!  exclamou Sophia, em pnico.
Rozzano ergueu as mos, permanecendo no lugar.
	Por que voc no toma um banho relaxante?  sugeriu.  Eu tomarei uma chuveirada e ns poderemos...
	Sim. Um banho.
	Pobrezinha! Foi um dia e tanto! Voc estava maravilhosa. Quando a vi chegando em seu vestido de noiva, estava to linda que achei que meu corao...
	Vou tomar aquele banho  interrompeu-o ela.
	Claro.  Rozzano puxou-a para si e beijou-a nos lbios longamente.  Assim est melhor. Vejo voc logo. O banheiro  ali. Todas as suas coisas esto prontas para voc.

CAPITULO IX

Fechando as torneiras da banheira, ela encontrou seu leo de banho favorito numa elegante mesa georgiana e acrescentou-o  gua, empenhando-se ao mximo para ignorar sua delicada camisola de renda e penhoar que aguardavam numa cadeira prxima. Tambm haviam sido escolhidos com tanto cuidado. Tanta alegria...
Ela entrou na banheira e olhou ao redor, franzindo o cenho. Pinturas a leo enfeitavam as paredes, romnticos candelabros de prata iluminavam o lugar, um lustre central em vidro veneziano refletia as cores do arco-ris atravs de suas reluzentes gotas de cristal. At mesmo o maldito banheiro era repleto de relquias do passado!, pensou, amarga. E ela se tornara apenas mais uma parte na tradio Barsini. Um mquina de fazer bebs.
	No desta vez!  resmungou em rebeldia aos ancestrais que a observavam dos quadros.
Afundou na gua do banho, triste e zangada ao mesmo tempo. Vez ou outra sentia frio e emergia, acrescentando  gua um pouco mais dos leos sutilmente perfumados que passara a adorar. Poderia se dar quele luxo pelo resto de sua vida. Mas aquilo no valia de nada sem o amor de Rozzano.
O amor pelo qual ansiava deveria vir de outro lugar. De crianas. Voltaria  sua antiga vida e cuidaria dos no privilegiados... mas daquela vez teria o dinheiro para financiar seus planos.
	Sophia?
	No estou pronta!  exclamou ela, numa voz rouca.
	Mas eu estou.
A porta se abriu. Rapidamente, Sophia afundou na gua perfumada enquanto ele entrava. Arregalou os olhos. Rozzano usava apenas uma toalha em torno da cintura e nada mais. Apesar de todo o desgosto que a consumia, ela ficou chocada em se dar conta de que ainda o desejava.
Tinha que lhe dizer o que pensava. Antes que fosse tarde demais.
	Fiquei me perguntando se voc estaria bem.
	Eu... estou com uma terrvel dor de cabea  murmurou ela, fechando os olhos.
	No  de surpreender. Eu lhe farei uma massagem. Venha. Eu a ajudarei a sair e a deitarei na cama...
	No, eu...
Sophia ficou com a respirao em suspenso e abriu os olhos de repente quando sentiu a mo forte tocando seu seio. Um gemido escapou-lhe dos lbios antes de poder cont-lo, e Roz-zano beijou-lhe a boca languidamente, ao mesmo tempo acariciando-lhe o seio ensaboado, fazendo1a estremecer de desejo.
	Voc est me provocando?  sussurrou-lhe.  Acho que est, danadinha! Vou faz-la arrepender-se disso.
Rozzano percorreu-lhe todo o corpo com mos ansiosas, numa doce tortura, e ela no pde evitar seno abra-lo. No demorou a ser erguida da banheira e carregada at a cama.
Toda a vez que tentava falar, ele a silenciava com beijos famintos. Entre os lenis de seda, Sophia retribua, querendo-o com uma paixo que a assustava, odiando seu corpo fraco que a traa daquela maneira.
O contato das mos experientes em seu corpo molhado e febril a enlouquecia de frustrao. Quando o fitou nos olhos, ficou chocada em ver que Rozzano ainda conseguia fingir que a amava. Furiosa com aquela dissimulao, sentiu-se impelida a mover seu corpo freneticamente sob o dele para obter algum tipo de alvio fsico porque sabia que permaneceria virgem e sem filhos para sempre. E aquela terrvel injustia magoava alm do tolervel.
Tensa, soltou um gemido involuntrio de desespero que o fez gelar.
	O que foi, minha querida?
Soluando, Sophia esmurrou-o no peito, sentindo-se vazia e envergonhada do fato de ainda poder am-lo a despeito de tudo o que sabia.
	Eu odeio voc!  gritou, histrica, debatendo-se quando ele lhe segurou os pulsos acima da cabea. Assustada e vulnervel, observou-lhe o rosto chocado e deu-se conta de que a vingana no era doce, afinal. Era pura agonia.  Por favor, no me machuque! Deixe-me em paz!
Quando o viu contraindo o semblante, mas no lhe dando nenhuma resposta, soltou um suspiro trmulo e disse num tom glacial:
Solte-me. Est tudo acabado entre ns.
Rozzano tentou falar, mas parecia perplexo demais.
	Traidor! Solte-me! Solte-me antes que eu grite sem parar e acabe arruinando a sua maldita reputao.
Como um autmato, Rozzano obedeceu. Apanhando o robe, vestiu-o e fitou-a como se estivesse num pesadelo.
	Eu no entendo.
	No mesmo?  Ela sentou-se na cama, cobrindo-se depressa com o lenol.
	No.  Confuso, ele passou a mo pelos cabelos negros.
 Explique-me! O que pensa que est fazendo?
	E simples. Pense. Qual  o seu pior pesadelo?
	Que voc deixe de me amar.
Sophia quase vacilou. Ele era to eficaz, to rpido em dar a resposta certa que a teria convencido se no houvesse sido pela prova irrefutvel que tivera diante de seus olhos quando o flagrara com Arabella.
	No  revidou ela, amarga. Seu pior pesadelo  no ter filhos. Tudo o que voc quer de mim  um herdeiro. Esse  o seu sonho, no ?
Havia uma profunda frieza no rosto de Rozzano agora.
	Voc sabe que quero que tenhamos filhos - respondeu, num tom desprovido de emoo.
	Voc os quer tanto que venderia a alma ao diabo para obt-los, no ?
A raiva se evidenciou no olhar dele antes de tornar a ficar velado.
	No sei o que quer dizer.
	Sabe, sim! Pois preste ateno ao que lhe digo. Nunca terei o seus filhos. A menos que voc pretenda me violentar!
Rozzano sentiu um latejo na cabea, as palavras atingindo-o como se fossem um golpe fsico, o passado voltando para destru-lo. No pde falar, nem se mover. Aquilo no podia estar acontecendo, disse a si mesmo, lutando por sua sanidade. No outra vez.
Seu crebro recusava-se a funcionar. Havia apenas o terrvel pesadelo, preenchendo-lhe a mente com intolervel insistncia. Foi-lhe necessrio um tremendo esforo para lutar contra aquilo e voltar  normalidade. Respirou fundo algumas vezes, cerrou os punhos ao longo do corpo at que se sentiu pronto a mostrar alguma compostura, apesar do medo em seu corao.
	Muito bem  disse, num tom soturno, virando-se para fit-la.  Que mentiras Enrico andou espalhando agora?
Enrolada no lenol, ela se levantou e vestiu o roupo de banho, querendo colocar algum distanciamento entre ambos.
	Nenhuma.
	Ento...
	Eu vi voc! Despindo Arabella na minha festa de casamento!
	Mas como...
	E o que importa a maneira como foi? Voc estava fazendo amor com ela poucas horas depois do nosso casamento? Seu desprezvel! No podia ter sido mais discreto? Voc no podia ter fingido que estava feliz com o casamento?
	Eu no fiz amor com ela!  retrucou Rozzano, atnito com o que ouvira.  Eu estava lhe dizendo que se vestisse...
	Mentiroso!
	 verdade, droga!
	No foi o que me pareceu! E pode negar quanto quiser que no acreditarei em voc. Eu nunca deveria ter-me tornado sua esposa. Mas voc teceu a sua rede de mentiras e me conquistou com sua fala macia como faz com todo mundo. Conseguiu sua esposa. No precisou se preocupar com o fato de se tratar de uma caadora de fortunas. Infelizmente, ela no aprova o tipo de homem que voc  e no o ama em absoluto!
	Voc me deseja.
	Se pensa que vou dormir com voc apenas pelo sexo, no me conhece nem um pouco!
	E por que no? Voc quer filhos!  retrucou ele antes de poder se conter.
Seu bruto!  exclamou ela  beira das lgrimas.
Rozzano estava furioso consigo mesmo por falar sem pensar.
Mas deu-se conta de que estivera com a esperana de conseguir lev-la de volta para a cama, onde talvez pudessem resolver suas diferenas.
	Temos desejos em comum  disse, mais controlado.
	Sim. Eu adoraria ter filhos! Foi voc quem me roubou essa alternativa. Agora, terei que me contentar em cuidar dos filhos de outras pessoas, trabalhando num orfanato, abrindo um, talvez. Servir de algum consolo... mas no ser o que eu quero!
	Ento, volte para a cama comigo.  Ele percorreu-a de alto a baixo com um olhar que evidenciava seu desejo.  Ambos estamos cansados. Para manter as aparncias, temos que dormir neste quarto. Deite-se nos meus braos e vamos conversar sobre isto.
	No! Eu j decidi como quero que seja o nosso futuro.
	Oh,  mesmo?
	Em pblico, seremos como qualquer casal normal e feliz de recm-casados. Apenas pelo bem do meu av. No pela honra de sua famlia ou pelo seu maldito orgulho!
	E como ser em privacidade? -^ perguntou Rozzano, uma terrvel frieza percorrendo cada veia de seu corpo.
	Voc no me tocar. Nada de sexo. Nem de carcias maliciosas. Nada! E voc no se envolver mais nos negcios dos D'Antiga de agora em diante. Voc tem seus prprios negcios para cuidar. Eu pretendo me dedicar a obras assistenciais, em especial trabalhar junto a orfanatos. Esse ser o meu futuro. Quanto ao seu, poder fazer o que bem entender, desde que no magoe meu av. Agora, talvez voc queira pegar um travesseiro e se acomodar no sof.
Rozzano a observava em estupefao. Ela j pensara em tudo. Os olhos cinzentos o fitavam com dio cortante e determinao. Mas ele tinha que fazer um esforo final:
	Eu me casei com voc com uma coisa em mente...
	Sim! O futuro do cl dos Barsini! Uma unio entre fortunas. Bastante conveniente. Bem, pois eu j estou farta dessa sua devoo cega  tradio, ao passado...
	No posso evitar. Eu vivo com isso, dia aps dia.
	Eu sei. Voc est to envolvido em seu nobre passado que se esquece de viver no presente...
	No.  Ele avanara trs passos e parava diante dela antes que se desse conta do que fazia. Torturado pela beleza daquele rosto angelical, endureceu o olhar para no se trair.  Eu honro o passado, mas vivo para o presente. No seria bem-sucedido nos negcios do contrrio. Esta questo entre ns tem a ver com confiana. E voc no confia mais em mim, no ?
	No. Porque eu compreendi que voc coloca a sua dinastia acima de qualquer coisa.
	No  verdade! Quem quer que tenha lhe dito...
	Oh, pare!  gritou ela, tapando os ouvidos com as mos.
 No vou escutar mais as suas srdidas mentiras.
Ele percebeu que Sophia chegara a seu limite. No dia seguinte, estaria mais calma. E ele descobriria de que maneira haviam envenenado a sua esposa.
Sem uma palavra, apanhou um dos travesseiros da cama, atirando-o no sof. Pegou tambm uma colcha e deitou-se, preparando-se para passar a noite. Ou melhor, ficaria ali apenas at que ela adormecesse. No tinha a menor inteno de passar sua noite de npcias de qualquer outra maneira que no fosse a planejada: fazendo amor com sua esposa.
Embora estivesse cansada, Sophia no conseguiu conciliar o sono. Repassou em detalhes os eventos do dia, que tinha comeado maravilhoso e terminado num verdadeiro pesadelo.
Foi somente um longo tempo depois que ouviu Rozzano se mexendo. Contendo a respirao, manteve-se atenta. Os passos dele se aproximavam. A vida voltou a seu corpo entorpecido, que exigia agora que satisfizesse seus anseios, deixando-a desesperada com a possibilidade de sucumbir ao desejo por aquele homem. O colcho afundou a seu lado.
	No me toque!  avisou, encolhendo-se.
	Esta  a minha cama  retrucou ele.   aqui que vou dormir!
Sophia afastou-se at a beirada da cama e permaneceu ali, tensa. Acabou adormecendo de madrugada. Dando-se conta daquilo, Rozzano aproximou-se, observando-a sob o luar que se filtrava pelas janelas. Seu corao disparava no peito. Talvez sentindo a tenso que se irradiava dele, ela virou-se para fit-lo, os olhos cinzentos parecendo repletos de amor. Surpreendentemente, abriu um sorriso e tocou-lhe os lbios com a ponta dos dedos.
Mal se atrevendo a respirar, Rozzano afastou o lenol, esperando ser contido a qualquer momento. Mas no foi. Tomado pelo desejo, correu os olhos com vagar pelas curvas graciosas daquele corpo feminino, fascinado com sua beleza. Ela continuou no fazendo nenhum gesto para desencoraj-lo. Amava-o, pensou ele, esperanoso. Tudo ficaria bem.
Precisou de grande esforo para reprimir o fogo que o consumia. Queria beij-la com paixo, torn-la sua esposa de verdade... Em vez daquilo, apenas roou seus lbios pelo ombro e pescoo dela, inalando sua deliciosa fragrncia.
Sophia aceitou os beijos hesitantes, emitindo gemidos abafados de prazer que o deixaram bastante aliviado. Cuidadoso, ele tocou-lhe o seio arredondado, o mamilo se enrijecendo sob seus dedos. A onda de desejo foi avassaladora, impedindo-o de se conter, e puxou-a para seus braos, tomando-lhe os lbios com um beijo impetuoso.
Sophia respondeu de imediato, tomada por idntica paixo, enquanto ambos rolavam na cama num ntimo abrao. De repente, quase tarde demais, ela se deu conta de que jamais deveria sucumbir aos desejos do corao e de seu corpo. Tinha que se deixar governar por sua mente. Nada mais. Seu marido a havia trado!
	No! Pare!  exclamou, veemente, conseguindo se desvencilhar do abrao.  Deixe-me em paz!
	Mas... Voc no pode fazer isso comigo!  protestou ele, frustrado, ofegante, os olhos ainda repletos de desejo.  No pode me encorajar para depois... Eu no entendo! Nunca achei que voc iria me provocar desse jeito!
Chocada, Sophia abraou o prprio -corpo, dor refletindo-se e seus olhos. Mais alguns momentos, e ele teria consumado o casamento.
	Voc no pode dormir na mesma cama que eu!  retrucou, em parte zangada e em parte angustiada por seu amor impossvel por aquele homem.  No vou permitir que me aborde dessa maneira e me violente no meio da noite! Eu no...
	Basta! Se pensa isso de mim...
Com uma expresso atormentada no rosto, ele se levantou e vestiu o robe, andando de um lado ao outro do quarto, evidenciando quanto estava furioso.
	Ento, est acontecendo de novo!  disse de repente, num tom rancoroso.
Cobrindo-se com o lenol, ela franziu o cenho, confusa.
	O qu?
	Voc no sabe. Ningum sabe. No tenho o hbito de contar ao mundo os meus segredos. Especialmente minha humilhao...
	Voc mesmo  o culpado!
	Por ter-me casado outra vez?  Ele soltou um riso amargo.  Talvez. Mas eu no esperei que minha segunda esposa me banisse da cama. Ao menos, Nicoletta deixou que eu fizesse amor com ela na nossa noite de npcias e durante algum tempo depois.
Sophia fitou-o com um olhar faiscante.
	Ela no aprovava a sua infidelidade? O que voc esperava?
	Minha infidelidade? Longe disso. A dela! Nicoletta me baniu da cama porque no queria ter filhos para no estragar as formas de seu corpo  contou ele, desprezo em sua fisionomia.  Sem que eu soubesse, ela abortou o primeiro filho e no deixou que eu a tocasse depois disso.
Sophia achou que ele estivesse mentindo, embora no fizesse ideia do motivo.
	Acho que voc est se esquecendo de algo. Ela tornou a engravidar... foi por isso que morreu. Vocs devem ter estado juntos como marido e mulher...
	No  interrompeu-a ele, lvido, o olhar carregado de dor.  Nicoletta teve um caso com Enrico.
Sophia levou a mo aos lbios, horrorizada.
	O filho era do meu irmo. Fora um erro, disse-me ele.
Ela tentou fazer um aborto em segredo numa clnica clandes tina na Amrica do Sul. E morreu.
O silncio foi arrasador. Rozzano mantivera aquele segredo guardado dentro de si, fingindo que tudo estava bem entre Enrico e ele pelo bem da... maldita famlia. Sophia soltou um suspiro trmulo. Como poderia dizer o que sentia? Como dizer que sentia compaixo, que no podia imaginar como ele conseguira viver dia aps dia, sabendo que seu irmo matara indiretamente a sua amada esposa?
	Eu no sei o que dizer  sussurrou.   difcil demais amar algum e ser trado...
	Eu no a amava mais quela altura. Eu havia descoberto como ela era vazia e egosta. Bem, Sophia, parece que a histria est se repetindo. Desta vez, porm, eu me recuso a deixar que uma mulher destrua minha vida. Faa o que bem entender.
No tentarei fazer amor com voc outra vez. 
Ao menos, pensou Sophia, quase ao final da semana, Rozzano cumprira sua palavra. Com o semblante controlado, definira as regras. Como ela sugerira, deveriam demonstrar afeio em pblico. Durante a lua-de-mel, ele fingiria que a estava ensinando a andar a cavalo. Quando estivessem longe de casa, iria deix-la sozinha para fazer o que desejasse. Ele voltaria depois de sua cavalgada e chegariam a casa juntos. Rozzano dormiria no sof. E, finalmente, quando regressassem a Veneza, conversariam sobre o futuro em detalhes.
Tendo se alimentado mal, dormido pouco e experimentado uma tenso crescente naquela semana, Sophia sentia-se exausta. Era o ltimo dia de ambos na vila e estivera fazendo uma caminhada durante duas horas, punindo o corpo numa tentativa de bloquear os pensamentos em sua mente.
Ouvindo o som de galope, levantou-se do tronco de rvore cortado onde estivera aguardando, pretendendo montar em seu cavalo agora. Antes que pudesse faz-lo, foi dominada por sbita tontura e segurou-se a uma rvore.
	Voc no est bem?  perguntou Rozzano, num tom preocupado. Desmontara de seu cavalo num instante e aproximara-se para segur-la.
	No, acho que me levantei depressa demais.
	Voc no tem se alimentado direito. Precisa de uma boa refeio.
Sentindo-se fraca, ela recostou a cabea no tronco da rvore.
	 isso. Eu no jantei ontem  noite, nem fiz o desjejum hoje. Ficarei bem assim que tiver...
A voz dela morreu-lhe na garganta. O hlito quente de Rozzano de encontro a seus lbios fez com que os entreabrisse num convite instintivo.
Ficaram parados ali pelo que pareceu uma eternidade, ele pressionando-a de encontro a rvore com seu corpo, seu calor e fora extremamente desejveis. Ela sentia-se fraca demais para lutar contra as exigncias de seu corao e manteve-se naqueles braos.
Por um breve momento, ele tomou-lhe os lbios com um beijo faminto, fazendo-a vibrar por inteiro. Ento, deu um passo atrs e limpou a boca com as costas da mo como se tivesse se contaminado.
	Cavalgarei de volta a casa sozinho hoje  anunciou, a raiva evidenciando-se nos traos de seu rosto bonito.  Mandarei um tratador do estbulo vir busc-la.
	No. Irei agora.
Sophia ficou frustrada, pois ele ainda teve que ajud-la a montar. Retornaram em silncio. Num dia daqueles, pensou ela, iria sucumbir a um momento de fraqueza. E odiaria a si mesma para sempre.
Como de costume, ambos permaneceram abraados, conversando com o tratador de cavalos. Depois, de algum modo, ela conseguiu manter as aparncias de esposa feliz enquanto almoavam, ele forando-a a se alimentar. Finalmente, viu-se livre para andar pelo jardim sozinha. Na privacidade da casa de vero, abriu uma das janelas adornadas com cortinas de renda para deixar entrar o ar e sentou-se numa confortvel poltrona ao lado, tentando se concentrar em seus planos para o orfanato.
At que ouviu Arabella, chamando o nome de Rozzano.
Ele se virou abruptamente na direo da voz. Quisera encontrar Sophia, saber como estava, e ali se achava Arabella... a causa de seus problemas! Recostou-se na varanda da casa de vero e estreitou os olhos para observ-la.
	Que diabos voc est fazendo aqui?  perguntou, numa voz rspida.
Ela pareceu assustada, mas aproximou-se assim mesmo.
	Eu vim me desculpar.
	Pelo qu? Por ter seduzido meu irmo no dia do meu casamento? Ou por ter sido uma das amantes dele durante os ltimos dois anos?
	Tenho sido a nica amante dele nos ltimos seis meses. Sei o que pensa de mim, Rozzano. Eu realmente tentei fazer o que voc mandou... prevenir escndalos fingindo um interesse em qualquer outro homem que no fosse Enrico. Letizia se deixou convencer. Ela achou que eu estivesse interessada em voc.
	Ela  sua amiga  lembrou-a ele, com frieza.  Como pde engan-la, Arabella?
	No  culpa minha se amo Enrico. No planejei magoar ningum. Mas lamento muito pelo que ele e eu fizemos no seu casamento. Estvamos um tanto embriagados, mas, ainda assim, sei que foi imperdovel.  Ela baixou a cabea.  Eu me senti envergonhada quando voc entrou naquela saleta e ficou me entregando minhas roupas, como se nem sequer acreditasse que eu me vestiria sem superviso.
	Se eu no tivesse entrado e os impedido  disse Rozzano, com desprezo , vocs dois teriam cometido adultrio na casa de Alberto. Como puderam? Vocs eram convidados no meu casamento...
	Sim, mas seu irmo e eu somos loucos um pelo outro! Perdoe-nos, mas ns nos amamos. Eu vim me despedir. Enrico e eu vamos partir para vivermos juntos.
Ele soltou uma exclamao surpresa.
	E quanto a Letizia?
	Ela s se importa com dinheiro. Enrico a deixar muito bem financeiramente. E talvez Letizia acabe encontrando algum a quem ame tambm. E melhor do que viver uma mentira. Voc tem que admitir isso.
Rozzano no lhe encontrou o olhar porque sabia que ela tinha razo.
	Voc sabe que meu irmo no consegue ser fiel  avisou-a, comeando a achar que talvez Arabella fosse a mulher certa para Enrico com sua coragem e determinao.
	Eu sei. Estou disposta a correr o risco. Ele no  forte, como voc. Mas poucos homens conseguem ser. Voc  bom demais para que seu irmo possa super-lo. Talvez, na Inglaterra, Enrico pare de tentar provar que pode fazer algo melhor do que voc e aprenda a ser ele mesmo. Farei de tudo para que sejamos felizes. Um dia voc ter orgulho do seu irmo. Eu lhe prometo. Apenas lamento que voc no tenha encontrado algum para amar...
Rozzano contraiu o semblante.
	No acredite em tudo que ouve.  De repente, quis se livrar de todas as mentiras, das aparncias que mantivera sua vida inteira.  Arabella, sei que no dia do meu casamento eu disse a voc e a Enrico que no amava Sophia. Mas eu menti para proteg-la. Eu... amo Sophia mais do que a minha prpria vida. Achei que se Rico soubesse disso, ele a magoaria apenas para me atingir. Assim, eu disse que havia me casado com ela apenas porque era adequada e porque eu queria um herdeiro. Mas, na verdade, Sophia  a pessoa mais importante para mim deste mundo. Eu a valorizo acima de tudo.
	No entendo os seus motivos para mentir, mas fico contente. Talvez ambos os irmos Barsini sejam felizes, finalmente  desejou Arabella. Beijou-o na face, despedindo-se.  Adeus. Seja feliz.
Rozzano permaneceu ali sozinho por um longo tempo, seu corao apertado. "Seja feliz". Como se fosse to fcil...
Cobriu o rosto com mos que tremiam incontrolavelmente. Era um alvio que ningum pudesse v-lo naquele estado. Respirando fundo, enxugou uma lgrima que lhe escorreu pelo canto do olho. Desistira de procurar Sophia. Do que adiantaria? No podia se submeter a tamanha tortura outra vez. Cada segundo na companhia dela sem poder toc-la era pura agonia. Mal podia esperar pelo dia em que comeariam a levar vidas separadas.
Arrasada, Sophia observou-o atravs das pesadas cortinas de renda. Ele mentira para Enrico porque temera que o passado se repetisse e que o irmo tentasse seduzi-la.
Ela injustiara Rozzano terrivelmente. Quase destrura a ambos. Paralisada com o choque, sentia a emoo provocando-lhe um n na garganta. Era to forte e doloroso que no conseguia encontrar a voz para cham-lo e impedi-lo de se afastar como se carregasse o mundo nas costas.
Ele a amava. Arabella nunca estivera interessada nele... nem Rozzano por ela. Tudo o que ele dissera fora verdade, mas ela no lhe dera ouvidos. Tomada pela dor, acompanhou-o com o olhar enquanto ele caminhava ao longo do lago.
Talvez fosse capaz de perdo-la. Recobrando-se do choque, Sophia se levantou e deixou rapidamente a casa de vero, seguindo-o.
	Rozzano!  gritou, enquanto corria.  Pare, por favor!
Ele se virou, apreensivo.
	O que aconteceu? Quem machucou voc?
	Eu me machuquei!  soluou ela quando o alcanou, lgrimas rolando-lhe pelas faces.
	Onde?  perguntou ele, franzindo o cenho.
	Aqui.  Sophia pousou a mo no peito sobre o prprio corao.  E machuquei voc...
	Achei que voc tivesse se ferido. Pare com o drama e deixe-me em paz!
Ofegante e abalada, Sophia esforou-se para controlar as lgrimas e falar com coerncia.
	Mas...
	Deixe-me, sim? Saiba perceber quando no a querem!
 Voc me quer!  exclamou ela, segurando-o pelo brao.
Rozzano soltou o brao, mas no disse nada, um ar grave em seu rosto.
	Eu quero voc  sussurrou Sophia, vendo que o afetou de algum modo apesar do semblante indecifrvel.
	O que est tentando fazer?  Ele soou feito um animal ferido, os olhos negros repletos de dor.
Fitando-o, ela soube que havia apenas uma maneira de provar que confiava nele. Lentamente, comeou a desabotoar sua blusa.
Conseguiu despertar-lhe a ateno. Rozzano observou-a com um ar cauteloso, como se desconfiasse que s queria tortur-lo. No fez nenhum gesto para toc-la.
Sophia no deixou de fit-lo por um instante sequer. Despindo a blusa em meio ao arvoredo junto ao lago onde haviam parado, viu-o enrijecendo o maxilar e soube quanto lhe custava manter-se indiferente. A blusa deslizou at o cho. Ela abriu o fecho do suti, removendo-o tambm e viu-o contendo a respirao.
Desesperada para reconquistar-lhe o amor e o perdo, esqueceu-se da natural inibio enquanto abria seu jeans. Aquilo tinha que dar certo. No podia deix-lo dar-lhe as costas movido pelo orgulho e arruinar o futuro de ambos.
Ele observava-a, mas continuava mantendo alguma distncia, como se ainda no lhe depositasse sua confiana.
Sophia sentiu o pnico dominando-a. Teria que seduzi-lo. Despindo o jeans, atirou-o de lado e ficou apenas com uma calcinha de renda vermelha, os seios expostos, os mamilos rijos, o desejo percorrendo-a por inteiro. Seu corpo estava pronto para ele e devia deix-lo saber.
	Faa amor comigo  murmurou.
Rozzano continuou imvel, apenas o brilho nos olhos negros traindo-o. Sophia, soltou os cabelos, deixando que lhe casca-teassem pelos ombros. Engolindo em seco com a prpria audcia, deslizou a ponta dos dedos pelos seios.
	Eu quero ter um filho seu  disse, numa voz rouca.  Eu te amo, Rozzano. Sei que voc no foi infiel a mim. Quero pedir desculpas por ter duvidado de voc. Eu interpretei mal o que vi. Ouvi Arabella conversando com voc do lado de fora da casa de vero. Oh, por favor, perdoe-me!
Ele a estreitou junto a si de imediato, envolvendo-a num abrao ardoroso.
	Oh, minha querida!  claro que a perdoo. Eu tambm teria duvidado de voc sob as mesmas circunstncias. As evidncias pareciam incontestveis. Meu amor, achei que tivesse perdido voc...
Ela ergueu o rosto banhado pelas lgrimas para fit-lo.
	Eu te amo tanto! No pude sequer me imaginar vivendo sem o seu amor...
	Nem eu sem o seu. Acho que me apaixonei por voc logo de incio. S me dei conta disso mais tarde. Foi algo diferente de tudo que eu j havia sentido antes. Achei que eu estivesse agindo racionalmente, fazendo planos porque eu precisava de um herdeiro e voc parecia perfeita para ser minha esposa. Mas, ento, quando estvamos em Londres e voc disse que devamos nos separar, fiquei arrasado. Nem mesmo naquele momento eu pude admitir a verdade: que eu j amava voc. Eu queria proteg-la, cuidar de voc, mant-la a meu lado dia e noite. Quando no estvamos juntos eu me sentia como se algo estivesse faltando. E estava: uma parte de meu corao. Eu me apaixonei perdidamente por voc, querida, a despeito de todos os meus esforos para impedir que isso acontecesse. Eu amo voc mais do que tudo na vida.
Sophia abriu-lhe os botes da camisa.
	Mostre-me  sussurrou.  Agora.
Com ternura, ele deitou-a debaixo de uma rvore, sobre a relva macia, beijando-a longamente nos lbios. Ela sentiu-lhe o calor bem-vindo do corpo forte e rendeu-se ao que lhe dizia o corao. Rozzano a amava! Seu amor era correspondido plenamente. Sentiu-se enlevada no momento em que ele a moldou a seu corpo tornando verdadeira a unio de ambos. Aquele era o homem a quem podia amar, honrar e respeitar pelo resto de sua vida.
Mais tarde, observaram o pr-do-sol refietindo-se sobre o lago. E souberam que para ambos no era o final de um dia, mas o comeo de uma vida maravilhosa juntos. Felizes, retornaram  vila, abraando-se e trocando olhares de profundo amor.
	Eu tenho uma confisso a fazer  murmurou Sophia.
	Sim?  Rozzano mal parou de mordiscar-lhe o lbulo da orelha.
	Eu sempre sonhei em me casar e ser feliz com meu marido...
Ele tomou-lhe os lbios com volpia, interrompendo o beijo longos momentos depois.
	Sim?
	E havia filhos nesse meu sonho...
	Sei.
Ela soltou um gemido deliciado quando Rozzano lhe encontrou o seio por cima da blusa.
	Na verdade, havia quatro filhos nesse meu sonho.
	Quatro.
	Sim.
	Bem,  melhor comearmos agora mesmo.
Ento, sem se importarem com as pessoas pelas quais iam passando... o jardineiro, a governanta, que caminhava pelo pequeno terrao, e um criado no corredor... ele correu de mos dadas com Sophia, chegando ofegante e eufrico  sute nupcial.
Venha aqui, minha princesa  disse, com suavidade.
Sophia abriu-lhe um sorriso radiante e atirou-se em seus braos.
	Meu prncipe!  exclamou, com um risinho. E Rozzano a puniu por sua zombaria da melhor maneira que ela poderia ter imaginado.

FIM
